A sedimenta¸c˜ao p´os-rifte na zona costeira baiana, com exce¸c˜ao da Forma¸c˜ao Barreiras, ´e pouco expressiva, quando comparada com a margem sudeste do Brasil.
Desde o final do rifteamento mesoz´oico implantado em toda costa brasileira, que culminou com o rompimento do antigo Cr´aton do S˜ao Francisco-Congo, a falta de uma grande fonte de sedimentos resultou em uma zona costeira com o embasamento cratˆonico praticamente aflorante e as bacias de margem passiva adjacentes apresentando plataformas continentais estreitas.
O efeito da falta de sedimentos ´e bem vis´ıvel na Bacia de Jacu´ıpe onde, desde o final do rifteamento, a linha de costa do litoral norte do Estado da Bahia tem se mantido pr´oxima a sua localiza¸c˜ao atual. A “quebra” da plataforma desta bacia, que praticamente coincide com a linha de charneira da fase rifte, marca tanto um limite abrupto entre a plataforma e o talude, quanto a divis˜ao entre as regi˜oes de embasamento raso e profundo (Dominguez et al., 2011).
O pequeno aporte sedimentar nesta regi˜ao ´e interpretado como reflexo tanto da escas- sez de uma grande fonte de sedimentos (Dominguez et al., 2011) quanto do reduzido so- erguimento das ombreiras (Magnavita, 1992), muito comum em riftes implantados sobre embasamento cratˆonico (Alkimim, 2004).
Aliado `a essas caracter´ısticas, a costa baiana experimentou, pelo menos, trˆes grandes soerguimentos (Japsen et al., 2012) que elevaram a margem continental e expuseram os sedimentos a processos de pereplaniza¸c˜ao (Arai, 2006) (Figura 3.7).
Na margem oposta `as bacias de Sergipe e Jacu´ıpe, os soerguimentos regionais propiciaram um maior volume de sedimentos e, consequentemente a implanta¸c˜ao de cˆanions (Ridente et al., 2007; Jobe et al., 2011). Jobe et al. (2011) apresentou uma evolu¸c˜ao dos cˆanions na Bacia do Rio Muni (correlata africana da bacia de Sergipe-Alagoas) onde o soerguimento tectˆonico gerou aumento do suprimento de sedimentos e, possibilitou uma mudan¸ca dr´astica nas morfologias dos cˆanions, que passaram de cˆanions agradacionais e ricos em lama para cˆanions erosivos e ricos em areias.
O soerguimento mais expressivo na costa brasileira ocorreu no Eoceno. Este per´ıodo ´e caracterizado como um per´ıodo de intenso vulcanismo (Almeida et al., 1996; Freire et al., 2012), soerguimento (Japsen et al., 2012) e gera¸c˜ao de uma discordˆancia regional (Cob- bold et al., 2012). Esses efeitos se reproduzem tamb´em na por¸c˜ao emersa onde, devido `
a exuma¸c˜oes ou `a n˜ao-deposi¸c˜ao, apenas um fino pacote de sedimentos da fase p´os-rifte se encontra presente acima do embasamento cristalino, ora caracterizado como Forma¸c˜ao Barreiras ora como dep´ositos quatern´arios.
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Figura 3.7: Soerguimentos ocorridos durante o Cret´aceo/Cenoz´oico na costa bai- ana. Modificado de Japsen et al., (2012).
Segundo as interpreta¸c˜oes das curvas de is´otopos de carbono e oxigˆenio, entre o final do Eoceno e primeira metade do Oligoceno ocorreu um aumento do volume de gelo, seguido por uma redu¸c˜ao do volume de gelo no in´ıcio do Mioceno, respons´avel pela grande transgress˜ao marinha ocorrida em todo o globo. Neste per´ıodo, a zona costeira do Estado da Bahia come¸cou a adquirir uma morfologia mais pr´oxima dos dias atuais (Dominguez e Bittencourt, 2012).
