METODOLÓGICAS
5.1 A segmentação do corpus em sequências discursivas
Neste item, trato dos resultados relativos à segmentação das reportagens em sequências narrativas, descritivas e deliberativas. Como explicado no capítulo anterior, a identificação das sequências narrativas e a elaboração do tipo narrativo da reportagem ocorreram simultaneamente, e o processo de elaboração desse tipo será explicitado em detalhes nos próximos itens. Mas a identificação das sequências descritivas e deliberativas se fez com base nos instrumentos de análise propostos pela forma de organização sequencial em sua versão atual, tal como apresentada no capítulo 2. Isso
168 porque a elaboração dos tipos descritivo e deliberativo do gênero reportagem não faz parte dos objetivos desta pesquisa.
Após a segmentação das reportagens73, obtive os seguintes resultados:
TABELA 3
Frequência de sequências discursivas no corpus
Tipo de discurso No de sequências discursivas % Narrativo 129 51,0 Deliberativo 103 40,70 Descritivo 21 8,30 Total 253 100
Esses resultados revelam haver, no corpus estudado, o predomínio de sequências narrativas em relação às sequências pertencentes aos demais tipos. Essa predominância de sequências narrativas aponta já para o impacto do gênero reportagem sobre o nível sequencial de seus exemplares. Como vimos no capítulo 3, o produtor desse gênero é o jornalista, o qual, na busca por atender às exigências de atualidade, credibilidade e captação, tem o dever social e ético de informar o cidadão acerca dos acontecimentos que se passam no espaço público. Esses elementos relativos ao mundo em que o discurso se insere acabam levando o jornalista a produzir um número maior de sequências narrativas e um número menor de sequências deliberativas e descritivas.
Como as sequências narrativas serão estudadas detalhadamente nos próximos itens, apresento, para demonstrar os procedimentos empregados na segmentação do corpus, uma sequência descritiva e uma sequência deliberativa. A sequência descritiva abaixo foi extraída da reportagem “Ele tem 150 000 metros quadrados”, da revista Veja.
(01) (01) A paranaense Foz do Iguaçu abriga Itaipu, a maior hidrelétrica do país, (02) e é o principal
corredor de contrabando vindo do Paraguai. (03) Desde novembro, (04) tem também o maior estacionamento do Brasil. (05) Ele se estende por 150 000 metros quadrados, um espaço equivalente ao dos cinco pátios que a Fiat mantém em sua fábrica em Minas Gerais. (06) Enquanto a garagem mineira aloja a produção da líder do mercado nacional de automóveis, (07) a do Paraná guarda bens encontrados nas mãos de criminosos. (08) A área é mantida pela Receita Federal.
169 Interpreto que esse segmento seja uma sequência descritiva, porque, por meio dele, o jornalista apresenta as características e as propriedades de duas entidades referenciais ou temas-títulos: a “paranaense Foz do Iguaçu” e o “maior estacionamento do Brasil”. Inicialmente, o jornalista ativa o conceito “Foz do Iguaçu”, derivando dele, por processos de aspectualização, três propriedades: “abriga Itaipu, a maior hidrelétrica do país”, “é o principal corredor de contrabando vindo do Paraguai” e “tem também o maior estacionamento do Brasil”.
Em seguida, por um processo de tematização, o jornalista transforma o conceito “o maior estacionamento do Brasil” em um novo tema-título. Feita essa transformação, o jornalista apresenta as propriedades desse conceito: tem uma área de 150 000 metros quadrados, guarda carros encontrados em poder de criminosos e é mantido pela Receita Federal. Por um processo de relação, o jornalista ainda compara esse estacionamento com o de uma montadora de carros localizado em Minas Gerais, para verificar que o de Foz do Iguaçu é bem maior. Represento esses processos de derivação referencial por meio desta estrutura conceitual:
Foz do Iguaçu
Itaipu Corredor de contrabando O maior estacionamento
Sua área Guarda carros Mantido pela
de criminosos Receita Federal
Pátio da Fiat
FIGURA 17 - Estrutura conceitual de sequência descritiva
Já a sequência deliberativa abaixo pertence à reportagem “O passado ainda presente”, da revista IstoÉ, que trata de casos recentes de tortura:
(02) Como mostram as denúncias, os abusos são prática comum entre policiais, agentes
penitenciários, militares das Forças Armadas e até a Força Nacional de Segurança Pública, criada há apenas cinco anos. (...) A impunidade alimenta a truculência sob os olhos condescendentes da sociedade. “Existe a ideia de que alguns, por serem tachados de perigosos, são menos humanos e podem ser tratados com violência”, diz Cecília Coimbra, do grupo Tortura Nunca Mais. O resultado é uma rotina de abusos cujas vítimas agora são majoritariamente os mais pobres.
170 No modelo modular, considera-se difícil reduzir a diversidade das sequências deliberativas a um esquema referencial ou a um tipo de discurso único. Assim, para definir o tipo deliberativo, o modelo não busca contribuições da proposta de Adam (1992, 1999), não podendo esse tipo ser identificado com os protótipos da sequência argumentativa ou da explicativa elaborados por esse autor. Por essa razão, no modelo, definem-se como deliberativas as sequências que não atualizam o tipo narrativo ou o descritivo (ROULET; FILLIETTAZ; GROBET, 2001).
Dessa forma, interpreto que a sequência acima é deliberativa, uma vez não ser possível identificar a apresentação das propriedades de um tema-título, nem a atualização de uma cadeia culminativa de acontecimentos. Nela, o jornalista defende um ponto de vista contrário às práticas de tortura. Ele não descreve as características dos torturadores ou narra como ocorreu um caso específico de tortura.
Como exposto no capítulo anterior, a identificação das sequências descritivas e deliberativas se baseou apenas na análise de suas estruturas referenciais e não levou em conta a análise de suas estruturas hierárquicas.
Nesta etapa inicial da análise, os resultados revelaram que a reportagem é um gênero predominantemente narrativo. A constatação de que nesse gênero predominam sequências narrativas constitui uma justificativa suplementar, agora fornecida pela primeira etapa da análise sequencial, para realizar o estudo do tipo narrativo da reportagem.