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As etapas da pesquisa e seus desdobramentos

2.6 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

2.6.1 As etapas da pesquisa e seus desdobramentos

O trabalho foi sendo estruturado a partir das pesquisas iniciadas em 2001, com o levantamento das referências bibliográficas, cartográfica e documental, a utilização de fontes como a literatura científica disponível sobre a realidade indígena amazônica (que compreende enfoques etnológicos, etnográficos, sociológicos, históricos, geográficos, geopolíticos, etc.) e bancos de dados de organizações governamentais e não governamentais, entidades ambientalistas e indigenistas localizadas e atuantes na região como o Instituto Socioambiental (ISA) e o Conselho Indigenista Missionário (CIMI).

O primeiro Momento da pesquisa foi constituído do estudo sistematizado das referências, através das leituras, fichamentos, interpretação das fontes bibliográficas teóricas e temáticas que indicaram e proporcionaram maior familiaridade com o tema a ser pesquisado.

Nesta etapa da pesquisa, nos deparamos com questões de grande importância para entender a relação do território, das territorialidades e seus reflexos na produção das transversalidades culturais. Compreendemos que as territorialidades e as subjetividades são criadas e recriadas graças ao “estreitamento” do mundo produzido pela chamada Globalização.

Ainda este momento da pesquisa foi caracterizado pelo levantamento bibliográfico e documental na biblioteca da Universidade Federal de Rondônia com uma grande variedade de obras referentes ao período da colonização da Região Amazônica, em especial sobre a colonização do rio Madeira e Rondônia, ainda foi possível analisar algumas projeções cartográficas, mapas históricos, dissertações, teses, fotografias antigas e de satélite sobre o território dos Karipuna.

Foram pesquisados documentos e relatórios nas entidades indigenistas e de apoio como a FUNAI, onde tivemos acesso aos relatórios dos primeiros contatos dos Karipuna com a sociedade envolvente, feitas pelo sertanista e indigenista Benamour Fontes, além de outros materiais informativos que nos situavam dentro de contextos próprios da etnia como mapas do TI. Sempre fomos bem recebidos e tratados com atenção, no entanto, nos últimos três anos encontramos algumas dificuldades para permissão de acesso aos arquivos e relatórios, tendo em vista o abandono e sucateamento da entidade indigenista em Porto Velho, que se encontra em processo de desmantelamento definitivo pelo Governo Federal.

No CIMI conseguimos ter acesso aos antigos informativos e novos relatórios que tratam da violência cometida contra indígenas em especial documentos antigos e revistas especializadas como Porantim, e jornais que falam especificamente dos problemas fundiários que envolveram os Karipuna ainda à época da abertura da BR 421, do Projeto Integrado de Colonização conhecido como Projeto Sidney Girão e do Plano Agropecuário e Florestal de Rondônia (PLANAFLORO). Ainda, cessamos o site do CIMI, que tem se destacado como grande difusor de informações em tempo real, de alta relevância para os povos indígenas, com atuação de defesa e denúncia das arbitrariedades cometidas com os povos indígenas do país. Além da divulgação das suas lutas e vitórias.

No Ministério Público Federal (MPF), conseguimos acessar alguns relatórios com denúncias de invasão e ameaças contra os Karipuna, sendo os mesmos documentos e outros atualizados também acessíveis pela plataforma do MPF.

Visitamos também os estabelecimentos da Casa de Saúde Indígena (CASAI), subordinada à Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), objetivando, além de apreender as sensações passadas pelo local, prestar algum tipo de assistência aos

indígenas que estavam com problemas de saúde e não possuíam transportes para enfermos.

Na Associação dos Povos Karipuna (APOIKA) conseguimos o estatuto da associação, fotografias e imagens de vídeo que estão disponíveis na plataforma de vídeos youtube33, foi lá também que conseguimos passar parte do tempo em convivência com membros da etnia. Também utilizamos várias plataformas na internet objetivando mais subsídios para nossa pesquisa, dentre elas a do Instituto Sócio Ambiental (ISA), em que verificamos dados relevantes sobre a etnia para fazer um comparativo com os materiais que já possuíamos.

