SOCIOAMBIENTAL DA TI KARIPUNA
Os estudos de inventário e viabilidade da construção de usinas hidroelétricas no rio Madeira aconteceram no ano de 2001 e se prolongaram até 2006. O leilão de concessão foi realizado em dezembro de 2007, mas somente em fins de 2010 os povos indígenas e outras comunidades tradicionais (pescadores, ribeirinhos, seringueiros e extratores) foram chamadas para consultas sobre o teor dos investimentos e impactos que sofreriam. Neste intuito, as empresas iniciaram uma série de reuniões em 2011 com as lideranças das comunidades atingidas e representantes das instituições do governo.
No dia 03 de fevereiro de 2011 foi realizada na sede administrativa da Empresa SAE uma reunião com as lideranças dos povos indígenas Karipuna e Karitiana, as equipes técnicas da SAE, SEDUC, FUNAI e outros órgãos. A pauta da reunião elaborada pelos técnicos da SAE visava a formação de parcerias para a execução dos projetos de infraestrutura que beneficiariam as comunidades nos âmbitos de vigilância e proteção das terras indígenas, educação, saúde e sustentabilidade (RONDÔNIA, 2011a); (RONDÔNIA, 2011b).
Os líderes indígenas Karitiana expuseram os problemas das invasões das suas terras que estavam sendo ocupadas por madeireiros e fazendeiros.
Apresentaram a necessidade da construção de um posto de saúde e de uma escola dentro da área invadida para mostrar aos invasores a presença das autoridades. Os Karipuna entregaram um projeto de construção de um criadouro de peixes para que futuramente a etnia tenha na piscicultura uma forma de sustento econômico (RONDÔNIA, 2011a); (RONDÔNIA, 2011b).
A equipe técnica da SAE ressaltou que deveria haver um diálogo com as instituições envolvidas para melhor aplicabilidade dos recursos compensatórios.
Os indígenas devem pensar os projetos junto as equipes técnicas das instituições que tenham ligação com as reivindicações. Foi proposta a
elaboração de um cronograma dentro da realidade de cada aldeia obedecendo às especificidades culturais de cada povo. Foi colocado pelos técnicos da empresa que as instituições e os indígenas fariam o diagnóstico e o planejamento seria executado pela empresa (RONDÔNIA, 2011a); (RONDÔNIA, 2011b).
A execução dos projetos dependeria da viabilidade e da maturidade dos empreendimentos, que seriam analisados pelos técnicos e executados em seguida após a aprovação. Devido ao grande número de demandas foi agendada outra reunião para o dia seguinte, 04 de fevereiro, que serviria também para elaborar um cronograma de atividades nas aldeias e na cidade. Na reunião do dia 04, compareceram as lideranças indígenas das etnias Karipuna e Karitiana, as equipes técnicas dos órgãos públicos SEDUC, FUNASA e FUNAI e os consultores da SAE (RONDÔNIA, 2011b); (RONDÔNIA, 2011b).
Foi discutido um termo aditivo que deveria ser acordado para complementar os recursos que foram disponibilizados para as associações das duas etnias. As etnias apresentaram demandas de recursos para cobrir despesas com os veículos das associações que não estavam previstos pela empresa SAE. A empresa havia se comprometido em disponibilizar aos indígenas os recursos materiais necessários para a realização dos diagnósticos compensatórios (RONDÔNIA, 2011a); (RONDÔNIA, 2011b).
Todos os procedimentos estavam em retardo, a equipe técnica da SAE alegou que o início dos procedimentos para os diagnósticos compensatórios dependia da autorização da FUNAI, que demorava em dar a autorização para o começo dos trabalhos nas terras indígenas, mas asseguraram que o diagnóstico seria realizado mesmo sem autorização da referida instituição, definindo a previsão para início no dia 1º de março de 2011. Estabeleceram que os trabalhos tivessem início nas aldeias mais afastadas e depois partindo para as mais próximas da cidade (RONDÔNIA, 2011b); (RONDÔNIA, 2011b).
As associações indígenas e a SAE apresentaram a necessidade de contar com a contribuição dos técnicos da SEDUC e da FUNASA na elaboração dos diagnósticos nas áreas de educação e saúde, que seriam realizados em quatro aldeias, uma, na terra indígena Karipuna e as demais na Karitiana.
