CAPÍTULO III CODESF Organização da Produção: associativismo, cooperativismo,
4. Como a CODESF têm lidado com as questões ambientais?
Nos dias atuais, discussões em torno da noção de desenvolvimento sustentável49 estão cada vez mais em pauta. Como vimos, para alguns estudiosos, como Paulo de Jesus (2003) e Franklin Coelho (2001), essa perspectiva de compressão está fortemente ligada à noção de desenvolvimento local, tratada por eles.
Falar de sustentabilidade como uma vertente da proposta do desenvolvimento local nos remete a refletir sobre como estão sendo tratadas as questões ambientais. Ao longo do nosso estudo, essas inquietações também estiveram presentes, ao considerarmos a dinâmica de atuação da CODESF.
Para tanto, alguns depoimentos revelam a sensibilidade de alguns entrevistados/as sobre a preocupação com as questões ambientais. Vejamos a seguir:
[...] Eu me preocupo com os resíduos e as embalagens, hoje nós não temos um local adequado, adequado ainda pra desovar essas embalagens, enquanto eu guardo, enquanto eu estou estocando no quarto dos defensivos, muitos queimam, muitos jogam nos rios, muitos não estão nem aí e deixam debaixo das uvas, e isso aí pra o meio ambiente é uma tristeza. (UVA e BAN. 01, p.04)
[...] Olha, na atividade é assim, a grande maioria dos produtores é no meu caso, passam um veneno no sítio, o objetivo é economizar um dinheirinho, aí contrata uma equipe de trabalhador, faz o serviço, aí daqui a uns quatro meses é que vem de novo, é a saída que a gente tem, porque se for botar uma propriedade de dez hectares três, quatro trabalhadores, ele não vai ter lucro. [...] Na área da produção de banana é muito difícil não usar agrotóxico por causa das pragas, principalmente a cigatoca amarela, agora tenho informação que na área da uva já tem gente que já tá tentando diminuir. É bom se preocupar, mas fica difícil para o pequeno manter a produção. (UVA e BAN. 03, p.24-25).
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Para Carlos Julio Jara citado por Maria do Rosário Leitão (2001), a noção de desenvolvimento sustentável nos remete a pensar em processos de mudanças nas esferas sociais, políticas, econômicas e institucionais, visando à garantia e à satisfação das necessidades básicas das pessoas e a equidade social, no momento presente e para o futuro, a fim de promover oportunidades e situações de bem-estar econômico, respeitando os limites ecológicos em longo prazo.
No caso do segmento do artesanato, a preocupação com as questões ambientais também aparece. Vejamos:
[Foi questionado se na produção do grupo há preocupação com as questões ambientais] Existe. [Como isso acontece?] Por exemplo, quando a gente fazer uma tela, aí o protótipo de papel, aí assim, usa soda cáustica no cozimento, e aí a gente não, aí depois que cozinha, tira da vasilha, deixa lá esfriar e vai tirar aquela água pra poder lavar, então a primeira água a gente tira toda soda cáustica, a gente não despeja, mesmo sendo numa encanação, mas a gente não despeja, a gente deixa ela lá, isso já foi orientação do curso que a gente teve, deixa ela lá, têm um negocinho que mede, fugiu o nome da memória agora, aí a gente vai medir o Ph da água pra ver se já dá pra soltar no esgoto ou não, se não, aí a gente vai ficar medindo todos os dias até a quantidade ideal de Ph, para então a gente ter esse controle. [...] A gente também evita usar o corante artificial, mas, infelizmente algumas pessoas querem os produtos tingidos artificialmente, aí, daí a gente só quando o cliente procura mesmo é que a gente produz, mas assim a gente evita ao máximo usar esses produtos. (ART.01, p.86)
Nesse depoimento, percebemos o cuidado que se tem com a utilização de produtos químicos, o que já é reflexo de uma orientação técnica na produção do artesanato. Mais adiante, a entrevistada continua o seu relato:
E na questão dos troncos, aí a gente já tirando do solo, que se eles fossem ficar lá acumulados eles iam tá é danificando o meio ambiente, porque são os gases e o acúmulo de muitos deles, é, como é que se diz, eles produzem o gás metano, que é um gás muito perigoso, que pode explodir, aí o acúmulo de muitos troncos, eles produzem esse gás.
Na continuidade de sua fala, a entrevistada (ART. 01) salienta a contribuição que a utilização dos troncos da palha da bananeira provoca, beneficiando as questões ambientais, o que nos faz compreender a ligação existente com a proposta da sustentabilidade e do desenvolvimento local, tratada no presente estudo.
As demais entrevistadas do segmento do artesanato argumentam:
[...] Tem aquelas peças que são tingidas com produtos químicos, e nesse caso não. Existem as peças que são naturais, da fibra natural, e tem aquelas tingidas, mas eu acho que a gente deve pensar o meio ambiente também. [o seu trabalho pode contribuir para a preservação ambiental?] É importante, eu acho assim, porque nós vamos no local onde ficam as bananeiras, pegamos aqueles troncos e transformamos eles em produtos de qualidade, em coisa bonita, aí, por isso que eu acho importante, assim aquele tronco, que na verdade, ele depois de cortado ele vai apodrecer lá e a gente pega aquele tronco bonitinho, desfibra, e faz um produto que as pessoas nem acreditam que chegou àquele determinado ponto. (ART. 01, p.61)
[...] Sim, pode, porque a gente aproveita os troncos que não vão servir para nada (ART.07, p.116).
O depoimento seguinte destaca despertamento em relação aos impactos que o uso de produtos químicos pode causar ao meio ambiente:
[...] Com certeza, durante todo esse processo podemos causar, mas não tem não como impedir prejudicar o meio ambiente. Por que assim, a gente usa os produtos [...] o único produto que a gente usa é a soda cáustica e outro para tingir, mas isso é pra situação de papel, pronto, são os dois produtos que a gente usa. Outros não, por que a maioria das fibras são naturais, tingidas, são algumas, e a gente não prejudica o meio ambiente. [...] assim, agente usa soda cáustica, eu creio que não é bom, pronto, é essa parte, pronto, só é ela, o restante não, gente não usa mais produto tóxico. (ART. 04, p.77)
Já as entrevistadas ART. 02 e 06 alegaram não saber responder ao questionamento proposto para análise.
Ao tratarmos a discussão sobre a questão ambiental podemos observar que, mesmo de modo pontual, os/as cooperados/as já atentam para essa preocupação, num esforço de privilegiar uma relação mais amena com o meio ambiente, tendo em vista já considerando a proposta e preocupação, como o nome da CODESF.
Essa preocupação com as questões ambientais também nos aproxima da proposta da agroecologia, dos princípios da Economia Solidária e da Segurança Alimentar e Nutricional, uma vez que busca uma relação mais respeitosa para com a natureza e com a saúde do indivíduo.
Para além da questão ambiental, outro desafio que nos deparamos no decorrer da pesquisa foi em relação ao processo de comercialização, configurado na dependência dos atravessadores para os produtores de uva e banana, o que, de certo modo, já foi anunciado em nossa discussão. Entretanto, elegemos um espaço mais adiante para nos debruçar sobre essa realidade.