O planeta Terra experimentou durante o Oligo-Mioceno e Mioceno as subidas do nivel do mar mais signicativas desde o Cenomaniano, resultando em incurs˜oes marinhas em diversas margens continentais do globo (Rosseti et al., 2013). Esta subida do n´ıvel do mar, aliada ao soerguimento miocˆenico da Prov´ıncia da Borborema (Oliveira, 2008), foram os repons´aveis pela deposi¸c˜ao do maior volume de estratos p´os-rifte expostos ao longo da margem brasileira (Figura 3.8).
Os depositos do Oligo-Mioceno/Mioceno do litoral brasileiro s˜ao litoestratigraficamente conhecidos como Forma¸c˜ao Barreiras e Pirabas (Rosseti et al., 2013; Rosseti e Dominguez, 2012), formando uma faixa cont´ınua e estreita que recobre o embasamento cratˆonico. Apesar de sua ampla distribui¸c˜ao, esta unidade ´e litologicamente e estratigraficamente homogˆenea (Rosseti et al., 2013).
Figura 3.8: Dep´ositos do Oligo-Mioceno na margem continental brasileira. Modifi- cado de Rosseti et al., (2013)
Segundo Rosseti et al. (2013), a Forma¸c˜ao Barreiras, na margem nordeste do Brasil, foi depositada durante os epis´odios trangressivos do Oligo-Mioceno e Mioceno m´edio e posteri- ormente foi exposta a eros˜ao suba´erea e forma¸c˜ao de solos de 17,86 Ma at´e o Quatern´ario tardio. Por toda a costa baiana os dep´ositos Oligo-miocˆenicos da Forma¸c˜ao Barreiras s˜ao recobertos por dep´ositos quatern´arios, indicando que a sedimenta¸c˜ao foi renovada somente no Quatern´ario.
Ap´os o Mioceno m´edio, o n´ıvel eust´atico do mar desceu progressivamente, em con- sequˆencia do continuado ac´umulo de gelo na Ant´artica e no Hemisf´erio Norte, desencadeando um processo erosivo e entalhamento de uma rede de drenagens sobre a superf´ıcie da Forma¸c˜ao Barreiras (Dominguez et al., 2012).
Esse rebaixamento progressivo foi ocasionalmente interrompido por per´ıodos de mar alto (est´agios isot´opicos MIS11, MIS9, MIS5, MIS1) nos quais, devido `a a¸c˜ao das ondas, foram esculpidas fal´esias na Forma¸c˜ao Barreiras (Dominguez et al., 2012).
A Figura 3.9 mostra as configura¸c˜oes da linha de costa durante a transgress˜ao do Mioceno e os Est´agios Isot´opicos Marinhos MIS11, MIS9, MIS5 e MIS1.
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Segundo o modelo conceitual para a sedimenta¸c˜ao quatern´aria costeira do Estado da Bahia descrito por Dominguez et al. (2012), desde o Mioceno a zona costeira vem sofrendo um rebaixamento progressivo do n´ıvel eust´atico. Isto desencadeou um processo erosivo que afetou inicialmente a superf´ıcie da Forma¸c˜ao Barreiras e posteriormente possibilitou a incis˜ao de vales na plataforma continental.
Segundo Dominguez et al. (2012), durante os per´ıodos de n´ıvel de mar alto foram es- culpidas fal´esias na Forma¸c˜ao Barreiras. Estes eram per´ıodos em que as taxas de subida do n´ıvel do mar eram superiores `as taxas de suprimento de sedimentos e, como consequˆencia ocorria a inunda¸c˜ao dos vales e o recuo da linha de costa.
Assim, englobando todos os aspectos geol´ogicos descritos at´e ent˜ao pode-se descrever a zona costeira do litoral norte da Bahia como: Uma regi˜ao cratˆonica com embasamento cristalino granulitizado praticamente aflorante, recoberta por uma se¸c˜ao sedimentar composta pela Forma¸c˜ao Barreiras e sedimentos Quatern´arios.
