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A SINGULARIDADE DO SUJEITO DIANTE DAS EXPERIÊNCIAS

2 O SABER DA EXPERIÊNCIA E A INCONCLUSÃO HUMANA

2.3 A SINGULARIDADE DO SUJEITO DIANTE DAS EXPERIÊNCIAS

Escrevemos a vida a partir do impensado, das metamorfoses. Não há experiência quando a vida que vivemos/escrevemos não é a nossa, quando abandonamos nossos ideais, nossas convicções em favor de outros, quando estamos afastados do sentido que nos mantêm vivos.

Para Larrosa (2014) é importante que cada um de nós faça soar a experiência, que cada sujeito ao compreender a vida como algo por acontecer, compreenda também que as experiências são subjetivas num acontecimento plural e singular, ciente que é responsável por fazer sua própria experiência.

Neste aspecto, talvez de modo radical podemos dizer que a vida é utópica e o sujeito é o poeta que escreve versos na areia da praia sob a luz do luar e ao amanhecer segue como se nada tivesse acontecido, nesse sentido poderíamos dizer que a experiência é um verso interrompido quando o sujeito-poeta nega a si e aos demais a sua existência, o seu modo de habitar no mundo e com-o-mundo.

A imposição de barreiras com base em verdades-singulares-plurais expõe um sujeito que está destinado a viver-sem-pensar. Fechado para o diálogo com seus pares, colocando-os como incapazes de compreenderem o que estes compreendem por experiência.

Os acontecimentos da vida podem nos ferir, retomando a ideia de Heráclito quando diz que ninguém toma banho no mesmo rio duas vezes, podemos dizer que um acontecimento não pode acontecer duas vezes, jamais será duas realidades, cada acontecimento é uma única realidade tecida por múltiplas experiências

Buscamos compreender o que é a experiência, e como ela nos situa, possibilitando uma maior compreensão da vida através dos acontecimentos pelos quais podemos dizer o que somos e o que queremos, dizer que fomos tocados, e já não podemos ser mais os mesmos, que nossa relação com o mundo passa pelo crivo das nossas experiências, que outros mundos são possíveis, que é possível elaborar um sentido para a vida, mesmo que provisório, na liberdade de ser o que somos, de pensar, de existir, de ser um eterno devir.

Vivemos numa constante reflexão sobre a vida e os acontecimentos ainda que isso não tenha sentido aparente, pois “[...] vemos apenas aquilo que primeiro nos escapa, em virtude de uma visão parcial” Blanchot (2010, p. 67). Se pensarmos por um momento o que poucos se colocaram à disposição para pensar, começaremos a

perceber que são essas construções desconexas, parciais assim como pensou Blanchot que dão lugar a experiência que fora menosprezada na marginalidade da qual fomos obrigados a viver com o pensamento fragmentado.

A banalização da palavra experiência tem provocado uma reflexão superficial sobre a mesma, passando a ser compreendida como uma palavra de fácil compreensão. Sabemos que “as palavras não apenas representam o mundo, mas também o abrem, não são apenas ferramentas, mas também um caminho” (LARROSA, 2018, p. 22).

Talvez o que de fato não se tenha feito até agora seja uma análise do que o sujeito compreende por experiência. E, só então começar a buscar a não-experiência e se esta poderá ajudar a pensar a vida, onde acontece de forma singular, onde o pensar, a palavra e a escrita ditam a vida.

Nessa busca por compreender a não-experiência, o desaprender de um saber pluralizado, encontramos no chão da escola um espaço para compreendermos a singularidade do sujeito diante de experiências plurais.

Nesse mesmo espaço, num intenso diálogo com outros colegas percebemos que o pensar de forma crítica, o senso crítico, para com a realidade fora deixado de lado, colocando-o num espaço onde poucos teriam acesso e os que tiveram foram acometidos por fortes crises de realidade, foram violentados com cortes existenciais e hoje padecem se a partir dali insistirem em ser os mesmos.

Pensar o pensar é buscar em si-mesmo a resposta para as questões que a muito tempo foram deixadas de lado ou questões que sempre foram a causa para o desenvolvimento do pensamento, do homem e da sociedade.

O pensamento nasce devido à sucessão de acontecimentos, pensamos porque algo acontece conosco, estes não previstos na sua relação com o mundo e na singularidade do acontecer produz a experiência no sujeito.

O pensar não exclui a igualdade, não torna o sujeito superior nem inferior, pelo contrário, o sujeito pensante presa pelo que de melhor cada um tem a oferecer ao outro e a si mesmo. Democraticamente quando o sujeito compreende o pensar e os acontecimentos a sua volta acaba incentivando aos demais sobre a necessidade de uma maior reflexão para com as experiências plurais.

E, na busca constante por experiências plurais, o sujeito nos leva a relembrar o lugar de fala mencionado anteriormente, visto que desejamos chegar a um lugar confortável para dizer alguma coisa. Alguns dizem que é na velhice que se encontra

o conforto para ser dito o que se compreende por finitude (DELEUZE, 2010) para assinalar como criador ou referência ao que fora criado, como dono se pudesse pensar ser o senhor da experiência assim como noutros tempos fora dos seus escravos.

A compreensão plural da experiência pode acontecer em qualquer faixa etária, não necessariamente precisa ser velho para compreender a dimensão e o impacto da experiência na vida humana. Ela sempre plural se deu face a face, ou seja, ela é na mesma medida que o sujeito. E, ele o é porque a experiência o fez.

Quando ensinamos algo para alguém, devemos evitar o medo e a preocupação sobre se o outro aprendeu alguma coisa, basta saber que ele é capaz de aprender, caso queira. Larrosa (2018) nos convida a pensar à escola como espaço possível para construção de experiências plurais na medida em que esta tem oferecido cada vez mais experiências escolares, buscando superar as desigualdades provadas pelo espaço e tempo.

A escola atual encontra-se dividida com outras realidades, dentre elas, que a escola se pareça cada vez mais com outra coisa que não ela mesma, que se construa outras finalidades, dado que já não há separação entre ela e outros espaços.