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Os segmentos da Uva e Banana em seu contexto produtivo

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CAPÍTULO III CODESF Organização da Produção: associativismo, cooperativismo,

1.1 Os segmentos da Uva e Banana em seu contexto produtivo

A dinâmica produtiva dos produtores de Uva e Banana revela-se diferenciada daquela do segmento do artesanato. Os produtores de uva e banana partilham um cotidiano, onde a maior parte de seu tempo é destinada ao desenvolvimento de seus trabalhos, cujas atividades são realizadas no campo (espaço rural no Município).

Na maioria dos depoimentos, os entrevistados colocam que, além de produzirem alimentos com a finalidade de comercialização (no caso uva e banana), eles também produzem alimentos para o autoconsumo da família. Essa diversificação da produção pode, então, estar favorecendo o alcance de uma renda concebida como não monetária44.

Essa estratégia de produção pode estar incidindo (mesmo que não apareça explicitamente nos depoimentos dos produtores) diretamente na organização e composição do orçamento45 familiar, na medida em que um recurso que poderia ser destinado ao consumo de alimentos da família, pode estar sendo utilizado para outro destino, como aquisição e consumo de bens, serviços e outros tipos de alimentos não produzidos, viabilizando, assim, a promoção da Segurança Alimentar a Nutricional.

Os depoimentos a seguir ilustram a produção de uva e banana juntamente com outros tipos de alimentos.

[...] É, uva eu produzo há mais ou menos três anos, e banana há uns quatro, quatro e meio, por ai. Minha propriedade é nova, está em processo de acabamento ainda de plantações, falta muita área plantar. [...] A gente tem duas, três safras por ano. Duas, por causa do tempo chuvoso, que a uva não se adapta bem à chuva, principalmente no meio terreno lá que o clima não favorece no inverno. Eu colho, só, tenho só duas colheitas, como a minha área é pequena, é em torno de meio hectare, 10 quadras eu chego a colher 500, 600 quilos por quadra, então dá em média de uns cinco mil quilos por safra, então um ano dá em torno de, chega a uns doze mil quilos de uva por ano. [Além da banana e da uva você produz algo mais?] A macaxeira, o milho e o feijão, couve e o inhame. Só pra consumo de casa. (UVA e BAN. 02, p.10)

O próximo depoimento ressalta essa diversificação da produção: uva, banana e outros tipos de alimentos, a fim de diversificar ainda mais a sua produção e aumentar o autoconsumo

44

A renda não monetária é a produção destinada ao consumo familiar, o que vai refletir no destino da renda familiar.

45De acordo com Karla Teixeira (2005, p.76), o orçamento Doméstico/Familiar refere-se ao cálculo de previsão

das receitas e das despesas durante um determinado período, que pode ser mensal ou anual. É um procedimento destinado à avaliação e à comparação das receitas e das despesas a efetuar.

de sua produção pela família, e assim garantir uma alimentação mais natural. Também poderemos observar que já existe a preocupação com o beneficiamento e, além de diversificar a produção, essa também pode ser considerada uma estratégia para agregar valor a produção e minimizar a dependência da produção para com os atravessadores, sem contar que pode estar diminuindo o desperdício da uva no período de safra.

[...] Uva e derivados, uma boa parte é uva e vinho, alguma parte assim de polpa, mas a banana é muito pouca, só mais agora tem, nós temos o leite e queijo [...] Nós temos a produção de feijão, feijão verde de setembro a janeiro nós temos a barra debaixo da uva, feijão verde, ai a produção de banana é muito pouca, agora uva eu tenho os doze meses do ano, 365 dias do ano. [...] Tenho sempre, a banana tenho todo mês, agora a uva como eu podo, faço a condução, eu controlo as podas pra ter o ano todo, toda semana que você chegar, eu tenho produção de uva. [...] Nós temos hoje, nós temos a coalhada, nó temos leite, nós temos queijo, a manteiga é feita em casa. Nós não compramos a manteiga de primeira qualidade, hoje nós fazemos a manteiga em casa, a manteiga do próprio leite, e hoje nós temos também a ricota natural, já temos ricota natural. (UVA e BAN. 01, p.02)

Fazendo um destaque aos relatos seguintes, também podemos perceber a demanda para com a assistência técnica na região.

[...] Eu produzo banana, mas já produzi uva, mas não deu certo. [Por quê?] teve uma praga que acabou com as parreiras. Já a banana é uma média que a gente tem de seis milheiros de banana, que a gente ainda vende 90% em unidade, então é um hectare de cem mil bananas cada corte por hectare, seis milheiros por hectare, têm pessoas que produz dez milheiros, doze, porque tem uma adubação muito boa, mas a maioria é uma média de seis milheiro por hectare, que é em torno de 120 quilos por dia. [O senhor planta alguma coisa, além da banana?] Verduras simples, só pra o gasto de casa mesmo. [quais?] Coentro, verdura, couve, essas coisas assim. Macaxeira, as verduras e macaxeira. (UVA e BAN. 03, p.21).

[...] É, por enquanto estou trabalhando com banana, já plantei uvas, estou tentando novamente voltar a trabalhar em escala menor com uva, por enquanto eu trabalho com banana. [Mas por que foi que o senhor desistiu de trabalhar com a uva?] Por que a uva aqui na região da gente, ela mostrou uma incidência muito grande de praga, aí, isso talvez eu não sei, falta de assistência, talvez, não foi o fator principal, não tinha uma assistência adequada, comecei a perder podas seguidas e isso me tirou de tempo, porque financeiramente eu estava contando com aquela safra de uva, então ela caiu as folhas todinhas nas podas que eu fiz. Ficou lá, não amadureceu e me deu prejuízo e eu abandonei. (UVA e BAN. 04, p.124)

Mais adiante, o entrevistado - UVA e BAN. 04 - enfatiza sua intenção de voltar a produzir a uva, mas que tal iniciativa aconteça com segurança, uma vez que está ficando cada

vez mais difícil trabalhar apenas com a produção de banana, em virtude das pragas e da desvalorização da produção pelos atravessadores.

