CAPÍTULO 04: APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS
4.3 A SD DESENVOLVIDA COMO PRODUTO EDUCACIONAL
A proposta de ação na forma de um produto final, ou seja, gerada a partir de uma pesquisa cujo enfoque está voltado, primeiramente, para a compreensão e depois para uma aplicação direta no campo em que se insere, constitui-se da própria SD desenvolvida. Para Ostermann e Rezende (2009), espera-se o desenvolvimento de um produto, o qual deva estar imerso na pesquisa. Segundo Prado (2010), o produto educacional apresenta propostas sistematizadas que foram desenvolvidas
pelo pesquisador em sua realidade de sala de aula e podem ser avaliadas e aplicadas por outros profissionais.
Ao falar de produto, assume-se que este deve ser voltado para o cotidiano de sala de aula e possibilite buscar relevância a partir da inclusão no contexto de vivência dos envolvidos no processo. Assim, o professor, como mediador do conhecimento, reflete e cria estratégias que possam ser aplicadas em contextos diversos, instigando a aprendizagem valorizando os diferentes perfis sendo esse profissional, um pesquisador da sua prática escolar.
O trabalho com sequências didáticas permite a elaboração de contextos de produção de forma precisa, por meio de atividades múltiplas e variadas com a finalidade de proporcionar aos alunos noções, técnicas e instrumentos que desenvolvam suas capacidades de expressão individual em diversas situações de comunicação (DOLZ, 2004). Para Leach, Ametller, Hind, Lewis e Scott (2005) as atividades que são planejadas de maneiras sequenciais podem contribuir para a aprendizagem de diversos conteúdos em ciências. Méheut (2005) indica que, na elaboração de tais atividades é necessário, se atentar ao conteúdo a ser ensinado, as características cognitivas dos alunos (aqui preconizadas pelo espectro das múltiplas inteligências), a dimensão didática relativa à instituição de ensino, motivação para a aprendizagem, significância do conhecimento a ser ensinado e planejamento da execução da atividade.
Christison (1996), Armstrong (2001) e Campbell et al. (2000) sugerem a observação e etapas importantes de um planejamento voltado às inteligências dos alunos para utilizar-se da teoria das inteligências múltiplas em sala de aula. Dentro dessas etapas destacam-se a introdução à teoria, o levantamento das inteligências predominantes, a categorização de atividades que potencializem esses campos e estimule os demais e a observação sistemática e assistemática das ações dos estudantes.
A SD desenvolvida, aqui posta como o produto final apresentado, foi elaborada para a aplicação em espaços formais e não formais de ensino objetivando melhorar a prática profissional no que se refere ao processo de ensino e aprendizagem de conteúdos de Química em suas perspectivas diversas. Foi composta por módulos que abordaram atividades que valorizaram as inteligências mais desenvolvidas de maneira geral na turma além de estimular seus outros
campos de habilidades. Buscou-se identificar inicialmente a relação de cada ação do professor com o espectro de inteligências. A pesquisa mostra como essas relações foram utilizadas para traçar o plano de atividades pedagógicas para o ensino de Reações Químicas ressaltando os pontos fortes dos estudantes, ou seja, as inteligências mais latentes. Os elos firmados entre as inteligências predominantes e as atividades da SD devem ser alterados e adequados de acordo com o perfil de inteligências dos alunos e as relações devem ser estabelecidas dentro dos diferentes meios culturais.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Atualmente a sociedade possui os recursos tecnológicos e humanos para implementar a escola centrada no indivíduo. Consegui-la é uma questão de vontade, incluindo a vontade de resistir às enormes pressões atuais para a uniformidade e para as avaliações unidimensionais. Hoje há fortes pressões, cotidianamente lidas nos jornais, para comparar alunos, para comparar professores, até mesmo países inteiros, utilizando-se uma dimensão ou critério, uma espécie de avaliação de QI- universal. Evidentemente, todas as proposições deste trabalho se opõem diretamente a essa determinada visão de mundo e sua intenção, na verdade, é esta – acusar formalmente esse pensamento de via única.
