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Modelo de Análise Modular do Discurso – panorama geral

No documento A construção da narrativa em reportagens (páginas 57-63)

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1 Modelo de Análise Modular do Discurso – panorama geral

Desenvolvido na Universidade de Genebra por Eddy Roulet e equipe, o Modelo de Análise Modular do Discurso constitui um instrumento de descrição e explicação da complexidade discursiva. Em sua versão atual (FILLIETTAZ, 2004; FILLIETTAZ; ROULET, 2002; MARINHO, 2004; MARINHO; PIRES; VILLELA, 2007; ROULET, 1999a; ROULET, 1999b; ROULET; PIRES, 2001; ROULET; FILLIETTAZ;

58 GROBET, 2001), o modelo compõe um quadro teórico e metodológico que visa a reunir, em uma mesma abordagem da complexidade da organização do discurso, as contribuições de pesquisadores que se centraram em aspectos isolados dessa organização.

Essa postura integradora do modelo se manifesta na sua capacidade de propor o diálogo entre pesquisas desenvolvidas no interior de diferentes disciplinas: Linguística (Bakhtin, Ducrot, Kerbrat-Orecchioni), Sociologia (Goffman, Schegloff), Filosofia (Habermas, Ricoeur), Psicologia (Vygotsky, Bronckart) (ROULET; FILLIETTAZ; GROBET, 2001; SOARES, 2007). O esforço pela criação de um modelo, ao mesmo tempo, tão amplo e preciso justifica-se pela constatação de que

a construção e a interpretação do discurso são submetidas a três tipos de restrições: restrições que podemos chamar situacionais, ligadas ao universo de referência e à situação de interação; restrições linguísticas, ligadas à sintaxe e ao léxico da (ou das) variedade(s) de língua(s) utilizada(s), e restrições textuais, ligadas à estrutura hierárquica do texto (ROULET;

FILLIETTAZ; GROBET, 2001, p. 44).

Por essas razões, o modelo modular constitui um instrumento de análise, que permite integrar e articular, em uma perspectiva cognitivo-interacionista, as dimensões linguística, textual e situacional da organização do discurso.

Reconhecendo que o discurso é um objeto cuja organização e cujo funcionamento envolvem aspectos dessas diferentes dimensões, Roulet (ROULET; FILLIETTAZ; GROBET, 2001) encontra na modularidade um método satisfatório para dar conta da organização do discurso. Distanciando-se de abordagens cognitivistas, como a de Fodor, Roulet se vale das contribuições de estudiosos como Simon e Nølke, para os quais o estudo modular de sistemas complexos constitui uma abordagem metodológica, que visa a descrever a organização do discurso e não o funcionamento da mente. Nas palavras do autor:

o estudo modular de sistemas complexos (...) propõe uma abordagem que permite dar conta de maneira simples, progressiva e sistemática da organização de objetos complexos, decompondo-os em certo número de sistemas e de subsistemas de informações (ROULET; FILLIETTAZ;

GROBET, 2001, p. 30).

Com base nesse método, a identificação e a combinação dos subsistemas permitem a compreensão progressiva do objeto complexo que deu origem a esses subsistemas (FILLIETTAZ; ROULET, 2002).

59 Ao aplicar esse método ao estudo do discurso, o modelo modular considera ser possível descrever, por exemplo, o sistema da língua independentemente da situação de interação em que ela é utilizada, bem como descrever as estruturas sintáticas de uma produção discursiva sem fazer referência à estrutura conceitual que subjaz a ela. Descritas de modo independente as informações que participam da organização do discurso, o modelo postula ainda que essas informações podem ser combinadas, a fim de se descreverem os diferentes aspectos envolvidos na produção e na interpretação dessa organização complexa que é o discurso. Dessa forma, a abordagem modular implica uma dupla exigência:

a) decompor a organização complexa do discurso em um número limitado de sistemas (ou módulos) reduzidos a informações simples e b) descrever de maneira tão precisa quanto possível a forma como essas informações simples podem ser combinadas para dar conta das diferentes formas de organização dos discursos analisados (ROULET; FILLIETTAZ; GROBET, 2001, p. 42). Conforme essa metodologia, identificam-se inicialmente os módulos que entram na composição dos discursos. Um módulo é definido como um sistema de informações elementares, o qual deve fornecer a descrição de um domínio específico da organização discursiva. Essa descrição deve ser exaustiva, coerente, econômica e independente da descrição dos domínios de que se ocupam outros módulos (FILLIETTAZ; ROULET, 2002; ROULET; FILLIETTAZ; GROBET, 2001). Nessa abordagem, considera-se que cada dimensão do discurso se constitui de módulos. Assim, a dimensão linguística se constitui dos módulos lexical e sintático; a dimensão textual se constitui do modulo hierárquico; e a dimensão situacional se constitui dos módulos interacional e referencial. Cada módulo se ocupa dos seguintes fenômenos:

lexical: define a pronúncia, a ortografia, as propriedades gramaticais e o sentido

das palavras das diferentes variedades linguísticas.

sintático: trata das regras que definem as categorias e a construção das estruturas

das sentenças.

hierárquico: define as categorias e as regras que permitem gerar as estruturas

60 • interacional: descreve as propriedades materiais da interação, levando em conta

o canal (oral, escrito, visual), o modo (distância ou co-presença espacial e/ou temporal) e o tipo de vínculo da interação (existência ou não de reciprocidade).

referencial: estuda as relações que o discurso mantém com o mundo no qual é

produzido, bem como as relações que o discurso mantém com os mundos que representa.