Revisamos os arquivos dos relatórios de campo e os diagnósticos para a pactuação dos Territórios Étnoeducacionais (COI/REN/SEDUC/UNIR)34, importante ressaltar que cópias desses documentos se encontram em mãos do pesquisador tendo em vista ser o organizador desse material e de outros relatórios de atividades da Coordenação de Educação Escolar Indígena de Porto Velho.

A permanência prolongada na FUNAI, SEDUC, UNIR, CIMI, APOYKA, UFPR e eventos sociais em outras localidades (aldeias, centros de convenções e treinamentos) proporcionou importantes diálogos com profissionais indígenas e não indígenas e outros pesquisadores do mesmo campo de atuação, que além da troca de dados e informações, auxiliou na construção dos novos conhecimentos.

O segundo Momento constou da execução de atividades em campo com a comunidade, fundamentadas em métodos como da pesquisa participativa e da pesquisa com narrativas orais, sendo as coletas realizadas em vários momentos de convivência com a etnia e rodas de conversas envolvendo membros importantes do povo Karipuna. Essas atividades foram convertidas em peças fundamentais para buscar compreender a construção das novas territorialidades subjetividades dos Karipuna em meio às objetividades da sociedade envolvente.

33

<https://www.youtube.com/watch?v=oy2Ru-nSV7k&list=PLWwJn2AXMZDyf3GiHNNygMKEAMEGzchzp>

34 Coordenação Indígena, Representação de Ensino (atual Coordenadoria Regional de Ensino), Secretaria Estadual de Educação, Universidade de Rondônia.

Na convivência com o povo indígena Karipuna, foi possível acompanhar o cotidiano e apreender aspectos das particularidades culturais da etnia entre suas histórias e projeções de futuro. Na atividade de pesquisa foram realizadas numerosas conversas com os membros da etnia, em ocasiões e lugares diversos. Contamos com a autorização dos colaboradores Karipuna para registrar algumas das conversas em gravadores, fotografias e outras anotações diretas no caderno de campo.

Nossa primeira ida a campo foi no ano de 2001, ainda na iniciação científica, nas dependências da Casa do Índio, local de alojamento indígena em Porto Velho e administrado pela FUNAI, onde contatamos os membros da etnia, foi ali que realizamos as primeiras coletas de narrativas com duas conversas, a primeira com Adriano Tangaré-i, a segunda com o Cacique Batití Paiapegá. Mais tarde, após a delimitação dos lugares de realização das outras partes da pesquisa, rumamos em viagem para a pesquisa no mês de abril para o Distrito de Jaci-Paraná e a Aldeia Panorama.

No Distrito de Jaci-Paraná realizamos a visitação e o registrando em imagens e anotações das ruinas restantes da antiga Estrada de Ferro Madeira-Mamoré e outros lugares e pontos históricos reminiscentes do período da Borracha. Conseguimos conversar com duas pessoas que participaram ativamente do período dos primeiros contatos oficiais com os Karipuna em 1976.

Realizamos outras gravações na Aldeia Panorama, no entanto, para nossa pesquisa escolhemos as narrativas mais pertinentes, como as do senhor Aripã Arongam Karipuna e da senhora Katiská Tuabe-i Karipuna. Conseguimos também somar ao nosso material as gravações de conversas com um mateiro35 que participou dos primeiros contatos com a etnia, e também com o chefe de posto36 à época, totalizando seis importantes conversas registradas em áudio que consideramos basilares para completar o objetivo da nossa pesquisa.

35 Pessoa conhecedora das particularidades da floresta e que atua profissionalmente em desbravar a selva utilizando de recursos como facões, machados e armas de fogo para proteção contra animais ferozes.

36 Pessoa da FUNAI responsável pela organização e salvaguarda do posto de atração ou aldeia.

A conversa com os não indígenas, o chefe de posto e o mateiro, pretendeu alcançar a melhor compreensão de como se deu o processo do contato, numa tentativa de ouvir e comparar dois lados da mesma história, de como era a interação entre os indígenas e a sociedade envolvente até aquele momento. Visitamos e gravamos a conversa com o pescador Valdemir Sales no Distrito de Jací-Paraná que chegou a participar da equipe do sertanista Benamour Brandão Fontes que em 1976 realizou o primeiro contato oficial com os Karipuna.