O presente trabalho consistiu na elaboração e aplicação de uma SD desenvolvida à luz da teoria das IM ilustrada pelo conteúdo “Reações Químicas”, assunto que permeia toda a grade curricular de Química do ensino médio, a uma turma de terceiro ano de uma escola pública da cidade de Betim, Minas Gerais, no ano de 2014. Investigou-se como a teoria das IM pode colaborar para a significação da aprendizagem e das práticas de ensino, utilizando-se da discussão e reflexão sobre esses mecanismos. Os resultados obtidos permitiram inferir que é possível e notadamente relevante não apenas pensar na aprendizagem como um processo individual, como também estabelecer rotas personalizadas para a consolidação desta.
Um ponto em que a Teoria das Inteligências Múltiplas pode contribuir é quando se refere que o professor, conhecendo o aluno, percebendo os seus pontos fortes, os seus interesses, as suas preferências, a utiliza para o direcionamento da sua prática, e que, a partir desse conhecimento, possa tomar decisões no processo de ensino, oferecendo-lhes outras linguagens e possibilidades para a aprendizagem. Quando os estudantes reconhecem que são bons em alguma coisa e quando essa habilidade também é reconhecida pelo professor e pelos colegas, eles experimentam o sucesso e sentem-se valorizados; e quando sua competência é reconhecida na sala de aula, eles se vêm capazes no ambiente escolar, e a autoestima aumenta. Esta é outra grande contribuição da Teoria das IM no sistema educacional. Salienta-se, contudo, que, segundo a teoria, desenvolver as competências dos alunos de acordo com suas diferenças não significa limitar
unicamente as áreas de seus interesses em detrimento às demais ou estereotipá- los; pluralizar o conceito de inteligência, reconhecer todo o trabalho do aluno, possibilitar múltiplos pontos de entrada de informações, esses são os propósitos de Gardner com a teoria na perspectiva educacional.
Como sugestão de pesquisas futuras, destaca-se a formação continuada e em serviço de professores como um caminho natural a ser seguido. Intui-se que outros professores e em outros contextos sejam capazes de implementar propostas semelhantes, e que tragam bons resultados. Cursos promovidos pelas Secretarias de Educação, ou pelas próprias universidades seriam capazes de prover aos professores os recursos necessários para um trabalho desse porte.
A educação é uma necessidade e uma responsabilidade da sociedade. No que diz respeito ao conhecimento químico, este representa um campo vasto de carências e problemas, mas muito fértil de iniciativas e especialmente novas perspectivas, que surgem com a expansão das pesquisas no campo educacional. Há dificuldades das mais diversas ordens, mas também existe elevado potencial de ação afirmativa nos mais diferentes segmentos de interação da Química com o ensino, inclusive representadas pela neurociência, que tem um papel essencial a desempenhar nesse processo. É urgente organizar esforços para substituir tempo e energia consumidos na execução de propostas isoladas, atemporais e, em alguns casos conflitantes, dos diferentes setores da universidade e das políticas públicas por mecanismos mais eficientes de atuação.
Pretendemos, modestamente, ao final deste texto, contribuir para a reflexão sobre a função social da psicologia contemporânea educacional, os mecanismos de estímulos das variadas competências intelectuais, as metodologias adaptativas em ensino de Química e seus espaços de atuação e, quem sabe, incentivar alguma nova iniciativa nesse campo.
Os resultados desse estudo revelam a possibilidade de Intervenções Pedagógicas baseadas na pluralidade intelectual. Entretanto, é preciso considerar todas as variáveis do contexto escolar, assim como a articulação dessas variáveis. Além disso, conceber a Teoria das Inteligências Múltiplas no ensino público não se constitui em uma prática simples, mas se apresenta como um enorme desafio para todos os envolvidos na educação.
Cabe ressaltar que para uma prática pedagógica nessa perspectiva, não se trata simplesmente de relatar que todos nós somos diferentes, mas para que ocorra a aprendizagem, a sociedade e a escola precisam transcender o discurso da diversidade humana, da pluralidade intelectual e realmente desenvolverem ações sociais, políticas e pedagógicas comprometidas com a complexidade do ser humano.
Os obstáculos reais à educação centrada no indivíduo não são restrições financeiras ou as limitações de conhecimento, mas, ao invés disso, as questões de vontade. Na medida em que escolhe-se acreditar que a abordagem centrada no indivíduo não é válida ou mesmo não é prática, ela parecerá utópica. Entretanto, decidindo-se abraçar os objetivos e métodos de educação centrada no indivíduo, não há dúvida de que pode-se fazer progressos significativos nessa direção.
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