[O senhor pretende voltar a produzir uva?] Diferente, se tiver alguma tecnologia diferente, que permita a gente trabalhar numa escala até menor, pra que possa cuidar melhor dela também e pra eu ter outra alternativa de fonte de renda. Já que banana hoje, ela está matando o produtor aqui, o preço que está como está, muitas pragas, hoje a banana aqui, ela está difícil de se produzir, o preço muito baixo, não tem escoamento. Esse ano foi muito devagar pra outras cidades como Belém e São Luiz. Hoje se usa um monte de coisa na banana, antigamente não se usava, a banana não tinha praga, hoje tem praga e a gente tem que usar um monte de coisa pra combatê-la.

Esses dois últimos relatos salientam a dificuldade de lidar com as pragas, o que nos estimula a refletir sobre a necessidade de uma assessoria técnica contínua na região.

Outro caso isolado refere-se ao produtor de uva 01, o qual salienta aproveitar bem a sua produção na comercialização, sendo esse o motivo que ainda não tenha atentado para o beneficiamento. É importante ressaltar - nesse caso específico - que, como o referido produtor possui uma pequena produção e transporte próprio, o mesmo não é dependente dos atravessadores, pois consegue escoar seu produto nas feiras.

[...] Olhe, eu trabalho, eu tenho duas áreas, eu tenho uma área que fica na comunidade Funda da Mala que fica ao lado, fica sentido sul da cidade, no lado sul da cidade, e a minha área é de dez quadras, no caso corresponde a meio hectare, eu produzo e eu mesmo vendo meus produtos nas feiras livres. [...] Eu sozinho. Eu tenho transporte e eu comercializo meu produto e tenho outra área no meu quintal, que eu chamo de área fundo de quintal. Tem ¼ de um hectare no caso dá cinco quadras. [...] Eu não tenho assim, não tenho um peso, ou melhor, um volume, é fixo porque ela oscila muito. Tem época do inverno ela produz pouco, na época do verão até que produz, mas eu não tenho esse volume fixo. [...] A minha produção ela dá quinze quadras, acho que dá uns 20 mil quilos por ano. [O senhor beneficia a uva?] Não, por que eu aproveito melhor na feira livre, porque pra fazer um vinho tudo é um processo, e o meu processo é só vinte e quatro horas, já volto com dinheiro no bolso. (UVA 01, p.31)

Salientando a questão da uva, nos depoimentos do produtor de uva e banana 01 e do produtor de uva 01, podemos perceber que eles partilham da mesma dificuldade nos períodos de inverno quando há uma diminuição da produção. A assistência técnica poderia estar orientando, de modo a contribuir para que esses produtores não fossem sacrificados nesse período - já que essa é uma questão que pode ser contornada.

Tais relações de trabalho para com o segmento dos produtores de uva e banana acontecem de modo individual46. Isso diferencia a cadeia produtiva do segmento do artesanato. Quando nos referimos ao segmento do artesanato, observamos que, além das artesãs estarem submetidas a uma gestão vinculada à cooperativa, há uma autonomia na organização da gestão interna do grupo, principalmente no que se refere à divisão das responsabilidades relacionadas à produção do trabalho.

Na sequência, os depoimentos retratarão a organização do trabalho nos segmentos dos produtores de uva e banana. Vejamos:

[...] O meu trabalho na produção da uva, não estou bem organizado, porque assim, eu, como comercializo a minha produção para atravessadores, o lucro é pouco e eu não tenho os recursos para manejar do jeito necessário. Então, eu vou me arrastando, levando do jeito que dá. Às vezes, pago alguém para me ajudar. (UVA e BAN. 02, p.13)

O relato seguinte problematiza a atuação do Estado para viabilizar as atividades desenvolvidas no campo. Enfatiza que uma das estratégias para garantir a produção (e menciona que isso é uma realidade para a maioria dos pequenos produtores da região), sem maiores prejuízos monetários, é o uso do defensivo agrícola, uma vez que a atuação dos atravessadores inviabiliza a contratação da mão de obra de terceiros.

[...] Veja bem, pelo motivo de não estar organizado, pequeno produtor nessa região toda, eu costumo dizer que é um batalhador e mais um sofredor. O pequeno produtor deveria ter mais apoio ainda dos governantes, a nível Federal, Estadual e até Municipal, então, o pequeno produtor, ele enfrenta além do preço baixo ele não tem condições de fazer os tratos culturais necessários para poder produzir melhor, então a gente fica naquela, passa uns venenos no mato, não trata mesmo, o trato da cultura da banana não sai organizado do jeito que deveria ser. [como está organizada a sua atividade?] Olha, na atividade é assim, a grande maioria dos produtores, é no meu caso, passa um veneno no sítio, contrata-se, assim é, economiza um dinheirinho, aí contrata uma equipe de trabalhador, faz o serviço, aí, daqui a uns quatro meses é que vem de novo, é a saída que a gente tem, porque se for botar uma propriedade de dez hectares três, quatro trabalhadores, ele não vai ter lucro. (UVA e BAN. 03, p. 4)

Essa realidade exposta não se apresentou diferenciada nos depoimentos dos produtores de UVA e BAN. 01; UVA e BAN. 04; UVA e BAN. 05.

46 Individual no sentido do grupo, pois, para dar andamento às atividades no campo, no período da colheita os

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