4.2 A SEXUALIDADE
4.2.1 Expressões da Sexualidade
4.2.1.4 Interesse sexual
Dentro dessa subcategoria interesse sexual foram agrupadas as falas de três sujeitos, que embora reconheçam o interesse sexual da filha e até a possibilidade de uma relação sexual, deixam evidente o incômodo com a manifestação desse desejo, seja ele de ordem, explicitamente, sexual ou apenas afetivo. O que pode ser exemplificado através das falas transcritas a seguir:
“Isso me incomodava muito, isso aí assim com ela, ela ficava sempre assediando os meninos.” (Mãe Gérbera)
“Olha... isso ocorreu lá pelos 12, 13 anos... o despertar da sexualidade dela... ela era por demais permissiva com os homens... inclusive pessoas adultas, velhos.” (Pais Orquídea)
“Um dia eu cheguei lá na escola à tarde e ela tava lanchando, aí tava um garoto de mão dada com ela, daí eu disse assim, aí eu chamei a professora e disse assim ó eu não quero!” (Mãe Hortência)
O caso da mãe da Gérbera chama atenção por ser a mesma mãe que na subcategoria anterior (namoro e relação sexual) relatou que a filha tinha um namorado e que inclusive tinha relações sexuais. Já na discussão da referida subcategoria foi pontuado que essa mãe parece ter uma postura ambivalente considerando que em vários momentos se referiu a filha como alguém cuja sexualidade seria exacerbada. Apresentou um discurso mais liberal, mas vez ou outra o caráter repressor sobressaiu, deixando claro que havia ali uma contradição, já que ao mesmo tempo parecia aceitar a vida afetiva e sexual da filha, demonstrou um controle e evidente desconforto com as manifestações da sexualidade dela, que aparece claramente nos trechos:
“Isso me incomodava muito.” Ou
“Ela queria ficar sempre atrás de um... ela queria sempre... onde tinha um menino ela tava né.(...) Aí eu fiquei muito preocupada né, disse meu deus eu tinha muito medo dessa menina pegar uma gravidez, já pensou... com todas essas medicações que ela toma, e...uma que ela não vai nem poder engravidar por causa das medicações, e outra que... eu não quero!” (Mãe Gérbera) (Grifo meu)
Isso é mais uma evidencia de que a sexualidade da pessoa com deficiência é permeada por pré-conceitos, estereótipos e estigmatizada socialmente. Glat e Freitas (2007) referem que embora alguns pais reconheçam o interesse, curiosidade e impulsos sexuais dos filhos com deficiência intelectual, o seu foco de preocupação é encontrar mecanismos de controle para essas manifestações da sexualidade.
Outra questão a se problematizar nesse ponto é que essas falas revelam, ainda que sutilmente, uma preocupação de que o sexo “aflorado” pode desqualificar não só a mulher, mas toda a família, do ponto de vista da honra. Esses e outros depoimentos ao longo do trabalho evidenciam um desconforto dos pais que está relacionado diretamente com as questões de gênero, considerando que é papel dos pais, talvez mais ainda da mãe, educar a filha com base nas normas de gênero naturalizadas socialmente, e que de acordo com a tese de Gesser (2010) são válidas também para as mulheres com deficiência. Quando essas normas se subvertem a honra de toda a família fica comprometida. É possível que isso nos auxilie a compreender melhor o porquê da esterilização dos homens não ser tão comum, considerando que há uma naturalização da virilidade masculina, tanto na população com deficiência quanto na sem deficiência. Assim, há uma preocupação moral que vê na esterilização uma possibilidade de controle, quanto a incidência das expressões da sexualidade. 25
Na fala dos pais da Orquídea da mesma forma, o desconforto aparece justificado no modo como a filha demonstra o desejo sexual e afetivo, que segundo eles causava preocupação quanto ao que eles chamam de assédio e comportamento permissivo. Tanto a fala da mãe de Gérbera como a fala dos pais de Orquídea sugerem que a esterilização involuntária seria uma medida que, por evitar uma possível gravidez, deixaria os pais mais tranquilos. No entanto, não fica claro que as moças tiveram mais liberdade depois da cirurgia, já que os pais de Orquídea chegam a comentar:
“Mas mesmo assim, a gente fez isso (se referindo à cirurgia) não com motivo de né... agora vamos soltar ela e deu.” (Pais Orquídea)
Nestas entrevistas, houve muitos momentos em que a liberdade sexual foi a justificativa para a realização da cirurgia, já que após a esterilização a filha não correria mais o risco de engravidar. Esse aspecto não apareceu só nestes dois casos, mas também nas falas de outras famílias que fundamentam a opção pela cirurgia como a possibilidade de que a filha pudesse ter uma vida sexual ativa. No entanto, esses interlocutores deixam escapar em outros momentos da entrevista, relatos que revelam uma série de mecanismos de controle sobre a vida do sujeito, de forma que fica explícita uma ambivalência entre um discurso que compreende a sexualidade da filha e uma postura de controle e cerceamento. Ballan (2001) considera que apesar dos pais
25
Considerações fundamentadas nos apontamentos da Prof. Marivete Gesser sobre este estudo.
de crianças com deficiência reconhecerem os direitos dos filhos com relação à sexualidade, os mesmos mostram ansiedade e confusão tendo atitudes ambivalentes acerca desta questão.