Definidos os módulos, é possível descrever e explicar, em seguida, como as informações modulares se combinam em formas de organização do discurso. Na produção e na interpretação de toda forma discursiva, as informações de origem modular se interrelacionam em unidades complexas de análise, que são as formas de organização. No modelo modular, distinguem-se dois tipos de formas de organização: as elementares e as complexas. As formas de organização elementares resultam da combinação ou acoplagem de informações extraídas dos módulos e podem ser assim definidas:

fono-prosódica: combina informações sobre as estruturas sintáticas com

informações sobre as representações fonéticas ou gráficas dos lexemas e tem como objetivo estudar a estrutura prosódica de base do discurso.

semântica: combina informações sobre as estruturas sintáticas com informações

sobre as representações semânticas dos lexemas, a fim de descrever as representações semânticas das proposições.

relacional: combina as informações do módulo hierárquico com informações

dos módulos lexical, sintático e referencial, a fim de identificar as relações de discurso ilocucionárias e interativas entre os constituintes da estrutura hierárquica e informações da memória discursiva.

informacional: combina informações hierárquicas, referenciais, lexicais e

61 descrevendo as diferentes formas de progressões informacionais que se manifestam na sucessão dos atos.

enunciativa: combina informações lexicais, sintáticas e interacionais para

distinguir e definir, nos diferentes níveis interacionais, os discursos produzidos e representados.

sequencial: combina informações dos módulos hierárquico e referencial e tem

como finalidade definir uma tipologia discursiva (narração, descrição, deliberação) e extrair as sequências discursivas em que os tipos de discurso se atualizam.

operacional: combina informações dos módulos hierárquico e referencial,

integrando as descrições dos planos verbal e acional do discurso.

Já as formas de organização complexas resultam da combinação ou acoplagem de informações extraídas dos módulos e das formas de organização elementares e/ou complexas. Essas formas de organização se definem da seguinte forma:

periódica: combina informações hierárquicas e fono-prosódicas ou gráficas e

trata da pontuação do discurso e do modo como os constituintes textuais são segmentados e agrupados.

tópica: combina informações da forma de organização informacional e dos

módulos hierárquico e referencial, para dar conta da maneira como os interlocutores fazem a gestão e o encadeamento dos objetos de discurso no desenvolvimento da interação.

polifônica: combina informações enunciativas, relacionais, linguísticas,

interacionais e referenciais para tratar das formas e das funções que assumem os discursos representados.

62 • composicional: combina informações sequenciais, relacionais, linguísticas e

referenciais, com o objetivo de descrever as formas e as funções, cotextuais e contextuais, das diferentes sequências discursivas.

estratégica: combina informações tópicas, enunciativas, relacionais, linguísticas,

interacionais e referenciais, a fim de descrever a maneira como os interactantes coordenam as relações de faces, de territórios e de lugares no discurso.

Depreende-se dessa exposição que, para o modelo modular, as noções de texto e de discurso não devem ser confundidas e tomadas como sinônimas. Nessa abordagem, o texto tem uma definição bastante específica e diz respeito à forma como os constituintes textuais (trocas, intervenções e atos) se organizam hierarquicamente, sendo, portanto, o seu estudo pertencente ao domínio do módulo hierárquico. Já o discurso possui uma natureza bem mais abrangente e complexa, porque constitui o ponto de interseção das dimensões linguística, textual e situacional. Nesse sentido, o texto constitui uma dimensão específica do discurso, e a compreensão do discurso implica considerar todos os módulos e todas as formas de organização elementares e complexas (FILLIETTAZ; ROULET, 2002; ROULET; FILLIETTAZ; GROBET, 2001).

A arquitetura do modelo é representada por meio do seguinte esquema:

FIGURA 2 - Arquitetura do Modelo de Análise Modular do Discurso Fonte: RUFINO, 2011, p. 81.

63 Nesta apresentação, percebe-se que o Modelo de Análise Modular do Discurso é um instrumento de análise da complexidade discursiva bastante abrangente. Essa abrangência se deve ao fato de que,

com a ajuda de um número limitado de unidades, relações e princípios gerais, visa poder ser aplicado a todas as formas de discurso possíveis e realizáveis – dialógico e monológico, escrito e oral, espontâneo ou fabricado, literário ou não literário – em línguas naturais (MARINHO, 2004, p. 85).

A abrangência e a capacidade integradora do modelo modular constituem precisamente algumas de suas principais vantagens, como observa Traverso (2008, p. 339): “A elaboração de um tal modelo responde a uma das críticas mais recorrentes feitas à análise de discurso quanto à abundância das abordagens, à dificuldade em conciliá-las e em articular seus resultados”. O modelo permite, assim, um diálogo construtivo entre teorias.

Como foi dito, nessa versão do modelo, o estudo dos tipos de discurso, das sequências discursivas e das propriedades emergentes das sequências, como marcação linguística e funções cotextuais e contextuais, se faz em duas formas de organização: a sequencial e a composicional. Essas formas de organização serão descritas de modo detalhado no item 2.3. Antes, porém, é importante conhecer a primeira versão do estudo da heterogeneidade composicional do discurso no modelo modular, a fim de compreender melhor os avanços que a versão atual traz para esse estudo.

2.2 A primeira versão do estudo da heterogeneidade composicional no modelo

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