• Nenhum resultado encontrado

3 A EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA DOUTRINA DA SEPARAÇÃO DOS

4.3 Freios e Contrapesos na Constituição Federal de 1988

4.3.6 Controle do Poder Legislativo sobre o Poder Judiciário

Por derradeiro, o Poder Judiciário também está sujeito ao controle e fiscalização do Poder Legislativo, como, por exemplo, quando este delibera sobre as proposituras legislativas daquele, nos termos do artigo 48 da Constituição Federal de 1988; ou na competência que o Legislativo tem de fixar os subsídios dos Ministros do Supremo Tribunal Federal (Artigo 48, inciso XV), ou, ainda, em matéria de controle de constitucionalidade das leis, quando o Legislativo pode, através da Mesa do Senado Federal, da Câmara dos Deputados, das Assembléias Legislativas dos Estados ou da Câmara Legislativa do Distrito Federal, provocar a aprovação, revisão ou cancelamento de súmula do Supremo Tribunal Federal (parágrafo 3º do artigo 103-A da Constituição Federal de 1988).

Outro importante instrumento que caracteriza a interferência do Poder Legislativo em função típica do Judiciário é o controle exercido através das Comissões Parlamentares de Inquérito, criadas para apurar fato determinado, e detendo poderes de investigação próprios de autoridades judiciais, conforme preceitua o artigo 58, parágrafo 3º da Constituição Federal:

Art. 58. O Congresso Nacional e suas Casas terão comissões permanentes e temporárias, constituídas na forma e com as atribuições previstas no respectivo regimento ou no ato de que resultar sua criação.

[...]

§ 3º - As comissões parlamentares de inquérito, que terão poderes de investigação próprios das autoridades judiciais, além de outros previstos nos regimentos das respectivas Casas, serão criadas pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal,

193 BRASIL. Constituição (1988). Disponível em < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao /

em conjunto ou separadamente, mediante requerimento de um terço de seus membros, para a apuração de fato determinado e por prazo certo, sendo suas conclusões, se for o caso, encaminhadas ao Ministério Público, para que promova a responsabilidade civil ou criminal dos infratores.194

É evidente, portanto, que no instituto das Comissões Parlamentares de Inquérito, o Poder Legislativo pode conduzir seus trabalhos investigativos independente de autorização, ordem ou interferência judicial, e suas conclusões são passíveis de iniciar ações cíveis ou penais, conforme o caso, adotados todos os procedimentos formais necessários.

Frente a toda esta dinâmica acima exposta, não é demais lembrar, inclusive, que dentro deste sistema de controle recíproco entre os Poderes do Estado, também está inserida a questão da politização do judiciário e jurisdicização do poder político, uma vez que, como já foi dito, muitas das decisões judiciais são motivadas por fatores políticos, assim como a elaboração das leis pelo legislador e, conseqüentemente, os atos administrativos deixaram de ser meramente decisões políticas e passaram a ser impregnadas pelo aspecto legal.

194 BRASIL. Constituição (1988). Disponível em < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao /

5 CONCLUSÃO

Ante todo o exposto neste trabalho, ficou claro que a teoria da separação de poderes do Estado e o sistema de freios e contrapesos é decorrência lógica da evolução paradigmática e principiológica do Estado, tanto no seu modelo de organização, quanto da forma típica de governo. Isto porque, nessa construção, gradualmente foi surgindo a necessidade de desvincular o poder político do Estado de uma figura central, ainda que possa parecer cíclico um processo de contínua concentração e desconcentração política.

De fato, nas origens remotas da construção da doutrina, na Antiguidade Clássica, a teoria da separação dos poderes, ou seus contornos fundamentais foi inicialmente concebida como uma maneira de garantir acesso equilibrado das diversas classes sociais, portadoras de interesses conflitantes, aos órgãos do Estado, de forma a participarem global e conjuntamente do poder político do Estado. Mais tarde, contudo, buscou-se na divisão aparente do poder político do Estado, justificar a concentração de poderes nas mãos do monarca, como forma mesmo de sua proteção, dentro do modelo absolutista de Estado. Este processo cíclico se repetiu ao longo da história, até contemporaneamente ser a doutrina da separação de poderes do Estado princípio constitucional basilar de qualquer Estado Democrático de Direito.

