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3.3.2) A simultaneidade como componente da atualidade jornalística

A constituição de um ato de leitura periódica de jornais, seja em uma regularidade mensal, semanal ou diária, por um público amplo, disperso e fragmentado em nações

162 ocidentais dos séculos XVII a XIX criou um novo laço ou vínculo social. Com os jornais, pessoas puderam desenvolver uma prática habitual de leitura, que se torna institucionalizada tanto no ambiente privado da casa quanto nos espaços públicos de convivência, como as casas de café. À exceção das casas de café, os demais atos de leitura são predominantemente individuais ou familiares. Este ato ganha sentido não somente pela busca individual de conhecimento sobre assuntos diversos, mas porque ele leva as pessoas a se sentirem integradas em uma comunidade cujas ações e o próprio destino lhes competem estar cientes e, mesmo, intervir.

Podemos inicialmente recorrer novamente a Benedict Anderson para perceber como os jornais, já no século XVII, criaram novos laços de simultaneidade entre as pessoas. Isto se manifestou em vários níveis: em um extremo, na tensão interna existente nas páginas do jornal entre conteúdos que, de um modo geral, não possuem maior coincidência temática, mas estão reunidos numa mesma página devido à coincidência temporal; em outro extremo, nas diferentes e particulares formas de leitura do jornal, tanto no ato de ler quanto nas repercussões que este conteúdo traz para ações.

Nos jornais, este ato de leitura se torna mais efetivamente simultâneo com o advento da periodicidade diária, em que a obsolescência do jornal ocorre poucas horas após sua impressão, criando uma cerimônia de leitura executada diária e simultaneamente por milhares de pessoas:

"The significance of this mass ceremony (...) is paradoxical. It is performed

in silent privacy, in the lair of the skull. Yet each communicant is well aware that the ceremony he performs is being replicated simultaneously by thousands (or millions) of others of whose existence he is confident, yet of whose identity he has not the slightest notion. Furthermore, this ceremony is incessantly repeated at daily or half-daily intervals throughout the calendar. What more vivid figure for the secular, historically clocked, imagined community can be envisioned?" (Anderson, 1991: 35).

Ao mesmo tempo, o leitor de jornais, vendo réplicas exatas de seu jornal sendo consumidas em diferentes locais públicos e privados por pessoas que ele não conhece, teria uma confirmação de que pertenceria a uma comunidade imaginária que está visivelmente enraizada na vida cotidiana de uma nação "...creating that remarkable confidence of

community in anonymity which is the hallmark of modern nations" (Anderson, 1991: 35- 36). Sommerville denomina este laço entre leitores de um 'sentido de comunhão': "Readers

could be sure that hundreds of other people were reading exactly the same thing at exactly the same time" (Sommerville, 1996: 20).

163 Fatores históricos como os citados acima mostram-nos alguns indicativos para a formação de uma noção de atualidade jornalística. A categoria da simultaneidade traz um componente explicativo eficaz, particularmente quando a consideramos não somente como um modo de nos referirmos a ações e eventos que ocorram a um mesmo tempo, mas quando percebemos relações complementares nas quais o fenômeno da simultaneidade opera de maneira mais complexa: além de acontecerem num mesmo tempo, determinadas ações e eventos simultâneos carregam, criam ou recriam formas culturais ou sociais, materiais ou simbólicas, que ocorrem de maneira coordenada, articulada ou mesmo idêntica num tempo comum.

Esta experiência é visível no jornalismo, e é a partir desta complexidade que podemos vislumbrar um aspecto da noção de atualidade jornalística. Estamos propondo que a categoria da simultaneidade é um componente da noção de atualidade porque o jornalismo estabelece uma relação simultânea complexa entre ações e situações, não apenas dependentes de estarem ocorrendo no mesmo momento, mas de desenvolverem relações entre si que extrapolam o fator único temporal.

