FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
3.3 Forma de organização estratégica
3.3.1 Definindo o contexto
3.3.1.2 Enquadre interacional
No modelo modular, o módulo interacional se ocupa da materialidade das interações. Mais especificamente, ele trata das propriedades materiais da situação de ação efetiva e das situações de ação representadas (ROULET, 1999b). Nesse sentido, toda interação se estabelece através de um canal, dispõe seus interactantes uns em relação aos outros no tempo e no espaço e define suas possibilidades de agir e de retro-agir. Dessa forma, a
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Ao tratar do leitor de jornais de referência, observa Emediato (2007, p. 88): “O jornal de referência constrói a figura de seu destinatário como uma instância cidadã que, para inserir-se nesse contrato de leitura, deve interpretar algo identificado com essa figura. Nesse caso, é enquato instância cidadã que o leitor deverá situar sua posição de leitura”. Essas observações se aplicam ao leitor das revistas estudadas nesta pesquisa, as quais são consideradas veículos de comunicação de referência (HERNANDEZ, 2006).
139 materialidade de uma interação pode ser definida por meio de três parâmetros: o canal, o modo e o tipo de vínculo da interação.
Todo discurso implica, pelo menos, um canal de interação. O canal diz respeito ao suporte físico utilizado pelos interactantes: oral, escrito, visual. Burger (2001, p. 141) fala em “suporte dominante do discurso”, para se referir ao fato de que muitas interações utilizam mais de um canal, e dá como exemplo o jornal televisivo, do qual a voz do jornalista constitui o suporte dominante, enquanto os seus gestos constituem índices transversais para a comunicação.
Todo discurso implica também um modo de interação. O modo diz respeito à posição dos interactantes no tempo e no espaço. Assim, fala-se em co-presença espacial e/ou temporal, quando os interactantes se encontram em um mesmo ambiente. Esse é o modo que caracteriza as interações face a face. Por outro lado, fala-se em distância espacial e/ou temporal, quando os interactantes não se encontram em um mesmo ambiente. Esse é o modo que caracteriza a troca epistolar, em que há distância espacial e temporal. É importante realçar que nem sempre co-presença temporal implica co-presença espacial. No modo que caracteriza a conversa telefônica ou o bate-papo on-line, por exemplo, existe co-presença temporal entre os interlocutores, mas eles não se encontram em um mesmo ambiente.
Todo discurso implica, por fim, um tipo de vínculo. O tipo de vínculo se refere à existência ou não de reciprocidade entre os interactantes. Conforme Burger (2001), as interações face a face podem favorecer a reação à fala do outro e, consequentemente, a existência de reciprocidade entre os interactantes. Já as interações em que há distância espacial e temporal entre os interactantes podem favorecer um tipo de vínculo unidirecional, ou seja, uma interação em que apenas um deles comunica.
Embora possa haver combinações preferenciais desses três parâmetros, eles são independentes, cada discurso apresentando uma combinação específica. A combinação dos três parâmetros de uma interação em particular é representada, no modelo modular, por meio do enquadre interacional. Como resultado da análise da materialidade da reportagem “Desvios subterraneos”, obtém-se o seguinte enquadre interacional:
140 FIGURA 15 - Enquadre interacional da reportagem “Desvios subterrâneos”
A complexidade desse enquadre se verifica pela existência de quatro níveis interacionais, correspondendo a um total de oito posições interacionais. Assim, no nível mais externo, a interação que a reportagem “Desvios subterrâneos” viabiliza reúne dois interactantes: a instância midiática ou de produção e a instância de recepção. A instância de produção corresponde à empresa jornalística responsável pela produção e pela comercialização da revista de que a reportagem faz parte, a revista Veja. Já a instância de recepção diz respeito ao conjunto virtual de leitores da revista.
No segundo nível, interagem os vários responsáveis diretos pela produção da reportagem (repórteres, fotógrafos, editores, etc) e os leitores efetivos dessa reportagem. Esse nível sofre influência direta do nível superior, mais externo. Afinal, os autores de uma reportagem não são livres para agir como querem, porque estão institucionalmente vinculados à empresa jornalística para a qual trabalham (CHARAUDEAU, 2004; SIMUNIC, 2004). Essa influência direta explica por que a leitura de uma reportagem pode motivar comentários, tais como: “A revista X é tendenciosa” ou “A revista Y é que tem razão”.
