• Nenhum resultado encontrado

A concepção da sociofenomenologia proposta por Peter Berger (1929-) e Thomas Luckmann (1927-) é em muito devedora da abordagem de Mead. A afirmação de que a realidade é construída em termos sociais deriva da consideração do indivíduo e da sociedade como inseparáveis, o que justifica o desenvolvimento de uma teoria que analise os processos em que tal construção ocorre.

O que caracteriza então essa ‘realidade’? Émile Durkheim (1858-1917) propôs- nos a regra fundamental do método sociológico ao afirmar: “considerem os factos sociais como coisas”. Max Weber (1864-1920) acrescenta que “o objecto cognitivo é o subjectivo complexo-de-significados da acção”. Estas duas afirmações nada têm de contraditório, mais concretamente, “a sociedade possui, na verdade, uma factualidade

 

12 A representação teatral foi o mote que Erving Goffman (1922-1982) seguiu para desenvolver um

quadro de referência que serviria de base ao estudo da vida social. O que o indivíduo faz ou pode fazer enquanto desempenha os seus papéis, levou-o à afirmação de que o papel que o indivíduo representa é recortado pelos papéis representados pelos outros. O actor só se substancia pela mediação dos outros. “Quando permitimos que o indivíduo projecte uma definição da situação em que aparece perante os outros, deveremos ter em conta também que os outros, por muito passivo que pareça o seu papel, projectam efectivamente, também eles, uma definição da situação através da maneira como respondem ao indivíduo e das linhas de acção que adoptam em relação à sua pessoa” (Goffman, 1959: 20). A interacção é então vista como os momentos em que os indivíduos se encontram uns na presença dos outros e o fluxo contínuo de influências que aí se desenvolvem e é nessas situações microssociológicas que se explicam as práticas sociais.

objectiva. E a sociedade é, de facto, também constituída por actividades que exprimem um significado subjectivo” (Berger e Luckmann, 1966: 29).

Essa factualidade objectiva está assegurada à partida, na medida em que a realidade da vida quotidiana é constituída por objectos que foram designados como tal num tempo cuja memória se perdeu e que não depende da vontade individual. O papel da linguagem neste processo é fundamental ao preencher a realidade de objectos dotados de significação. Podemos apontar aqui um dos momentos dialécticos da realidade social: a sociedade é uma realidade objectiva.

Por outro lado, a realidade da vida quotidiana apresenta-se ao indivíduo como um mundo intersubjectivo, um mundo apreendido pela consciência individual mas que o indivíduo partilha com os outros. A expressividade humana manifesta-se em produtos da actividade humana que constituem um mundo comum tanto para os produtores como para os outros indivíduos. Esses ‘outros significantes’ são os agentes principais da manutenção dessa realidade subjectiva. O ser/estar do indivíduo é um ser/estar em interacção e em comunicação com os outros. “A linguagem objectiva as experiências partilhadas e torna-as acessíveis a todos dentro da comunidade linguística, tornando-se assim tanto a base como o instrumento do património colectivo de conhecimentos” (Berger e Luckmann, 1966: 79). Ela concretiza um mundo, no sentido de o apreender e de o produzir. Outro dos momentos dialécticos é: a sociedade é um produto humano.

A situação de estar frente a frente com o outro pode ser considerada a mais importante vivência do outro. “O outro, na situação de frente a frente, é mais real para mim que eu próprio” (Berger e Luckmann, 1966: 41). O outro é apresentado de imediato, o que já não acontece com o próprio, cujo conhecimento implica a reflexão. Tal como Mead propunha, a reflexão sobre o próprio é desencadeada pela atitude do outro para com o primeiro, que obtém a consciência de si através do outro. E finalmente, o terceiro (apesar de nenhuma ordem hierárquica poder ser estabelecida) momento dialéctico da realidade social: o Homem é um produto social.

“O conhecimento relativo à sociedade é, assim, uma percepção no sentido de apreensão da realidade social objectivada e uma realização, no sentido de continuada produção desta realidade” (Berger e Luckmann, 1966: 77).

Mais concretamente, na vida de cada indivíduo existe uma sequência temporal no decurso da qual ele é levado a integrar a dialéctica da realidade social. O ponto

       

inicial deste processo é a interiorização: “a apreensão ou interpretação imediata de um acontecimento objectivo como exprimindo sentido, isto é, como manifestação de processos subjectivos de outrem que assim se torna, em termos subjectivos, significativo para mim” (Berger e Luckmann, 1966: 137). A subjectividade do outro é acessível de modo objectivo e torna-se significativa para o primeiro, na medida em que compreende o mundo em que o outro vive e esse torna-se também o seu próprio mundo. Cada um dos dois não só ‘compreende’ a definição da situação partilhada, mas é também capaz de a definir de maneira recíproca. Vivem no mesmo mundo e participam do ser um do outro. Só depois de ter alcançado este grau de interiorização é que o indivíduo se torna membro da sociedade.

A proposta de Berger e Luckmann13 consiste então na explicitação de três momentos fundamentais: um primeiro momento em que os indivíduos, através da linguagem, exteriorizam um conjunto de significados subjectivos produzidos na dinâmica intersubjectiva; um segundo momento em que esses significados são objectivados em tipificações que conduzem a instituições; e um terceiro momento em que esse mundo institucional é interiorizado, nomeadamente através do processo de socialização.

A explicação da realidade social, deste modo, partindo embora das teorias sociológicas fundamentais de Durkheim e Weber, acaba por transcendê-las de uma forma muito significativa ao chamar à discussão um princípio mediador (comunicacional) da objectividade e da subjectividade – princípio ausente quer do sociologismo (objectivista) durkheimiano, quer da sociologia compreensiva (‘subjectivista’) weberiana.