O diagnóstico foi um condicionante para o processo de licenciamento das usinas hidroelétricas, constituiu-se no documento para subsidiar a elaboração do
Plano Básico Ambiental (PBA). Os membros da aldeia que acompanharam a elaboração do diagnóstico foram os indígenas Adriano, André, Batiti, Eric, Railander, José Kaxinawá e o não indígena Francisco Cipriano de Oliveira (Chico Onça).
No termo de referência emitido pela FUNAI cabia à SAE o desenvolvimento das atividades nas terras indígenas sob a influência das usinas hidroelétricas. O diagnóstico serve principalmente para apontar problemas existentes e apontar demandas que podem ser concretizadas com medidas mitigadoras e compensatórias causadas por possíveis impactos diretos ou indiretas decorrentes da implantação das UHEs. A TI Karipuna fica a cerca de 100 km em linha reta do eixo da barragem e cerca de 5 km do ponto mais próximo do reservatório abarcando o remanso do rio Jaci-paraná. Conforme o diagnóstico SAE (2011, p. 22):
Os impactos esperados são os decorrentes dos incrementos do processo de antropização recrudescido pelo afluxo de pessoas atraídas pelas obras e novas oportunidades de negócio. Considerando a distância da TI e o remanso do reservatório no braço formado pelo Jaci-Paraná, pode-se esperar alterações consideráveis nas comunidades aquáticas desse rio, em grande parte utilizadas pela comunidade Karipuna como fonte de alimento.
O distrito de Jaci-Paraná fica a cerca de 40 km de distância da TI Karipuna e possui uma área de desmatamento próxima à BR 364, ainda toda a área por onde passam as linhas de transmissão. As construções e as linhas de transmissão interferiram nas paisagens da vegetação da região.
Em deriva da construção da UHE o grande número de máquinas, materiais e operários aumentou o contato com a etnia, consequentemente alterou a vida na aldeia. Devido à proximidade das linhas de transmissão e da estrada que leva ao município de Guajará-Mirim foi possível antever o grande número de impactos de ordem ambiental que seriam ocasionados para o TI Karipuna.
Entre as ações compensatórias para a TI as mais importantes seriam as do componente de proteção territorial, com os monitoramentos da paisagem, dos recursos hídricos e da qualidade da água, da caça e da pesca; ainda, os de produção e sustentabilidade, saúde e promoção de direitos sociais, educação e valorização cultural.
Na parte que corresponde a proteção territorial, coube a construção de estruturas em alvenaria para viabilizar postos de vigilância do TI, veículos traçados para o deslocamento na floresta e barcos, treinamento de pessoal indígena para o monitoramento, aparelhamento tecnológico (rádios, GPS, equipamento de segurança entre outros).
No componente de produção e sustentabilidade consta o levantamento de estudos da viabilidade econômica social e ambiental de recursos agropecuários e florestais para serem utilizados pelos povos indígenas, levantamento da produção artesanal e da potencial viabilização de outros produtos para o comércio. Identificação das necessidades de formação e capacitação para execução das atividades de desenvolvimento e produção econômica sustentável.
O componente de saúde e promoção de direitos sociais buscou identifica as principais doenças que acometem atualmente as pessoas das etnias e em especial os impactos epidemiológicos derivados da construção das hidrelétricas, os danos à fauna e à flora, e as mudanças socioculturais provenientes direta ou indiretamente dos empreendimentos do PAC.
Este componente procurou ainda analisa o saneamento básico e o acesso à água potável, identificar a demanda para infraestrutura de saúde (construção de unidade de saúde com farmácia), atendimento de saúde que contemple e respeite as concepções de saúde e doença na visão sociocultural das etnias.
Ainda, verifica a documentação dos indígenas e o recebimento de benefícios oriundos do governo, como benefícios de prestação continuada, ações de distribuição de alimentos, Programa Bolsa Família entre outros auxílios.
O componente de educação e valorização cultural abrangeu um diagnóstico participativo em que a etnia expressou de que maneira vislumbram sua educação, priorizaram os aspectos relacionados aos seus modos de vida, às suas condições sócio-históricas e ecológicas que permitam a realização das peculiaridades e manifestações da sua cultura (cerimoniais, ritos, histórias, etc.).
5.2 O PROCESSO DE ESCOLARIZAÇÃO KARIPUNA E A CONSTRUÇÃO DA