Um primeiro tipo de relações complexas de simultaneidade que o jornalismo desenvolve foi exemplificado acima por Benedict Anderson ao descrever, já no século XVII, o surgimento de uma consciência do leitor de jornais, que opera e se reconstrói cotidianamente em cada momento que o jornal vai a público. Anderson usa o termo antropológico de uma 'cerimônia de massa' para descrever este ato paradoxal: por um lado, um movimento quase repetitivo, rotineiro e habitual de receber o jornal em cada manhã, sentar e o ler com avidez; por outro lado, a consciência de que esta leitura é realizada por um público amplo, espalhado pelo espaço de circulação do jornal, e de que será a partir desta leitura que inúmeras ações serão interpretadas, definidas, modificadas ou questionadas, seja em discussões no ambiente do lar ou em espaços de reunião pública.

A simultaneidade que o jornalismo produz é, então, um dos modos a fazer com que um corpo social (uma parte dele, pelo menos) supere estados de atomização social e seja estimulado a agir de forma minimamente coordenada, não somente nas ações, mas nas concepções e valores sobre os eventos descritos nos jornais e outros, ausentes das páginas jornalísticas, mas correlatos em características básicas com aqueles noticiados. Esta simultaneidade é fundamentada pela construção gradativa de valores e concepções sobre as coisas e eventos sociais, seja a partir das formas narrativas e os valores imbricados no texto

164 e no trabalho do repórter, seja nos modos como as pessoas irão reagir publicamente a esta leitura.

Isto é, a simultaneidade no jornalismo está articulada tanto a uma noção de identidade que o jornalismo constrói cotidianamente e que é parte do seu papel de construção de um sentido sócio-cultural de atualidade quanto ao seu papel de contribuir para o estabelecimento de práticas sócio-culturais com certo grau de unidade que ocorram simultaneamente em diferentes locais dentro de um mesmo espaço territorial. As instituições sociais, de um modo geral, têm este papel de dar uniformidade às práticas sociais. Com a institucionalização do jornalismo, esta simultaneidade de práticas foi possível em um grau de especificidade próprio à instituição jornalística.

Um segundo tipo de relações complexas de simultaneidade está nos modos particulares com que o jornal vincula temporalmente o leitor ao evento relatado. Sabemos que fatores tecnológicos, como o telefone, tornaram esta sensação de 'estar em dois lugares ao mesmo tempo' uma experiência mais concreta, e os últimos cem anos da história da humanidade tornaram a simultaneidade tecnológica tanto uma experiência para amplas dimensões globais da sociedade quanto para o indivíduo isolado.

Parece-nos que o jornalismo se apropria destes recursos para, a partir deles, introduzir novas relações e sentidos sociais. Não estamos falando propriamente de como o jornalismo constrói um discurso e uma prática que tem, por exemplo, a instantaneidade como estratégia de legitimação, valor e fim último. Estamos nos referindo ao sentido que o jornalismo embute, no seu conteúdo e em seus estilos discursivos, de não haver um desencaixe real entre o tempo do mundo e o tempo da produção jornalística, ou seja, de que está conseguindo 'transportar' o leitor para o 'tempo do evento'.

Assim, os eventos que o jornal afirma estarem ocorrendo em um espaço fora de alcance da experiência direta e completa do leitor aparecem, para ele, como desdobramentos de sua experiência cotidiana do 'agora': o jornal dá, ao leitor, o sentido de que sua vivência cotidiana está incluída num mesmo tempo em que acontecem as coisas do mundo, de que as ações que ele irá realizar nos momentos seguintes ocorrerão em simultaneidade com outros eventos e - quem sabe - podem até interagir, influenciar ou ser influenciado por eles. Por princípio, o jornalismo leva o leitor a ver o evento jornalístico não como um fragmento de algo que pertence ao passado, mas como um fragmento do presente, mesmo que tenha ocorrido há poucos momentos. A atualidade jornalística significa a manutenção deste vínculo intermitente entre o tempo do leitor e o tempo de evento, entre simultaneidade e instantaneidade, mesmo que às vezes o jornalismo tenha

165 que recorrer a recursos simbólicos de construção discursiva deste sentido de tempo presente, como o uso, em jornais diários, de verbos no tempo presente em títulos de matérias sobre eventos ocorridos 'no dia anterior'.

