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A Sociedade Envolvente e a Pressão Sobre o Território Karipuna

No documento Gráfico Populacional dos Karipuna da Aldeia (páginas 160-164)

5.5 AS DINÂMICAS E AS CONTRADIÇÕES DA RELAÇÃO CIDADE E ALDEIA

5.5.3 A Sociedade Envolvente e a Pressão Sobre o Território Karipuna

Em 2014 as inundações tornaram-se os novos fenômenos derivados do complexo hidrelétrico do rio Madeira e impossibilitaram o translado de Porto-Velho para Guajará-Mirim. Este fato foi usado como subterfúgio e lançou os fazendeiros, madeireiros e outros interessados em uma luta com o governo no sentido de forçar a reabertura e a pavimentação da BR 421, estrada que passa dentro da Unidade de Conservação Parque Guajará-Mirim100, limite na parte sul

100 Situado na parte centro-oeste do estado de Rondônia, abrangendo afluentes da bacia do Rio Jaci-Paraná, o Parque Estadual de Guajará-Mirim foi criado com uma área original de 258.813 ha, mas perdeu 53.601 ha com a existência de títulos definitivos de propriedade da terra. Embora haja a estrada 421 que cruza o parque na porção norte, e áreas já desmatadas junto ao igarapé Corrente, não há posseiros habitando seu interior. São duas as bases de apoio, uma às margens

do TI Karipuna, lugar de passagem de madeireiros, caçadores e todo tipo de ilegalidade101.

Essa rota aumentou a invasão de madeireiros na parte sul do TI Karipuna, e ameaça à integridade física de indígenas isolados. Na imagem da próxima página é possível visualizar os territórios indígenas demarcados, o Parque Estadual de Guajará-Mirim, a Reserva Extrativista do Rio Ouro Preto e as estradas BR 364, BR 421 e BR 425 (Figura 19).

A TI por ser uma área de floresta preservada, e estar cercada de fazendas e outras vilas, sofre constantes investidas realizadas por madeireiros, e moradores do entorno que invadem para caçar e pescar. A reabertura da BR 421 aumentou este processo, colocando em risco não somente a fauna e a flora, mas também indígenas que ainda se encontram isolados da sociedade envolvente.

Fonte: Instituto Sócio Ambiental. Parque Estadual de Guajará-Mirim/RO e Terras Indígenas.

do rio Formoso, próximo à linha D, e outro no final da linha 20, e ambas têm servido a pesquisadores e equipes de fiscalização.

101 Mais de duas décadas vem servindo de rota alternativa para traficantes de drogas, contrabandistas e madeireiros ilegais.

Figura 18: Localização da estrada BR 421.

Nos sites e blogs de Rondônia, várias notícias informam sobre ameaças de morte a uma juíza sentenciante e à procuradora do MP que denunciara motivos políticos e econômicos na reabertura da BR 421.

No entanto, há rota alternativa pela via terrestre, Linha 29, e por rota fluvial, Costa Marques/Ji-Paraná, que estão sendo usadas para abastecimento das cidades. Além disso, pessoas em emergências médicas estão sendo transportadas por avião do Exército, esclarece a procuradora. Apesar das opções existentes de acesso à BR 364, foram registradas ações clandestinas de destruição da rota alternativa, no intuito de criar uma situação forçada para a abertura da estrada pelo parque, o que foi contido pelas polícias Militar e Federal (CPT, 2014, s.p).

Neste contexto o fenômeno de maior impacto para as populações indígenas daquela região foi o aumento da população nos entornos da TI derivado das migrações de várias partes do país, atraídas pelas oportunidades diretas de trabalhos nas usinas hidroelétricas de Santo Antônio e Jirau, e vantagens indiretas como os variados tipos de comércios, a esperança no enriquecimento fácil, as vendas de drogas e a prostituição.

Os Karipuna notam as alterações no rio Jaci-Paraná e associam aos desmatamentos das matas ciliares deste rio e de seus formadores especialmente da Reserva Extrativista (REXES) Jaci-Paraná, e às queimadas na região. Fora da época do inverno Amazônico, o nível do rio está mais baixo e acontece dos barcos encalharem, ainda se verifica a alteração na temperatura das águas o que causa desequilíbrio ambiental.

São forçados a lidar com situações perigosas, de invasão de seus territórios por fazendeiros, madeireiros, aventureiros e exploradores da pesca predatória visando a venda em grande quantidade. A caça está sendo prejudicada com a diminuição considerável de espécies, essa redução é atribuída à ação de caçadores dentro e fora da TI, aos desmatamentos e queimadas ilegais, e a abertura da estrada da RESEX de Jaci-Paraná.

Outro fator para a diminuição é o barulho das estradas que espanta os animais. O número de tracajás103 também diminuiu consideravelmente ao longo

103 Tartaruga de água doce, da família dos pelomedusídeos (Podocnemis unifilis), encontrada nos rios amazônicos, com cerca de 50 cm de comprimento, carapaça abaulada, pardo-escura, e

do rio Jaci-paraná, o motivo está ligado ao grande número de invasores saídos do distrito de Jaci-Paraná, entram na TI para caça predatória portando malhadeiras e espinhel104, instrumentos capazes de capturar quelônios em grandes quantidades.

Os membros da etnia relatam ameaças e tentativas de cooptação para exploração ilegal de recursos naturais advindos do território indígena. Além de tudo, ainda são caluniados, inclusive acusados de coniventes e participantes das ilegalidades que são vítimas. Como ilustração colocamos na página seguinte a fotografia de madeira apreendida dentro do TI Karipuna pelo IBAMA e PF (Figura 18).

Roubo de madeiras, dizem que o Adriano é madeireiro profissional né, coisa que aqui em casa tá tudo acabado, a pintura tá toda esgotada já né, o banheiro nosso não é perfeito, tudo se acabando, se o Adriano fosse o que tão falando tenho certeza que o Adriano num ia deixar eu passá fome com meus filhos não, num ia deixar faltá as coisas na minha casa não, o Adriano pode ter os defeito dele mas essa situação de deixar eu passar fome com meus filhos ele num ia deixar não, ele num ia deixar eu tá passando por essas coisas não (PAULA, 2017, ANEXO 2).

Entre as mudanças estão os impactos acarretados, a ocupação desordenada da região provoca constantes invasões do território, redundando em crimes e o medo de possíveis massacres na comunidade. Outros desconfortos são gerados como a insegurança derivada de possíveis impactos ainda não detectados na fauna e na flora, e a ineficiência do canal construído para melhorar a passagem dos peixes.

Os impactos ainda são subestimados pelas autoridades, tendo em vista o pouco tempo de atuação das usinas hidrelétricas, porém, se espera mais dano ambiental e socioeconômico. A ausência do ordenamento territorial, de regularização fundiária e o descumprimento das legislações ambientais pioram a situação da TI Karipuna. O aumento das atividades madeireiras, a grilagem de terras públicas e ainda a expansão da agroindústria servem como exemplo para ilustrar os problemas que ainda virão.

cabeça com manchas alaranjadas; bracajá, capinima, capininga, pitiú, tarecaí, terecaí [Os ovos, colocados nas praias dos rios, são apreciados pelo povo amazônico.]

104 Espinel, artefato para pesca de fundo composto de uma linha forte e comprida com várias linhas curtas presas a ela, a intervalos regulares, cada uma com um anzol na ponta; espinhel, páter-nóster.

No documento Gráfico Populacional dos Karipuna da Aldeia (páginas 160-164)