A outra conversa com não indígena foi gravada no território Karipuna, já na Aldeia Panorama nas dependências do Posto Indígena (PIN), que nessa época tinha como chefe de posto o senhor Osnir Schwippe, representante da administração local da FUNAI. Importante ressaltar que este momento da pesquisa foi muito difícil, tendo em vista a grande dificuldade imposta pela exuberância da floresta amazônica. Muitas horas de barco até chegar no destino, fomos obrigados a pernoitar nos barrancos do rio Jaci-Paraná, afluente do rio Madeira, na casa de uma família de seringueiros e extratores. Importantes conversas foram realizadas nessa localidade, ali foi possível ouvir muitas histórias daquelas paragens.

As gravações depois de concluídas foram transcritas, respeitando critérios de proximidade à própria expressão das falas dos narradores, havendo nesse caso especificidades da questão linguísticas de indivíduos bilíngues, inclusive um caso em que a entrevista foi realizada totalmente em língua Karipuna – a entrevista com Katiská – não foi aproveitada em sua totalidade na transcrição por não dominarmos a fonética dessa língua.

No transcorrer dos anos de 2001 e 2002 a convivência com a etnia era esporádica com algumas visitas à Casa do Índio e também outros lugares na cidade.

A partir do ano de 2003 até 2013, nossa convivência com os membros da etnia foi facilitada pela atuação profissional do pesquisador no Projeto Açaí, em reuniões das associações indígenas, na escola indígena, na aldeia, nas assembleias comunitárias, contando ainda com diversas visitas em suas residências na cidade de Porto Velho e na Casa do Índio. Nossos encontros durante esses períodos foram ora esporádicos, ora regulares, sempre fomos muito bem recebidos e gentilmente tratados.

Nos anos de 2015, 2016 e 2017, realizamos os contatos para coleta de materiais para esta pesquisa, fomos na CASAI e na casa de uma família Karipuna que reside na cidade de Porto Velho, e utilizando o gravador e o caderno de campo, realizamos conversas e anotamos os dados necessários. Na oportunidade do registro documental em áudio em janeiro e fevereiro do ano de 2017, primeiro conversamos com a senhora Leni Oni Paula, matriarca da família, e depois com Éric Oni Karipuna (Daveka-í)37 e Railander Oni Karipuna (Arongá), filhos da Leni Oni e do Batiti Karipuna (Paiapegá), depois conversamos com Adriano Karipuna (Tangare-í). Finalizamos a atividade de campo em maio de 2017 com uma roda de conversas entre na residência da Leni. Ainda em 2017, na CASAI, conversamos com a Angélica Karipuna (Kuirandí) filha de Katiská Karipuna e irmã do Adriano.

O terceiro momento do nosso trabalho é constituído da análise, separação e organização de todas as informações colhidas no trajeto da pesquisa, aqui também transcrevemos as novas narrativas, selecionamos os materiais importantes que comporão o corpo da pesquisa, as anotações no caderno de campo e o estudo pormenorizado das falas e conversas realizadas pelos indígenas mais velhos e outros atores da história de vida Karipuna, caminho percorrido que ajudou a dar forma e corpo ao trabalho.

Procuramos seguir uma ordem cronológica de toda trajetória de vida dos Karipuna, para melhor compreensão do todo vivido pela etnia. É uma parte considerada como o resultado do estabelecimento das inter-relações das coletas do trabalho de campo com o conhecimento científico, em suma, é a construção da tese propriamente dita, o momento do estado da arte, é o instante da compilação das referências bibliográficas e documentais, da interpretação dos fatos e das análises das novas territorialidades contidas no etnotexto Karipuna. Nessa perspectiva apresentamos no próximo capítulo uma explanação do processo histórico de ocupação do estado de Rondônia visando um panorama geral das experiências da etnia.

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37 Como consta na identidade, e entre parêntese o nome indígena.

3 PROCESSO DE OCUPAÇÃO DE RONDÔNIA E OS KARIPUNA

Retomando o período colonial, a questão da ocupação estratégica da Amazônia está diretamente relacionada à caça aos indígenas, à busca do ouro e à coleta das drogas do sertão, esses foram determinantes fundamentais. A história dos contatos no território onde hoje se encontra o Brasil foi permeada por violentos massacres em um sistemático etnocídio indígena, parafraseando Leonel (1995), é, sobretudo, acompanhar processos de despovoamento, em uma sistemática que podemos chamar de genocídio populacional, responsável pelo desaparecimento de milhões de indivíduos.