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A sexualidade e o desejo como parte do desenvolvimento

4.2 A SEXUALIDADE

4.2.2 Concepções da Sexualidade

4.2.2.5 A sexualidade e o desejo como parte do desenvolvimento

Esta última subcategoria constitui-se na possibilidade dos pais/responsáveis compreenderem a sexualidade como parte normal do desenvolvimento de qualquer indivíduo, com ou sem deficiência. Maia (2001) afirma que: “É inegável que a sexualidade é inerente a todas as pessoas e que o exercício da sexualidade independe em sua manifestação da presença ou ausência de deficiências” (MAIA, 2001, p.38). No entanto, pode-se dizer que apenas um dos sujeitos entrevistados pareceu ter essa compreensão de forma genuína. A fala em que essa concepção se revela é da (Avó Íris):

“Sempre foi tranquilo. Se os outros fazem porque ela não. (...) E eu também não posso castrar ela duma vontade que todo mundo faz”.

Segundo os dados obtidos com este estudo a compreensão da sexualidade como parte do desenvolvimento, no discurso dos pais/responsáveis só apareceu na fala de um dos sujeitos entrevistados. Assim pode-se dizer que essa concepção de sexualidade da pessoa com deficiência é exceção, o que vem ao encontro da literatura, que diz que a sexualidade do deficiente é percebida pelos pais como anormal e tende a gerar conflitos e desconforto quando estes são convocados a olhar para as manifestações dessa sexualidade (GLAT, 1992; DALL‟ALBA, 1992 e 1998; MAIA, 2001 e 2006; MOUKARZEL, 2003; GIAMI, 2004).

Embora outros pais tenham, em alguns momentos das entrevistas, adotado um discurso permissivo em relação à sexualidade da filha, os mesmos sujeitos, em seguida, se contradiziam revelando as falácias do discurso. Acredita-se que provavelmente esse discurso liberal tomou corpo a partir do receio de um possível julgamento ou ainda veio a serviço de buscar uma aliança, assim como em outros momentos observou-se uma tentativa de ter a mim e ao meu estudo como aliados, a partir da ideia de que é melhor para as mulheres com deficiência serem esterilizadas.

Cabe dizer também que na fala da avó de Íris revela-se a concepção de que a sexualidade faz parte do desenvolvimento normal, assim como o desejo e que, portanto, a vivência de uma vida sexual deva existir e é permitida e, por vezes, incentivada pela família. No entanto, ainda que isso seja uma postura mais compreensiva e permissiva quanto aos desejos da neta com deficiência (considerando o contexto das entrevistas realizadas) nota-se que se trata de uma liberdade sexual muito mais vigiada e normatizada do que seria com uma mulher sem deficiência. A avó tem uma percepção diferente dos demais interlocutores, mas a autorização a uma vida sexual ativa é concedida e regulada, de modo que são os responsáveis pelo casal de namorados quem tomam as decisões e definem as regras para que as relações sexuais aconteçam. Assim pode se dizer que é o outro, sem deficiência, que é o detentor do poder, reproduzindo assim as práticas sociais que incidem sobre esses sujeitos. Um fato que denunciará isso e que será discutido em outro capítulo desta dissertação é que Íris, assim como outras mulheres cujos pais/responsáveis participaram desta pesquisa, não sabe que foi esterilizada. Não cabe aqui condenar a postura dessa avó, muito pelo contrário, apenas buscar a dimensão do quão imbricadas e complexas são as relações nessa área.

Ao finalizar este capítulo, podemos afirmar que a negação da sexualidade do deficiente foi uma questão que se destacou no processo de análise das entrevistas. Embora essa questão pudesse ser analisada como uma categoria a parte, considerou-se importante discuti-la de forma transversal, já que a mesma se revela nas duas categorias elencadas bem como nas ausências de respostas, hesitações e lacunas existentes nos depoimentos dos sujeitos. Isso foi um, dentre outros, indicativos da dificuldade desses sujeitos de discorrerem sobre esse tema.