Um outro tipo de relações de simultaneidade no jornalismo tem tanto componentes estéticos quanto sociais. As experiências culturais de simultaneidade na passagem do século XIX e XX mostraram novas possibilidades de combinações de 'discursos', com as formas de construção de imagens, polifonias de vozes, intercalações de narrativas e ações e de rompimento da linearidade no relato sobre o evento que se desdobra, conforme descreveu Kern. O jornalismo não executa um mergulho tão profundo nestas linguagens de desconstrução e reconstrução de impressões, imagens e eventos quanto a poesia, a música, pintura, literatura ou cinema. Mesmo assim, a página de jornal carrega características que possuem semelhança a essas experiências estéticas e, ao mesmo tempo, o jornal é, em certa medida, uma experiência estética particular.

O jornal trabalha com um fator temporal que orienta para um ponto inicial de coesão de uma página de jornal: no conjunto, os textos jornalísticos falam de eventos que ocorreram simultaneamente18. Mas esta 'coexistência' no espaço da página não é sem tensão. Para torná-la inteligível e harmônica, o jornalista busca estabelecer relações diversas entre eventos que, de início, não têm relação direta. Podem ser relações temáticas (diversas notícias sobre violência em uma mesma página, mesmo que se referindo a eventos independentes), relações de complementação ou oposição de conteúdo, relações de estilo textual (construção de um conjunto por meio da combinação de textos diferentes, como o texto informativo e o opinativo) etc.

A simultaneidade desta 'polifonia de vozes' é, no jornalismo, um fator de construção de uma especificidade de conteúdo e estrutura textual. Ambos estão ligados temporalmente ao 'tempo do evento', mas será o jornalismo, operando num esforço de construir um sentido de atualidade, que fará uma reformulação destes elementos. De um certo modo, a atualidade jornalística surge de uma 'polifonia de vozes' - surge para tentar superar as dissonâncias temporais e construir um discurso que articulará e minimizará diferenças, fragmentará e re-arranjará conteúdos para conseguir, a partir de uma referência temporal do presente, uma harmonia mínima no seu produto.

18 Esta simultaneidade no tempo ajuda-nos a construir uma impressão de unidade entre eventos isolados: para

os jornais diários matutinos, é um relato sobre o 'ontem'; para os telejornais noturnos, é um relato sobre o 'hoje'.

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3.4) Periodicidade

Uma das formas mais recorrentes e visíveis de identificar o aspecto temporal do jornalismo está na característica da periodicidade de produção e circulação de material jornalístico. Produzir e disponibilizar notícias com regularidade tornou-se um dos marcos sociais e culturais dos dois últimos séculos, afetando diversas relações, conteúdos e procedimentos sociais. A própria caracterização do jornalismo, mesmo em seus primórdios, já dependia deste aspecto temporal da regularidade na produção e oferta de informações, por exemplo em conceitos como: "Newspapers are defined as periodical

publications that included regular comment and information on domestic and foreign political events, in which this comprised a substantial proportion of their content, and which appeared at least weekly" (Harris, 1996: 4).

Autores como John Sommerville consideram que a periodicidade jornalística produziu uma revolução na consciência das sociedades (1996: 161). O historiador atribui às publicações periódicas a capacidade ter criado (ou contribuído para criar) uma 'mente comum' e ter definido uma 'dimensão moderna de tempo': "while it might be possible to

refute a particular news report, there is no real way of refuting the periodical itself" (Sommerville, 1996: 21). Também sob um ponto de vista histórico, Popkin afirma a importância da periodicidade jornalística: "the unique characteristics of the newspaper text

which made it so important in its own time: its timeliness and its regular, predictable publication" (1989: 7)

Delimitar o momento inicial em que publicações com conteúdo jornalístico começam a circular com intervalos regulares não é uma tarefa fácil, pois teríamos de considerar desde os 'corantos' e os 'newsbooks' na Inglaterra do início do século XVII, alguns com regularidade mensal ou bi-mensal, e outros com intervalo semanal. Entretanto, esta periodicidade era irregular, pois oscilava conforme o volume de notícias disponível (Raymond, 1996: 8). Schröder analisou o caso alemão para considerar que a ausência de periodicidade antes do século XVI impedia que publicações com informações diversificadas fossem consideradas 'jornais'.

