Volume 2. Coimbra: Coimbra, 2014 p 551) Ver, ainda: SARLET, Ingo Wolfgang A Eficácia dos
6.1.3. A Sociedade Plural e os Interesses Públicos
399
BINENBOJM, Gustavo. Uma Teoria... p. 98.
400
Pertinentes são as lições de Celso Antônio Bandeira de Mello: “Embora seja claro que pode haver um interesse público contraposto a um dado interesse individual, sem embargo, a toda evidência, não pode existir um interesse público que se choque com os interesses de cada um dos membros da sociedade” (Curso... p. 60).
401
SARMENTO, Daniel. Supremacia do Interesse Público... p. 121-122.
402 “(...) não se trata de assentar uma suposta primazia da coisa pública sobre o privado, nem mesmo
de uma demarcação absoluta entre essas esferas, mas de reconhecer a relevância da coisa pública para reavaliar o privado, em um mundo que já não admite posições absolutas” (GRAU, Nuria Gunill.
Repensando o Público Através da Sociedade: Novas Formas de Gestão Pública e Representação
Social. Brasília: Revan, 1998. p. 21).
403
JUSTEN FILHO, Marçal. Curso... p. 121.
404
É o que também defende Daniel Sarmento, a partir de um ponto de vista personalista, segundo o qual o indivíduo é um ser social (Supremacia do Interesse Público... p. 123).
405
Conforme já mencionado, situação peculiar a ser investigada na dimensão atual da prossecução do interesse público é a pluralidade da sociedade a impedir que se identifique um interesse público único, uniforme406. Sendo uma característica do Estado contemporâneo a pluralidade e, mesmo, contrariedade entre os interesses dos integrantes da sociedade, a identificação do interesse público tem que ser feita com cautela407.
No princípio do Estado moderno, a sociedade burguesa constituía a esfera pública408 representada pelos atores políticos. Era esta esfera pública que pressionaria a Administração Pública, interferindo na formação daquilo que seria o interesse público409. Contudo, os atores que integravam esses processos eram, em sua totalidade, homens detentores de poderes econômicos, excluindo-se os demais410, aos quais não era dado nem mesmo o domínio dos códigos mínimos da racionalidade social (o domínio das letras, o conhecimento das leis, etc)411. Nota-se, portanto, que, na sociedade pós-revolucionária burguesa, e, portanto, no início do Direito Administrativo enquanto disciplina normativo-jurídica, o interesse público era unificado a partir de um processo excludente, que se atentava a apenas um grupo da sociedade.
A sociedade, entretanto, vai evoluindo, o direito vai sofrendo reformas, e a identificação do que vem a ser interesse público vai, concomitantemente, se modificando, sendo, o foco do presente estudo, entretanto, não as minúcias dessa evolução, mas a análise do princípio na atualidade.
No constitucionalismo democrático que rege os Estados contemporâneos de tradição de Direito Administrativo, devem ser considerados, em igualdade, o interesse de todos os cidadãos, quer seja individualmente falando, quer seja
406 “O pluralismo, encontrado nas sociedades mais complexas, está referido à constante
diversificação das necessidades que se apresentam nas sociedades contemporâneas (MOREIRA NETO, Diogo Figueiredo. O Direito Administrativo... p. 206).
407
JUSTEN FILHO, Marçal. Curso... p. 116.
408
Jürgen Habermas afirmar ser possível constatar-se que, “nas sociedades europeias do século XVII e XVIII, se tenha formado uma esfera pública burguesa moderna” que “começou a aparecer nas formas de reunião e de organização de um público leitor, composto de pessoas privadas burguesas, que se aglutinavam em torno de jornais e periódicos” (Direito e Democracia: Entre Facticidade e
Validade Vol. II. Tradução de Flávio Beno Siebeneicheler. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997. p.
98).
409 “A esfera pública burguesa, portanto, constituía-se no locus de exercício da problematização e da
crítica de atores livres contra o poder do Estado, com a finalidade de pressioná-lo e de interferir nas decisões sobre as políticas públicas, em direção aos anseios, expectativas e interesses universais” (GUEDES, Éllida Neiva. Espaço Público Contemporâneo: Pluralidade de Vozes e Interesses.