Hoje o Estado, entendido como “a ordem jurídica soberana que tem por fim o bem comum de um povo situado em determinado território” na consecução do seu objetivo, necessita que seus órgãos responsáveis pela execução das funções estatais básicas, sejam independentes e harmônicos entre si, a fim de impedir a supremacia de um sobre os outros, o que acarretaria possíveis desmandos e conseqüente desequilíbrio político. Neste diapasão, encaixa-se perfeitamente o objetivo central da separação de poderes, qual seja, o de preservar, em última análise, a liberdade individual.

O sistema de separação de poderes do Estado, assim hodiernamente entendido doutrinariamente como “a divisão funcional do poder político do Estado, com a atribuição de cada função governamental básica a um órgão independente e especializado”, bem como o mecanismo dos freios e contrapesos, como meio de controle e fiscalização recíprocas entre eles, é expressão máxima da própria democracia constitucional.

Ressalta-se, contudo, que não mais persiste a idéia da separação de poderes como forma de equilíbrio entre classes sócias na dinâmica organizacional do poder político do

Estado, mas sim traduzir o próprio poder soberano do Estado, desvinculando-o das pressões exercidas pelas diversas potências político-sociais.

Destarte, o princípio da separação de poderes e o sistema de freios e contrapesos devem traduzir a soberania interna do Estado, cabendo-lhes concretizar a supremacia do poder do Estado perante as forças sociais cada vez mais poderosas e influentes no meio político.

No Estado de Direito contemporâneo, o princípio da separação de poderes deve assumir um caráter estritamente orgânico-funcional, referindo-se apenas ao inter- relacionamento e equilíbrio entre as funções (organizadas em órgãos próprios) do Estado, e não mais ao equilíbrio entre as forças político-sociais. Trata-se, portanto, do equilíbrio, limitação e controle mútuos entre esses órgãos constitucionais.

E é neste sentido que a separação de poderes do Estado, em seu caráter orgânico- funcional, todavia sempre vinculada ao seu objetivo precípuo de alcançar o bem comum, não poderá mais estar à mercê das mudanças de paradigmas quanto à ordem e estruturação do poder político, modelo de Estado ou regime de governo.

O atual sistema de separação de poderes do Estado e seu mecanismo de freios e contrapesos (seja ou não tripartite, como é o mais difundido, importando aqui tão só a sua concepção filosófico-doutrinária), hoje expressão máxima do modelo de Estado Democrático de Direito, devem permanecer intocados perante as mudanças nas tendências político- ideológicas da sociedade, caso estas porventura continuem observando o histórico processo cíclico de concentração e desconcentração do poder político, e, neste sentido, surja uma prejudicial tendência àquela centralização.

REFERÊNCIAS

ALVES JR., Luís Carlos Martins. A teoria da separação de poderes na concepção

kelseniana . Jus Navigandi, Teresina, ano 1, n. 18, ago. 1997. Disponível em:

<http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=59>. Acesso em: 26 ago. 2007.

ALVES, Ricardo Luiz. Montesquieu e a teoria da tripartição dos poderes . Jus Navigandi, Teresina, ano 8, n. 386, 28 jul. 2004. Disponível em:

<http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=5484>. Acesso em: 26 ago. 2007.

BONAVIDES, Paulo. Ciência Política. 10 ed. rev. atual. São Paulo: Malheiros, 2000.

BURDEAU, Georges. Manuel de Droit Constitutionnel. 24 ed. Paris: Librairie Générale de Droit et de Jurisprudence, E.J.A., 1995.

CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito Constitucional. 6 ed. rev. Coimbra: Livraria Almedina Coimbra, 1993.

DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos da Teoria Geral do Estado. 27 ed. São Paulo: Saraiva, 2007.

