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A separação de poderes na antiguidade: a teoria da constituição mista do

3 A EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA DOUTRINA DA SEPARAÇÃO DOS

3.1 A separação de poderes na antiguidade: a teoria da constituição mista do

A separação de poderes do Estado, como doutrina, embora tenha sido concebida à época da construção do pensamento iluminista, tem suas origens fundamentais remontando à Grécia e Roma antigas. Ainda que na antiguidade clássica tais idéias não passassem de um remoto contorno do que viria a ser doutrinariamente formulado e concretizado séculos mais tarde, é certo que muitas concepções sobre a estrutura ideal do Estado surgiram das teorias dos renomados filósofos e pensadores da antiguidade, notadamente Aristóteles.

Desde a Grécia antiga entendia-se como sendo um axioma fundamental para o Estado o fato de que este deveria ser constituído por uma estrutura institucional diferenciada/ não- uniforme, juridicamente fundamentada e estável. Para que tal estabilidade fosse alcançada, era fundamental que as variadas classes sociais, portadoras de interesses diversos e por vezes conflitantes, tivessem acesso equilibrado aos órgãos do Estado, participando global e conjuntamente do poder político do Estado. Tal ideal é o que se chamou doutrinariamente de teoria da constituição mista do Estado.61 PIÇARRA assim nos ensina:

Neste sentido, constituição mista já será aquela em que os vários grupos ou classes sociais participam do exercício do poder político, ou aquela em que o ‘exercício da soberania’ ou o governo, em vez de estar nas mãos de uma única parte constitutiva da sociedade, é comum a todas. Contrapõem-se-lhe, portanto, as constituições puras em que apenas um grupo ou classe social detém o poder político.62

Para muitos autores, o primeiro defensor dessa idéia de constituição mista, e, por conseguinte, um adepto remoto da separação de poderes, foi Platão, que em suas obras Leis e República preconiza a limitação do poder político através da existência de diversas classes sociais por ele enumeradas. Todavia, a História prova que o simples fato de uma sociedade ser constituída por várias classes sociais, não significa absolutamente que esta seja um modelo de constituição mista.63

Assim sendo, o conceito de constituição mista teve sua origem em Aristóteles, que o definia como uma forma de governo, ou seja, como um modo de exercício do poder soberano

61PIÇARRA, Nuno. A Separação dos Poderes como Doutrina e Princípio constitucional: um contributo para

o estudo das suas origens e evolução. 1 ed. Coimbra: Coimbra, 1989. p. 32.

62 Idem. p. 33. 63 Ibidem. p. 34.

do Estado, sendo, por conseguinte, a melhor e mais justa forma de governo, uma vez que contempla a participação de todos os grupos sociais no poder político do Estado.

Em outras palavras, a teoria da constituição mista do Estado atenderia às desigualdades e diversidades normalmente existentes em qualquer sociedade, compondo sua estrutura organizacional sob um sistema pelo qual nenhuma classe preponderasse sobre as outras. Esta idéia de “equilíbrio de forças”, que permaneceu viva ao longo dos séculos é, senão, o germe da idéia de “feios e contrapesos” formulada e desenvolvida na Idade Moderna.

É por isso que é dito que se encontra no modelo aristotélico de constituição mista do Estado, pautada no equilíbrio das classes sociais pela sua igual participação no exercício do poder político daquele, a origem do moderno mecanismo de freios e contrapesos, que é o cerne da atual doutrina da separação de poderes do Estado.

Também na república romana estava presente a idéia aristotélica da constituição mista de um Estado pluralmente organizado através de várias classes sociais. Entretanto particularmente em relação a esse Estado é quase impossível determinar categoricamente o seu modelo de governo, pois, como assevera PIÇARRA: “[...] quando se tem em conta o poder dos cônsules, a forma de governo revela-se inequivocamente monárquica, quando se tem em conta o do senado, aristocrática, e quando se tem em conta o poder do povo, a forma de governo é indubitavelmente democrática”.64 O autor ainda ensina:

A orgânica constitucional da república romana compunha-se de dois cônsules, senado e comícios tribunícios. Cada um destes órgãos participava do exercício do poder político fundamentado em diferentes princípios de legitimidade: o princípio monárquico legitimava o poder dos cônsules, o princípio aristocrático, o do senado, e o princípio democrático o dos comícios tribunícios. Isto quer dizer que cada um destes órgãos refletia um substrato constitucional confinado apenas a uma classe ou ‘potência’ político-social, respectivamente os cônsules, os patrícios e os plebeus 65

O fato é que, ainda diante de tal peculiaridade, é possível distinguir claramente a presença de classes distintas, com interesses igualmente destoantes, exercendo em conjunto o poder político do Estado, e, por isso mesmo, equilibradamente, já que a força exercida por um esbarra na exercida pelos demais, uns forçando (e fiscalizando) os outros a manterem-se dentro de seus limites de atuação gerando, dessa forma, um perfeito equilíbrio dos poderes.

Todavia, diferentemente do modelo aristotélico de constituição mista do Estado, o modelo da república romana apresentava uma característica crucial que os distinguia profundamente: enquanto que no primeiro estava presente a idéia de que todas as classes tinham acesso a todos os órgãos institucionais do Estado, misturando-se em todos eles, no segundo, cada órgão (ainda que constituísse um limite, ou um contrapeso na atuação de outro)

64 PIÇARRA, Nuno. Op. cit. p. 37. 65 Idem. p. 37/38.

era alcançado por membros apenas de uma respectiva classe social, característica fundamental das chamadas sociedades estamentais que vigoraram durante toda a Idade Média e nos Estados Absolutistas.