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A Sexualidade da pessoa com deficiência é compreendida como um

4.2 A SEXUALIDADE

4.2.2 Concepções da Sexualidade

4.2.2.1 A Sexualidade da pessoa com deficiência é compreendida como um

pessoas com deficiência são assexuadas; as pessoas com deficiência são hipersexuadas e a sexualidade e o desejo como parte do desenvolvimento.

4.2.2.1 A Sexualidade da pessoa com deficiência é compreendida como um problema

Em algumas entrevistas observou-se um desconforto que denunciava um entendimento de que a sexualidade da filha com deficiência intelectual era um problema. Segundo Giami (2004) “a sexualidade dos deficientes mentais é socialmente construída como um problema para os membros do seu meio e pela opinião pública, o que se observa através da mídia” (GIAMI, 2004, p.168).

Maia (2006) fala sobre essa concepção de sexualidade quando refere que há no discurso leigo o entendimento de que a sexualidade da pessoa com deficiência é um “problema” que precisa de solução. As falas que exemplificam isso foram agrupadas nessa subcategoria:

“Nunca teve esse problema.” (Mãe Begônia, se referindo à ausência de manifestações da sexualidade da filha).

“Mas nunca teve assim problema nenhum... de ela ter essa ideia né assim de...” (Pais Bromélia)

“Sempre foi tranquilo, sem problema nenhum, nada de mais sério.” (Irmã Petúnia)

“Tem um carinho, mas não tem malícia. É tranquilo.” (Irmã Rosa)

“Começou a ficar mais complicado, ela queria ficar sempre atrás de um... ela queria sempre... onde tinha um menino ela tava né.” (Mãe Gérbera)

“...ela chegava.. muito..., com muito risco para os homens né, e não sabe com quem que ela está se metendo.” (Pais Orquídea)

Essa concepção de que há uma sexualidade que é por natureza problemática acaba permeando grande parte dos discursos dos pais, ainda que isso não tenha aparecido de forma explícita. E isso se reflete em uma liberdade vigiada e repressão da sexualidade desses indivíduos. Para Fernandes e Lima (2008) a repressão dos comportamentos afetivo- sexuais na pessoa com deficiência intelectual, impede que esses sujeitos busquem a realização e satisfação de uma necessidade fundamental para o seu crescimento e desenvolvimento enquanto pessoa.

A partir da pesquisa na literatura sobre o tema, pode-se supor que a concepção de uma sexualidade problemática é também reflexa de uma ambivalência apontada por Giami (2004). Para este autor a representação da sexualidade dos deficientes, no imaginário coletivo, está impregnada pela visão paradoxal de que eles seriam anjos ou feras, ou seja, em momentos pessoas que despertam simpatia e relacionadas à pureza e, em outros, pessoas que suscitam medo e seres relacionados à ideia de descontrole dos impulsos sexuais (GIAMI, 2004). Em muitos momentos das entrevistas isso se refletiu em referência explícita de que a sexualidade seria problemática. A fala da mãe de Begônia (“Nunca

teve esse problema”), dos pais de Bromélia (“Mas nunca teve assim problema nenhum... de ela ter essa ideia né assim de...”) e da irmã da Petúnia (“Sempre foi tranquilo, sem problema nenhum, nada de mais sério”), são exemplos muito claros disso. Cabe observar também que na fala da irmã de Petúnia a palavra “tranquilo” reforça essa ideia quando aparece logo antes da palavra “problema”.

A fala da irmã de Rosa é bastante interessante porque embora ela não fale diretamente na sexualidade como um problema sugere essa concepção quando, semelhante à irmã de Petúnia, traz o significante tranquilo, que no caso diz respeito à ausência da manifestação sexual. Essa fala também se constitui bastante rica para esta análise quando esse sujeito fala que a irmã só manifesta “carinho”, remetendo a uma representação angelical e a expressão do desejo sexual é visto como “malícia” (“Tem um carinho, mas não tem malícia...”) Isso reporta aos estudos de Giami (2004) que pontua as representações de anjo e fera, presentes na sexualidade do deficiente. Segundo este autor os pais tendem a falar do lado angelical, que compreende o deficiente como uma criança a ser protegida (GIAMI, 2004). Vale dizer que essa mesma interlocutora em outro momento da entrevista fala sobre a sexualidade da irmã como algo que não desenvolveu, reforçando essa “falta” apontada pelo autor.

No entanto, quando a irmã de Rosa refere-se a uma possível manifestação do desejo sexual como “malícia” remete a outra ponta do paradoxo apontado por Giami (2004), o da “fera”; que neste caso vem impregnado também de uma moral religiosa que coloca o sexo no lugar do sujo, do impuro, da maldade. Há também aí uma associação da deficiência ao maligno e demoníaco, que tem suas raízes na Idade Média, mas ainda perpassa as concepções acerca da deficiência em si, bem como mais especificamente da sexualidade das pessoas com deficiência. Para Mary Douglas (1976, p.11-12) (apud MELLO; NUERNBERG, 2012, p. 644): “A possessão do demônio relaciona à deficiência o resultado do pecado e da “condição impura”, a própria ideia da “sujeira [que] ofende a ordem”.

Os estudos de Foucault vão ajudar a compreender essa questão na medida em que o autor denuncia que a cada momento histórico os discursos de saber produzidos a partir do sexo foram ditados como verdade pela Igreja, pelo Estado, ou pela medicina. Esse saber sustenta um discurso ideológico atrelado aos interesses do poder, e que legitimava uma ordem pública que, por sua vez, define o que pode ser considerado normal e anormal, no que diz respeito às práticas sexuais (FOUCAULT, 1988).

Nas respostas dos três outros sujeitos (pais Orquídea e mãe Gérbera) o significante problema não aparece, mas as nuances dessa concepção são evidentes não só pelo conteúdo das respectivas falas, que falam do interesse sexual, como do tom de voz dos pais e da evidente preocupação e desconforto diante das situações relatadas. No caso mais específico da mãe de Gérbera, ela diz claramente que o interesse sexual da filha tornou a situação complicada e refere um incomodo quanto a isso. Já os pais de Orquídea colocam claramente as manifestações do desejo da filha como se isso a colocasse em uma situação de risco e, portanto, origem das preocupações do casal, preocupações estas que mais tarde justificariam a esterilização. Em ambos os casos, em outros momentos da entrevista, utilizam a palavra assédio para se referir a expressões mais explícitas de desejo afetivo-sexual das respectivas filhas.

Além disso, é possível refletir que essa concepção que compreende a sexualidade da pessoa com deficiência como um problema é bastante comum e se revelou também nas entrelinhas de falas da maioria dos interlocutores deste estudo, e se traduziu em respostas muito rápidas ou evasivas à questão que abordava as manifestações da sexualidade e ou mesmo uma negação veemente de que sua filha pudesse expressar desejo sexual.

As falas aqui mencionadas se referiram à sexualidade como um problema a ser resolvido e houve momentos em que pareceu que o método de esterilização cirúrgica seria a possibilidade de solução para essa questão.