CAPÍTULO I Desenvolvimento Local, Extensão Rural, Economia Solidária e Segurança
4. A Segurança Alimentar e Nutricional: a trajetória na construção de um conceito
4.1 A Segurança Alimentar e Nutricional no Brasil
De acordo com Flávio Valente et al. (2007), ao longo dos anos, a evolução do conceito
da Segurança Alimentar tem sido discutida e acompanhada a nível internacional e nacional. Entre as questões que são levadas em consideração para a sua construção estão as necessidades dos diferentes povos no mundo e suas épocas. No Brasil, a construção do conceito já vem sendo discutida há pelo menos uns 20 anos e, ao longo desse tempo, vem sofrendo algumas alterações em função da história da população e das sociedades.
Ainda sob as considerações de Flávio Valente (2002), a evolução do conceito em território nacional anda de mãos dadas com a mobilização e as lutas da população no combate à fome, e a favor da democratização social, tendo em vista a construção de uma nação com equidade e justiça econômica e social. Nesse sentido, o referido autor destaca que, em 1994,
no Brasil realizou-se a I Conferência de Segurança Alimentar. Esse evento foi uma articulação desempenhada pela Ação da Cidadania e pelo Conselho Nacional de Segurança Alimentar – CONSEA e se concretizou o entendimento sobre a necessidade da garantia da segurança alimentar e nutricional e o seu reconhecimento como um eixo de fundamental estratégia para o desenvolvimento social do país. Reforçou-se, então, a necessidade de uma concreta parceria entre sociedade civil e governo para efetivação das ações no que tangem as questões relacionadas à segurança alimentar.
Tal exposição sobre a I Conferência de Segurança Alimentar, de acordo com Christiane Costa e Mariana Pasqual (2006), também significou a ampliação da definição de segurança alimentar, resultando na produção de um conceito que Flávio Valente (2002, p.48) assim expõe:
[...] a SAN, portanto, passa a ser entendida como a garantia de todos/as condições de acesso a alimentos básicos seguros e de qualidade, em quantidade suficiente, de modo permanente e sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais, com base nas práticas alimentares saudáveis, contribuindo assim para uma existência digna em um contexto de desenvolvimento integral da pessoa humana.
Ainda sob as considerações de Flávio Valente (2002), anos mais tarde, já de acordo com a II Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional realizada em Olinda-PE, em março de 2004, houve alguns ajustes no conceito de SAN até então estabelecido. Desse modo, o conceito que passa a ser adotado, segundo a Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional – LOSAN, Lei nº 11.346/2006, no artigo 3º da Constituição brasileira é o seguinte:
a Segurança Alimentar e Nutricional consiste na realização do direito de todos ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais, tendo como base práticas alimentares promotoras de saúde que respeitem a diversidade cultural e que sejam ambiental, cultural, econômica e socialmente sustentáveis. (BRASIL, 2006c).
Para Renato Maluf (2009), a aprovação da Lei Orgânica da SAN é considerada uma conquista para a sociedade brasileira, pois é resultado de luta e mobilização social e de iniciativas originadas de governos e organizações sociais. Flávio Valente et al. (2007) ressalta, então, que essa lei foi aprovada pelo Congresso Nacional e sancionada pelo Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, em 15 de setembro de 2006, se fazendo representar como instrumento jurídico que constitui um grande avanço, por considerar a promoção e
garantia do Direito Humano30 Alimentação Adequada – DHAA, como objetivo e meta da Política de Segurança Alimentar e Nutricional.
Discutir sobre a política de Segurança Alimentar e Nutricional, para Renato Maluf (2009, p.20), significa:
O direito à alimentação deve ser assegurado por meio de políticas de SAN, por sua vez, uma responsabilidade do Estado e a sociedade sobre a qual pesam obrigações frente às normas legais universais. O pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais, e Culturais, firmado em 1966 e retificado pelo Brasil estabelece o direto de todos a usufruir um padrão de vida adequado para si mesmo e sua família, incluindo moradia, vestuário e alimentação, e a melhoria contínua das condições de vida.
Desse modo, o conceito de Direito Humano à Alimentação Adequada – DHAA está relacionado ao conceito da Segurança Alimentar e Nutricional, tanto quanto a proposta de políticas para efetivação do seu direito, pois, a alimentação é concebida como componente fundamental dos direitos humanos, para que os indivíduos tenham uma vida digna. Os referidos direitos humanos foram definidos junto a um pacto mundial, do qual o Brasil faz parte. Para tanto, esses direitos claramente fazem referência a um conjunto de situações/condições “necessárias e essenciais para que todos os seres humanos, de forma igualitária e sem nenhum tipo de discriminação existam, desenvolvam as suas capacidades e participem plenamente da vida em sociedade” (BRASIL, 2006a, p.05).
Sob as considerações de Flávio Valente et al. (2007) acrescentam que, junto a Lei Orgânica da SAN sancionada em 2006, também foi previsto a criação do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional - SISAN como um forte componente do DHAA.
É no contexto do SISAN que os órgãos governamentais a nível municipal, estadual e federal juntamente com as organizações da sociedade civil atuam no sentido da “implementação de políticas e ações de enfrentamento à fome e promoção da Segurança Alimentar a Nutricional da população”, na medida em que influencia na definição dos direitos e deveres do poder público e da sociedade, contando com os critérios estabelecidos pelo
30 De acordo com Flávio Valente et al. (2007, p.03) os direitos humanos são aqueles que os seres humanos
possuem, única e exclusivamente, por terem nascido e serem parte da espécie humana. São direitos inalienáveis e independem de legislação nacional, estadual ou municipal específica. Devem assegurar às pessoas o direito de levar uma vida digna. Isto é: com acesso à liberdade, a trabalho, a terra, à saúde, à moradia, à educação, entre outras coisas.
Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional – CONSEA31. (BRASIL, 2006a, p.07).
4.2 As contribuições para a construção de uma política pública de Segurança Alimentar