167 Antes do surgimento dos jornais no século XVII, algumas publicações ocasionais cobriam e publicavam relatos sobre um evento de acordo com o seu desenrolar, e o número de edições se limitava à duração do evento, sem haver uma regularidade planejada à semelhança de uma publicação periódica com datas fixas. Curiosamente, Schröder relata que a ausência de periodicidade podia também ser uma vantagem, à medida que tornava mais difícil a censura e o controle governamental, diferentemente dos jornais semanais que se seguiram posteriormente (2001: 126-128).

Vittu estudou o surgimento dos jornais na França para considerar que o século XVII foi o período da "imprensa periódica" (2001: 160). Da mesma forma, Daniel Woolf interpreta que a regularidade temporal dos 'newsbooks' surgiu na metade do século XVII, a partir da necessidade de que estas publicações acompanhassem os desdobramentos dos fatos políticos na Inglaterra:

"The proximity of events and the need to keep informed about them in turn

affected the speed at which newsbooks were produced, since publishers wished their product to keep pace with events, rather than simply responding to them on an ad hoc basis. Regularity was thus added to newsness and truth as a quality for the successful newsbook" (Woolf, 2001: 94).

Assim, regularidade e novidade formariam a dupla face de um sentido inicial de periodicidade, conduzindo a uma complexidade de tratamento e compreensão do fenômeno. A regularidade, a novidade e a 'veracidade' do relato convergiam para o estabelecimento de uma prática social de produção, circulação e consumo de conteúdos jornalísticos. O fator temporal inerente à oferta regular de conteúdos, nomeado como periodicidade, era apenas parte de um conjunto de relações temporais que o jornalismo começava a despertar e a criar na sociedade em torno do objeto jornal, as quais se alastravam por vários ambientes e relações sociais, alterando práticas e rotinas. Entendemos que a periodicidade foi um dos componentes de um processo mais amplo de mudança de hábitos sociais que estava se iniciando e pode ser melhor denominado de atualidade jornalística.

Investigar em maior profundidade a noção de periodicidade jornalística implica em percebermos um aspecto específico que será fundamental ao jornalismo: o surgimento de uma necessidade social de que a sociedade fosse abastecida por notícias em períodos regulares e com intervalos de tempo cada vez mais curtos. Tal demanda social foi na verdade uma combinação de fatores díspares. Em um extremo, a 'sede' por notícias com motivações diversas: o imperativo do acompanhamento do desenrolar dos eventos, a

168 necessidade de se sentir pertencendo a uma 'comunidade imaginária' (uma comunidade de leitores ou uma nação), o desejo pelo diversional expresso na leitura de dramas, crimes e catástrofes, a fascinação pelos recursos técnicos e pelo ciclo de produção do jornal etc. Em outro extremo, a organização crescente de um processo produtivo que aliou capacidade tecnológica e industrial de produção com potencialidades econômicas de uma comercialização crescente e tendente à massificação.

Isto significa que, para caracterizarmos a periodicidade jornalística, devemos considerar fatores internos e externos à instituição jornalística. Internos porque o desenvolvimento de técnicas e tecnologias de produção vem compondo um conjunto de recursos materiais, de habilidades e de competências que garantiram aos jornais, inicialmente, o estabelecimento de uma regularidade semanal e, após, diária de circulação. Fatores externos, se considerarmos o crescimento do interesse e do envolvimento da sociedade pelo conteúdo trazido a ela pelos jornais e se observarmos como este interesse orientou a estruturação produtiva e comercial das novas organizações sociais emergentes. Externos também quando percebermos a influência das novas tecnologias de transmissão de informações e os modos como os sistemas de transportes intensificaram e aceleraram os contatos físicos entre localidades, reduzindo o tempo despendido em deslocamentos físicos.