Biblioteca Online de Ciências da Comunicação (BOCC), v. 1, 2010. p. 2.
410
GUEDES, Éllida. Espaço Público... p. 3.
411
LINHARES, Ronaldo Nunes. Internet e Ação Comunicativa como Elementos do Espaço Público sob uma Perspectiva Habermasiana: crise e transição. Novos Olhares, n. 4, 1999. p. 30.
coletivamente, enquanto grupos, inclusive aqueles que antes eram marginalizados. Os interesses dos cidadãos, a outro lado, são cada vez mais múltiplos e especializados, abrangendo grupos de diversas dimensões, sendo cada vez mais distante o vislumbrar de um discurso comum412. A grande diversidade social, econômica e cultural da sociedade contemporânea proporciona modificações nas relações de poder413, a exigir revisão do que se compreende por interesse público. Esse processo é, ainda, potencializado pela internet e pela tecnologia de comunicação em geral, de forma que a comunicação entre os indivíduos não mais imprescinde do espaço público, do “face-a-face”, multiplicando-se as interações sociais414.
Dessa forma, os interesses da sociedade passam a ser tematizados por grupos e organizações, formais ou não, ampliando o espaço de observação da Administração Pública, na conformação do interesse público, potencializando-se a possibilidade de conflitos415. Muito embora, em um sistema democrático, pudesse ser idealizado o sacrifício de interesses particulares em prol de interesses transcendentes, em um consenso comum, é também do próprio “jogo” democrático a admissão de múltiplas visões contestáveis entre si416. Ao Administrador Público é dado concretizar as finalidades do ordenamento jurídico em uma realidade fragmentada, cabendo-lhe unificar o plural417. Não é possível, entretanto, na tentativa de satisfazer a pluralidade, prosseguir plenamente todos os interesses públicos418.
Uma falácia tentadora é acreditar que o interesse público a ser perseguido deve ser aquele que atende à maioria da população. Embora o discurso da maioria seja aliciante, é necessário notar que a vinculação do interesse público a critérios
412
Cf. GUEDES, Éllida. Espaço Público... p. 9.
413
LINHARES, Ronaldo Nunes. Internet... p. 31.
414
Cf. GUEDES, Éllida. Espaço Público... p. 13; LINHARES, Ronaldo Nunes. Internet... p. 31-32.
415 Em sentido semelhante, Éllida Neiva Guedes expõe que “alarga-se a influência das esferas
informais do mundo da vida na formação da opinião pública e nas mudanças do rumo do poder político. A tematização de questões de interesse do bem estar social por organizações específicas provoca a demarcação de novos espaços participativos e, por conseguinte, a ampliação do jogo de disputa entre interesses e opiniões e a possibilidade de ocorrência do conflito” (Espaço Público... p. 7).
416
Cf. GOMES, João Salis. Interesse público, controle democrático do Estado e cidadania. In: MADUREIRA, César; ASENSIO, Maria (orgs.). Handbook de administração pública. Lisboa: Ina, 2013. p. 24.
417
Nesse sentido problematiza Laura Nunes Vicente, embora com foco na atividade do judiciário (O
Princípio da Proporcionalidade: Uma Nova Abordagem em Tempos de Pluralismo. Coimbra:
Instituto Jurídico, 2014. p. 74)
418
quantitativos pode conduzir à opressão, pela supressão dos interesses das minorias, o que destoa das características de um Estado Democrático de Direito419.
Assim, também aqui a proporcionalidade despontará como ferramenta útil, a fim de orientar o Administrador na ponderação dos interesses públicos que eventualmente possam estar em conflito diante do caso concreto a exigir-lhe atuação. Não há como estabelecer regras lógicas de prevalecimento apriorístico de determinados interesses públicos, com exceção daquelas determinadas pelo ordenamento público, ao, por exemplo, proteger certos grupos, como a proteção especial dada por alguns ordenamentos jurídicos aos interesses das crianças e adolescentes420. Assim, nas situações em que a definição do interesse púbico a ser prosseguido couber ao administrador público, cumprirá a este ponderar os interesses públicos legítimos que se lhe apresentam. Assim, é possível garantir, a partir de decisões fundamentadas, às partes, que seus interesses foram considerados e ponderados, ainda que, no caso concreto, não tenho recebido maior dimensão de peso421.