O embasamento cristalino est´a orientado segundo as antigas zonas de sutura do cr´aton que, posteriormente, foram reativadas devido `a esfor¸cos atuantes no rifteamento Cret´aceo.
A se¸c˜ao sedimentar que recobre este embasamento foi originada durante as transgress˜oes marinhas miocˆenicas e, posteriormente, foi retrabalhada pelas oscila¸c˜oes do n´ıvel do mar durante o Quatern´ario.
O caminho evolutivo, que inicia na abertura do oceano Atlˆantico e prossegue at´e o recente, explica praticamente todas as fei¸c˜oes observadas neste litoral, mas alguns aspectos, como a dimens˜ao do vale do Itapicuru, o recuo da linha de paleo-fal´esias entre outros, n˜ao s˜ao contemplados nesses modelos evolutivos.
Provavelmente, controles geol´ogicos s˜ao respons´aveis pelas peculiaridades presentes no litoral baiano. Nos pr´oximos cap´ıtulos, atrav´es da aplica¸c˜ao de metodologias geof´ısicas, ser˜ao discutidos estes controles e os poss´ıveis per´ıodos de sua atua¸c˜ao.
Figura 3.9: Configura¸c˜oes da linha de costa durante a Transgress˜ao Miocˆenica e os Est´agios Isot´opicos Marinhos 1, 2, 5e, 9 ou 11. Modificado de Domin- guez et al. (2012)
CAP´ITULO 4
M´etodos Geof´ısicos Aplicados
A geof´ısica ´e uma das ciˆencias que “enxergam” o planeta Terra e outros corpos celestes, atrav´es de suas propriedades f´ısicas. Cada t´ecnica geof´ısica, ou m´etodo geof´ısico, se prop˜oe a estudar uma por¸c˜ao do planeta a partir de uma propriedade f´ısica espec´ıfica, tal como a densidade, a susceptibilidade magn´etica, a resistividade el´etrica, entre outras.
Cada metodologia geof´ısica trabalha com um espectro de frequˆencia destinado a estudar uma faixa de profundidade espec´ıfica. Quanto maior a profundidade de investiga¸c˜ao menor ´
e a frequˆencia envolvida, e como consequˆencia do grande alcance, menor ´e a resolu¸c˜ao.
Assim, um estudo geof´ısico ideal deve ter um alvo espec´ıfico e, sempre que poss´ıvel, utilizar informa¸c˜oes a priori para diminuir as incertezas de cada interpreta¸c˜ao. No final, as informa¸c˜oes obtidas devem ser interpretadas de acordo com as informa¸c˜oes e o conhecimento da geologia presente na ´area do levantamento.
Nesta disserta¸c˜ao foram utilizados os m´etodos geof´ısicos el´etricos, gravim´etricos e magn´e- ticos (Figuras 2.1 e 2.2). As sondagens el´etricas verticais, apesar de possuirem outras fina- lidades, foram aqui utilizadas para definir a profundidade do embasamento cristalino. A gravimetria foi aplicada tanto em um estudo de car´ater regional (definindo as grandes estru- turas e os lineamentos) quanto em um estudo local.
A combina¸c˜ao do perfil gravim´etrico de detalhe com as sondagens el´etricas verticais, cruzando todo o vale do rio Itapicuru, nos permitiu inferir a geometria do embasamento. A magnetometria, devido `a sua abrangˆencia espacial, foi aplicada regionalmente para se determinar as grandes estruturas do embasamento.
Nas pr´oximas p´aginas, com a finalidade familiarizar o leitor, se encontra um breve resumo das t´ecnicas geof´ısicas utilizadas neste trabalho. O car´ater sucinto da descri¸c˜ao de cada metodologia teve como objetivo facilitar a leitura. Em cada subitem ser˜ao apresentadas referˆencias bibliogr´aficas, para os leitores que procuram mais informa¸c˜oes sobre o processo de aquisi¸c˜ao e da prepara¸c˜ao dos dados.