Entendemos que esta convergência entre processos e condicionantes internos e externos à instituição jornalística se deu gradativa e progressivamente, a ponto de visualizarmos que a institucionalização do jornalismo foi parte de um processo de mudança em relação a modos tradicionais de interação social em que não estavam presentes mediadores sociais como os jornais. Um exemplo ilustrativo desta progressividade na oferta de jornais foi citado por Wilke analisando a periodicidade dos jornais alemães: "The

intervals between the regular publication of separate issues has become shorter: from a weekly publication in 1622 to a twice daily publication (also on Sundays) in 1906" (1984: 178).

Talvez um dos estudos históricos mais sistemáticos já desenvolvidos sobre a periodicidade jornalística seja o de John Sommerville, The News Revolution in England -

Cultural Dynamics of Daily Information (1996), em que o autor pesquisa o aspecto temporal na formação do jornalismo inglês nos séculos XVII e XVIII. Abordaremos este trabalho em dois momentos: inicialmente, o valor descritivo que a obra oferece sobre

169 modos de recíproca influência temporal entre a sociedade e a atividade jornalística; após, o percurso interpretativo desenvolvido pelo autor sobre os dados levantados.

O início do século XVII foi uma fase em que as publicações inglesas com conteúdo jornalístico apresentavam uma periodicidade irregular e com elevado intervalo de tempo entre cada edição: uma média de uma publicação a cada duas ou três semanas entre as décadas de 1620 a 1640, havendo oscilações para mais ou para menos. Sommerville identifica, no ano de 1641, o surgimento de um novo tipo de publicação, chamada 'diurnal' (cuja pronúncia produzia a sonoridade de 'journal' e tinha a raiz 'giorno', significando diário)19. Apesar disso, eram impressos semanalmente, mas estas edições semanais eram divididas em notícias dos eventos de cada dia (Sommerville, 1996: 34).

Nas duas décadas seguintes, a periodicidade semanal tornou-se dominante e a 'chave' para que essas publicações pudessem alcançar uma fidelidade do leitor e um sucesso comercial. Os editores preferencialmente optavam por colocar as novas edições em circulação nas segundas-feiras, pois assim poderiam enviá-las para o interior do país utilizando os despachos semanais dos serviços postais às terças-feiras. As segundas-feiras tornaram-se, então, dias de competição entre esses produtos: "In this atmosphere of intense

competition, the hour that a paper appeared on the streets assumed an enormous importance. So they appeared as early on Monday as possible, even though they had to contain the news from Saturday's parliamentary session" (Sommerville, 1996: 37). Em 1665, o 'Oxford (depois denominado de London) Gazette', considerado o primeiro jornal inglês, começou a publicar duas edições semanais (Sommerville, 1996: 63).

Interessante perceber que a periodicidade foi um fator fundamental também para outras publicações, como as científicas. Por meio de sua periodicidade, pesquisadores e inventores diversos conseguiam datar suas descobertas. Diferentemente dos jornais, estas publicações científicas não pereciam com o lançamento de uma nova edição, pois cada uma tinha função documental de fixar um fato na história; os jornais, por sua vez, ao se nutrirem do conteúdo ocorrido no tempo presente, tinham um processo inverso: cada nova edição fazia a anterior ficar obsoleta (Sommerville, 1996: 81).

Esse panorama do surgimento da periodicidade não é, para Sommerville, uma mudança social positiva na sociedade. Pelo contrário, o autor a interpreta em uma perspectiva pessimista. Inicialmente, porque a vê como uma conseqüência de um

19 A data de 1641 é citada por Raymond (1996: 80) como a do surgimento dos 'newsbooks' ingleses, o

primeiro deles 'Heads of Severall Proceedings' aparecendo em 29 de novembro daquele ano. Para este autor, os 'newsbooks' foram os predecessores imediatos dos jornais e já apresentavam a periodicidade como uma característica fundamental e distinta em relação a outras publicações (1996: 84).

170 preponderante interesse comercial que afetaria o conjunto das demais relações sociais.

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