Os valores sociais relativos à sexualidade da pessoa com deficiência vêm sendo construídos a partir de uma longa história de exclusão, ora no real ora no plano do simbólico (mas nem por isso

menos eficiente), sempre atravessados pelo momento histórico e pelo contexto social de cada sujeito. Assim, se revela nas falas dos interlocutores o paradoxo anjo/fera citado por Giami (2005), sobre o qual se edificam as concepções sobre a sexualidade desses sujeitos: a de anjos, seres angelicais, eternas crianças e assexuados ou de feras, pessoas com a sexualidade exacerbada e com impulsos descontrolados e, portanto, fadadas ao isolamento e controle da liberdade. Maia e Camossa (2003) afirmam que:

Em ambos os casos, o dogma da assexualidade - a ideia de que a pessoa com deficiência mental é uma criança, angelical e desprovida de sexo - quanto o da hipersexualidade - de que ela é uma aberração, um desvio, dotada de uma sexualidade exagerada, agressiva e animalesca - acabam reforçando atitudes em relação ao deficiente mental que levam ao isolamento, à segregação e à ignorância sobre os aspectos de sua sexualidade (p.207).

Interessante pensar que apesar de todos os avanços nas políticas públicas e direitos dessas pessoas, muito ainda se tem a caminhar, especialmente na área da sexualidade. As concepções acerca as sexualidade dessas pessoas, discutidas amplamente na literatura e abordadas neste capítulo, denunciam que essas ideias perpassam o imaginário coletivo e manifestam-se através de atitudes de medo e piedade e em práticas de controle dos corpos, apesar dos discursos parecerem por vezes permissivos e pautados no considerado politicamente correto.

Outra questão importante a ser discutida a partir das representações da sexualidade dos deficientes intelectuais é de que estas vão perpassar os significados atribuídos ao comportamento sexual desses sujeitos e legitimar essas concepções equivocadas. Assim há uma construção social que legitima a ideia de sexualidade anormal, seja pela falta ou pelo excesso, que vai facilitar por sua vez a justificar o cerceamento da vida sexual e reprodutiva desses sujeitos.

É evidente também que todas as questões abordadas neste capítulo estão impregnadas pelas concepções de gênero e que apareceu aqui alguma similaridade no que diz respeito, não a uma construção social da sexualidade das pessoas com deficiência, mas sim da sexualidade da mulher com deficiência. Ferri e Gregg (1998 apud MELLO; NUERNBERG, 2012) pontuam que as mulheres com

deficiência são submetidas a uma situação de dupla desvantagem devido a uma complexa combinação de discriminação baseada em gênero e deficiência.

Mello e Nuernberg (2012), em artigo intitulado: Gênero e deficiência: intersecções e perspectivas abordam questões relacionadas à deficiência, a partir de uma perspectiva feminista do campo dos Estudos sobre Deficiência. O trabalho tem como base o Modelo Social da Deficiência e articula gênero e deficiência. Esses autores afirmam que:

Concebemos o fenômeno da deficiência como um processo que não se encerra no corpo, mas na produção social e cultural que define determinadas variações corporais como inferiores, incompletas ou passíveis de reparação/reabilitação quando situadas em relação à corponormatividade, isto é, aos padrões hegemônicos funcionais/corporais (MELLO; NUERNBERG, 2012, p.636).

Ao que parece a construção de uma sexualidade da mulher deficiente, além das questões relacionadas ao tabu sexo/deficiência, traz também em seu bojo a ideia de uma natureza feminina que imprime sua marca e tende a agravar o cerceamento pautado em concepções vigentes na cultura que normatizam como uma mulher deve se comportar no campo das relações afetivo-sexuais. Esses aspectos do imaginário coletivo perpassam, por assim dizer, os discursos dos sujeitos desta pesquisa que, por sua vez, acabam justificando atitudes disciplinares que buscam uma ordem pautada no que é considerado normal, socialmente aceito, e numa moral normativa.