141 No terceiro nível, a interação se dá entre o narrador, o jornalista, e o narratário, o cidadão. Nesse nível, a heterogeneidade de atores envolvidos no processo de produção da reportagem ganha uma aparente homogeneidade, porque eles se reúnem sob a figura, construída no discurso, do narrador, cujo status social é o de jornalista. Como os vários produtores empíricos de uma reportagem buscam construir um efeito de homogeneidade autoral (CHARAUDEAU, 2006), a qual contrasta com a heterogeneidade dos vários autores empíricos envolvidos na produção de uma reportagem, proponho distinguir as figuras do repórter e do jornalista. Enquanto o repórter é um dos autores empíricos da reportagem (segundo nível interacional), o jornalista é o narrador ou a figura homogênea de autor que se constrói no discurso (terceiro nível interacional). Nas análises, essa precisão terminológica será importante para evitar confusões entre os níveis interacionais.
Nesse terceiro nível, quem interage com a figura do narrador é o narratário, o qual também é uma construção do discurso que busca homogeneizar a diversidade dos leitores empíricos por meio da figura do cidadão. Conforme Emediato (2007), interações monolocutivas ou monologais, como a que ocorre por meio do jornal impresso, fazem com que a instância responsável pela produção do discurso crie um destinatário previsto, que, como “figura imaginária”, não corresponde ao leitor efetivo. Com efeito, o narratário constitui uma construção intratextual que fornece indicações sobre como os leitores devem se apropriar do texto, compreendendo o tipo de relação que devem estabelecer com o narrador (RABATEL, 2007).
Nos três níveis mais externos, as interações se caracterizam pelos canais escrito (a parte verbal da reportagem) e visual (as fotografias que acompanham a reportagem e das quais não me ocupo neste trabalho), pela distância espacial e temporal entre os interactantes e pela não-reciprocidade.
No nível mais interno, a interação reúne os personagens que dialogam no mundo representado. Nesse nível, a interação entre os personagens pode ser caracterizada de duas formas, dependendo da forma como essa interação é representada no discurso. Na primeira forma de interação, esta se caracteriza pelo canal escrito, pela distância espacial e temporal e pela não-reciprocidade. Essa forma de interação ocorre quando o narrador representa uma interação ocorrida por meio de gêneros escritos, como ilustra este trecho da reportagem: “‘Antieconômica’, ‘recheada de graves falhas’ e
142 ‘superdimensionada’. É assim que o TCU descreve em seus relatórios a construção da nova sede do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, em Brasília.”. Aqui, o narrador representa uma interação entre o Tribunal de Contas da União (TCU), que produziu os relatórios, e o próprio narrador, que interagiu com o TCU por meio da leitura desses relatórios.
Mas, nesse nível mais interno, a interação entre os personagens pode se caraterizar de outra forma. Nesta, a interação se caracteriza pelo canal oral, pela presença espacial e temporal e pela reciprocidade, quando o narrador representa, por exemplo, uma interação face a face entre dois políticos.
Como a descrição dos enquadres acional e interacional deixa perceber, a noção de contexto não é simples, uma vez que envolve informações dos dois módulos da dimensão situacional sobre parâmetros relativos às ações realizadas pelos agentes e às posições acionais e interacionais que assumem. Com esses instrumentos, é possível obter um inventário rico, embora não exaustivo, das restrições que emergem em uma situação particular e que impedem os agentes de simplesmente reproduzir conhecimentos genéricos, forçando-os a passar esses conhecimentos por processos de acomodação locais, o que implica a gestão das relações de faces, territórios e lugares. Portanto, a combinação dos resultados das análises realizadas com esses instrumentos e dos resultados da análise das formas de organização sequencial e composicional permite à forma de organização estratégica descrever as funções contextuais das sequências discursivas particulares.