É muito provável que a manifestação da filha como uma mulher que tem desejos sexuais cause incômodo nos pais, por se tratar de algo que eles tentam negar, considerando que a sexualidade da pessoa com deficiência seja inexistente ou seja infantil. Segundo Amaral (1994) essa repressão da sexualidade da pessoa com deficiência se justifica em uma sexualidade compreendida como ameaçadora e o discurso tem seus alicerces na necessidade de evitar a procriação. Enfatiza que a problemática da sexualidade da pessoa com deficiência precisa ser compreendida no contexto dos movimentos pulsionais humanos e das estruturas de poder.
A fala da mãe de Hortência resgata outro aspecto muito caro a esta discussão, na medida em que revela o quanto essas estruturas de poder estão imbricadas e, por vezes, institucionalizadas. Há uma espécie de “parceria” entre família e escola, no cerceamento e controle da sexualidade do deficiente que fica muito claro nesse depoimento já que a referida mãe, após ter presenciado uma cena da filha de mãos dadas com um colega de turma, advertiu a professora de que não permitiria aquele tipo de comportamento. Muitos estudos, nos quais os educadores foram ouvidos, mostraram que os professores, de maneira geral, nem sempre se sentem capacitados para lidar com as manifestações da sexualidade da pessoa com deficiência. Por vezes, quando se sentem, é possível observar uma série de concepções equivocadas sobre a sexualidade do deficiente que se refletem na forma como essa questão é abordada no espaço escolar (MOUKARZEL, 2003; GIAMI, 2004; DALL‟ ALBA, 1992)
Como lembra Moukarzel (2003, p.123):
Em oposição às atitudes negligentes, encontra-se o controle repressivo que se apoia nos modelos tradicionais de educação sexual, onde a moral sexual procriativa e a rigidez de papéis sexuais predominam. A necessidade de vigilância constante sobre as práticas dos alunos, muitas vezes, impede o professor de perceber a dimensão da afetividade, da autodescoberta e do envolvimento prazeroso dos contatos pessoais como aprendizagens possíveis para estas pessoas.
Castelão et al. (2003), em parte da sua pesquisa, analisaram as opiniões de pais e profissionais sobre a sexualidade das pessoas com Síndrome de Down e identificaram que para alguns profissionais a vivência da sexualidade do deficiente, no caso o que tem a Síndrome de Down, vai seguir o padrão que a família adotar. Obsevaram que na prática, os pais é que vão determinar a vivência sexual dos filhos com deficiência, à medida que validam ou não seu desejo, cabendo aos profissionais, muitas vezes, o papel de vigias tanto a mando dos pais como da própria instituição.
Giami (2004) lembra que as instituições que prestam serviço às pessoas com deficiência muitas vezes se assemelham às instituições totais de Goffman e afirma que, embora haja o reconhecimento da função biológica da sexualidade, há também uma regulação dos relacionamentos que acontecem naquele espaço. O autor problematiza que esses estabelecimentos exemplificam uma forma de organização institucional da sexualidade que impõe, permite e até reforça algumas práticas sexuais e proíbe outras.
Assim, a sexualidade do deficiente é controlada pelos não deficientes que definem o que é e o que não é permitido, de forma que mesmo em contextos de aparente liberdade, há um efetivo controle. Essa é na verdade uma lógica perversa, onde a família tem o apoio da escola/instituição de educação especial, na medida em que esta última não só é conivente como também cúmplice na medida em que reproduz esse enunciado de aparente liberdade, pois acena uma liberdade que em realidade não existe.
Essa questão remeteu ao tempo em que fui psicóloga em uma instituição que prestava serviços para pessoas com deficiência intelectual que, embora permitisse que os usuários se relacionassem entre si, os mesmo não poderiam ter comportamento de namorados nas dependências da instituição. Ou seja, poderiam dizer que eram namorados e, no máximo, poderiam eventualmente ficar de mãos dadas, mas não poderiam expressar o afeto através do beijo, por exemplo. Considerando que eles passavam uma boa parte do seu dia na instituição e que a maioria não podia se encontrar fora dela (seja por falta de autonomia ou por coibição dos pais) entende-se que o namoro ficava restrito ao tipo de expressão afetivo-sexual que a escola permitia. Assim, o relacionamento era regulado e controlado pela instituição que tinha um discurso que a princípio permitia o namoro, mas não permitia a
expressão espontânea do mesmo, reforçando a ideia de uma lógica perversa que regula as práticas afetivo-sexuais desses sujeitos26.