LOCKE, John, 1632-1704. Segundo tratado sobre o governo civil: ensaio sobre a origem,

os limites e os fins verdadeiros do governo civil. introdução de J.W. Gough; tradução de

Magda Lopes e Marisa Lobo da Costa. – Petrópolis, RJ: Vozes, 1994 – (Coleção clássicos do pensamento político).

MAGALHÃES, José Luiz Quadros de. A teoria da separação de poderes . Jus Navigandi, Teresina, ano 9, n. 489, 8 nov. 2004. Disponível em:

<http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=5896>. Acesso em: 26 ago. 2007.

MALDONADO, Murilo. Separação dos Poderes e Sistema de Freios e Contrapesos:

Desenvolvimento no Estado Brasileiro. Disponível em

MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. Tradução de Maria Lucia Cumo. 12 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.

MARTINEZ, Vinício C.. Fundamentos institucionais do Estado. Jus Navigandi, Teresina, ano 10, n. 1067, 3 jun. 2006. Disponível em: <http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp? id=8453>. Acesso em: 02 abr. 2008.

______ . Estado de Direito Político. Revista Urutágua nº. 06 – abr/mai/jun/jul – Maringá. 2008. Disponível em: <http://www.urutagua.uem.br//006/06martinez.htm> acesso em 09. set. 2008.

MAULAZ, Ralph Batista de. Os Paradigmas do Estado de Direito – O Estado Liberal, O Estado Social (Socialista) e o Estado Democrático de Direito. Disponível em:< http://www.atame-

df.com.br/material/ doc/mat 06032401.doc.> Acesso em 27 jun. 08.

MONTESQUIEU, Charles de Secondat. Do Espírito das Leis. (1748) Tradução de Jean Melville. São Paulo: Martin Claret, 2007.

MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional. 22 ed. São Paulo: Atlas, 2007.

MOREIRA, Marcelo Silva. Montesquieu, ACM, Velloso e FHC: separação de poderes e

suas perspectivas. Jus Navigandi, Teresina, ano 3, n. 34, ago. 1999. Disponível em:

<http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=60>. Acesso em: 26 ago. 2007.

MOTA, Myriam Becho; BRAICK, Patrícia Ramos. História: das cavernas ao terceiro

milênio. 1 ed. São Paulo: Moderna, 1997.

NADER, Paulo. Introdução ao Estudo do Direito. 22 ed. rev e ampl. Rio de Janeiro: Forense, 2002.

PAUPERIO, Artur Machado. Teoria Geral do Estado: direito político. 7 ed. Rio de Janeiro: Forense, 1978.

PIÇARRA, Nuno. A Separação dos Poderes como Doutrina e Princípio constitucional:

PINHO, Rodrigo César Rebello. Da organização do Estado, dos poderes e histórico das

constituições. 8 ed. rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2007. (Coleção Sinopses Jurídicas. vol.

18).

REALE, Miguel. Lições Preliminares de Direito. 24 ed. São Paulo: Saraiva, 1998.

ROUSSEAU, Jean-Jacques, 1712-1778. O Contrato Social: princípios do direito político; tradução de Antonio de Pádua Danesi. 4 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006. (Coleção Clássicos).

SILVA, Marcus Vinicius Fernandes Andrade da. A separação dos poderes, as concepções

mecanicistas e normativas das Constituições e seus métodos interpretativos . Jus

Navigandi, Teresina, ano 9, n. 495, 14 nov. 2004. Disponível em:

<http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=5924>. Acesso em: 26 ago. 2007.

THEODORO FILHO, Wilson Roberto. A crise da Modernidade e o Estado Democrático

de direito. Disponível em< http://www.senado.gov.br/web/cegraf/ril/pdf_165/R165-20>

Acesso em 09. set. 08.

VERDU, Pablo Lucas. Curso de Derecho Politico, Vol. II. 3ª Ed. rev. Madri: Tecnos, 1986.

VICENTINO, Cláudio; DORIGO, Gianpaolo. História para ensino médio: história geral e