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3.2.2) Instantaneidade e atualidade jornalística

O percurso histórico realizado auxilia-nos, então, a afirmar que a categoria da instantaneidade possui um efetivo potencial descritivo para dar visibilidade a um conjunto de aspectos que irão compor uma dimensão temporal complexa. Esta dimensão é composta tanto por fatores materiais estruturais com base nos quais o jornalismo opera quanto de elementos culturais simbólicos que fundamentam e dão sentido à atividade, bem como são re-elaborados por ela a fim de que a instituição jornalística ofereça, ao social, um conteúdo simbólico que é também uma forma de interação social por meio de vínculos temporais.

Buscamos desenvolver, neste item, a compreensão de que a categoria da instantaneidade tem duas principais referências: a primeira alcança uma dimensão de materialidade física da atividade jornalística, relacionada aos processos de transmissão e distribuição da notícia. Neste aspecto, o percurso histórico realizado possibilitou a

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Interessante perceber que, no Brasil, o jornal O Estado de S. Paulo publicou o naufrágio apenas no dia 20 de abril de 1912, um sábado. A cobertura já foi complementada com carta dos sobreviventes, atestando que era insuficiente o número de botes salva-vidas e de marinheiros para manobrá-los. Fonte: arquivo de O Estado de S. Paulo (http://www.estadao.com.br/ext/jornal/pagina.htm).

155 ilustração de situações em que as inovações tecnológicas contribuíram para a aceleração dos processos de transmissão da notícia. Em conseqüência, podemos afirmar que a 'instantaneidade' é uma categoria descritiva eficaz para mostrar como as práticas jornalísticas se modificaram em função de uma meta de 'comunicação instantânea'.

A segunda referência localiza-se numa dimensão sócio-cultural, na forma como ela se transforma em modelo e valor cultural de orientação tanto do jornalismo para o cumprimento de sua tarefa de produzir discursivamente um relato sobre o tempo presente quanto da sociedade para reconhecer no conteúdo jornalístico este papel e estas características. Consideramos que este segundo aspecto nos remete a produzir um olhar mais complexo sobre as relações temporais às quais o sentido de instantaneidade faz parte. Percebida a instantaneidade na transmissão, voltamo-nos agora para olhá-la como prática social e cultural: mas, para esta mudança de olhar, precisamos considerar um conjunto mais complexo de relações e práticas em que o aspecto temporal está presente, mas imbricado com outros fatores.

Entendemos que um modo melhor de fazer esta articulação é inserirmos a instantaneidade em um sentido temporal mais amplo que fundamenta o jornalismo, o qual, para nós, pode ser construído e expresso na noção de atualidade jornalística. Conforme salientamos, o sentido de instantaneidade surge social e culturalmente quando os jornais, mesmo sem terem a tecnologia capaz de oferecer um relato instantâneo dos eventos para seus leitores, criaram um conjunto de relações sociais e de sentido em torno da possibilidade de que as interações sociais (particularmente entre o leitor e os eventos noticiosos, mas também entre leitores com base nos eventos relatados) ocorressem sem intervalos significativos de tempo.

Em outras palavras, como as transformações tecnológicas e produtivas estavam conduzindo o jornalismo para uma aceleração de sua produção e conseqüente redução no intervalo de tempo entre a ocorrência do evento e sua recepção pelo público, este movimento era captado pelo público com uma sensação de que o 'instante presente' dos eventos não vivenciados diretamente estava cada vez mais próximo do tempo da experiência cotidiana do leitor - e esta capacidade surpreendente de colocar o leitor no 'tempo dos eventos' só se tornou possível pela constituição histórica de uma instituição denominada de jornalismo. Como, no aspecto temporal, o jornalismo se desdobra também em outros fenômenos (que iremos desenvolver a seguir), estamos optando, então, por buscar na categoria de atualidade jornalística uma noção que possa dar conta de forma articulada e complexa desta dimensão.

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3.3) Simultaneidade

Ao propormos o termo 'simultaneidade' como categoria analítica para constituir uma concepção de atualidade jornalística, partiremos inicialmente do sentido de senso comum atribuído ao termo em seu uso na linguagem cotidiana. Simultâneo pode ser preliminarmente entendido como o que ocorre ou é feito ao mesmo tempo ou quase ao mesmo tempo que outra coisa. Assim, duas ou mais ações ou eventos que se realizem de forma independente são simultâneos se se iniciam ou ocorrem num mesmo momento, mesmo que, eventualmente, haja diferenças de velocidade de realização, duração, conseqüências ou desdobramentos.

O termo simultaneidade teria a função de designar esta relação de sincronismo envolvendo ações ou eventos. Com o advento e a profusão de modos padronizados e consensuais de marcar e controlar o tempo, tornou-se mais preciso falar em fatos que ocorram simultaneamente. Parece-nos, entanto, que falar em simultaneidade é nos referir a um tipo de relação que extrapola a simples concomitância no tempo.

Experiências sociais de simultaneidade apontam-nos para uma complexificação desta relação: podemos visualizar que vários modos de agir simultaneamente apresentam graus de articulação ou identidade entre estas ações e eventos concomitantes, os quais fazem com que tenham um sentido diferenciado, mais específico e complexo, por estarem ocorrendo em tempos semelhantes. "Eventos são simultâneos não porque ocupam o mesmo

momento no tempo, mas porque ocorrem juntos" (Whitrow, 1993: 148). Vamos, então, buscar algumas formas de relações complexas de simultaneidade, estudar que mecanismos e motivações fazem com que ocorram em concomitância e, em seguida, identificar como estas características contribuem na formação da atualidade jornalística.

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3.3.1) A simultaneidade na formação de laços de integração e identidade

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