A sombra: peculiaridade do enredo de Lobato

No documento Antropofagia no sítio : insólito ficcional e identidade cultural em Peter Pan, de Monteiro Lobato (páginas 105-107)

3 O SÍTIO DO PICAPAU AMARELO E A TERRA DO NUNCA: LOCAIS DE

4.3 Peter Pan no imaginário coletivo brasileiro

4.3.1 A sombra: peculiaridade do enredo de Lobato

Enquanto Dona Benta avança na contação da história de Peter Pan para seus netos, no enredo do livro de Lobato, uma trama lateral se desenvolve. A sombra de Tia Nastácia começa a sumir:

Emília saíra da sala pé ante pé sem que ninguém percebesse, e logo depois voltou com a tesoura de Dona Benta na mão. E deu um jeito de cortar a sombra de Tia Nastácia, que enrolou e foi guardar no fundo de uma gaveta.

Ninguém percebeu a manobra, mas quando chegou a hora de se recolherem e Tia Nastácia foi apagar o lampião:

- Ué! – exclamou ela espantadíssima, vendo projetar-se na parede a sombra sem cabeça. – Que coisa, santo Deus! Será que perdi minha cabeça?

E apalpou-se para verificar se estava mesmo sem cabeça. Só então se lembrou da passagem contada por Dona Benta, e viu que alguém lhe havia cortado a cabeça da sombra.

- Isso também é demais! – gritou ela. – É judiação. Cortar a cabeça da sombra duma pobre negra velha que nunca fez mal a um mosquito... Mas quem foi o malvado? (LOBATO, 2012, p. 27).

A partir de então, um mistério instaura-se para as personagens da narrativa. A cabeça da sombra de Nastácia havia sido arrancada em alusão à cabeça da sombra de Peter Pan, que, na versão de Lobato, era a única parte que o menino havia perdido no quarto dos Darling.

Essa alteração com relação ao enredo de Barrie merece comentário especial. Ela deu a Dona Benta a possibilidade de dizer que a sombra de Pan havia sido “guilhotinada” pela janela, e diversas explicações sobre a guilhotina, a Revolução Francesa, Maria Antonieta e a tirania puderam ser feitas; não de maneira inocente, é claro, uma vez que Peter Pan concentra alto número de críticas a ditaduras e ao conservadorismo.

Dando sequência à trama lateral, todos os dias, antes de Dona Benta retomar a história de Barrie, novas partes da sombra de Nastácia iam-se perdendo, até que, no último serão, a sombra desaparecera por completo. O Visconde, que, nesse livro, quase não tem falas, passara todas as noites analisando o comportamento dos envolvidos e, por fim, chega à conclusão de quem era a criminosa: “- É a Senhora Dona Emília a ladrona da sombra! – declarou o Visconde corajosamente” (LOBATO, 2012, p. 74).

Revelada, a boneca afirma que só pregara uma peça, e que isso não configurava roubo. De fato, a sombra de Nastácia já estava em seu devido lugar, toda remendada, quando da última noite de histórias.

- Bom – disse Dona Benta. – Desde que a sombra voltou, não vale a pena insistirmos nisso, mas Emília que não se repita a brincadeira. A sombra grudou muito bem. Mas se não grudasse? Se a pobre Tia Nastácia ficasse aleijada por toda a vida? Não e não. Basta de tais reinações. Com sombra a gente não brinca (LOBATO, 2012, p. 75).

A história da sombra de tia Nastácia em Peter Pan pode ser vista de diversas maneiras. Uma delas é que o universo fantástico-maravilhoso da autoria de Barrie já encontrava existência e aplicabilidade no Sítio antes mesmo da visita do menino que não queria crescer, que aconteceria em livros posteriores na coleção de Lobato. Isso confirma nossa hipótese de que houve antropofagia na ordem da constituição do elemento sobrenatural: as propriedades mágicas do ambiente de Lobato conversam com as do de Barrie.

Outra hipótese confirmada com essa leitura é a de que os dois universos insólitos promovem transgressão da realidade por estranhamento do leitor: se, em Barrie, a sombra aprisionada na casa dos Darling representa a alma do espírito infantil que não queria e não podia deixar aquela casa, em Lobato, a sombra decapitada representa a tirania. E mais: a sombra da negra decapitada pode ser mais uma forte autocrítica lobatiana: mantendo

incólume um discurso racista como o de Emília, a nação brasileira fazia sobreviver a ideologia tirânica dos tempos da escravidão, abolida algumas décadas antes.

Por outro lado, assim como a fada Sininho, é claro que a boneca Emília gosta de agir por impulso, pensa pouco e sente apenas um sentimento por vez. Nesse sentido, a boneca não é necessariamente criticável de retrógrada e racista. Ela poderia, talvez, representar extremos sociais “evitáveis”, na concepção de Lobato: a camada ultraconservadora, e também as atitudes anárquicas, uma vez que as ações da personagem por vezes são “sem eira nem beira”, sem regulamentação, sem moralidade. Não se pode afirmar que Lobato conceda apologia às ações negativas de Emília, mas ele dá espaço a elas, de maneira dialógica. No fim, ela recebe sermão e aprende o que não deve fazer – como deve acontecer com uma criança, com um grupo reacionário conservador e, por que não dizer, com o anarquismo.

De qualquer modo, toda a sequência da narrativa lateral sobre a sombra de Nastácia pode fazer um leitor desatento esquecer-se que Peter Pan não é da autoria de Lobato, afinal, ele se apropria de todos os elementos de Barrie com tanto afinco. Talvez isso tenha acontecido entre os leitores brasileiros dos anos 1930 e 1940, considerando que o livro foi tão comentado, lido e vendido, dentro da coleção de Lobato, sem que houvesse a disponibilidade de uma tradução do original, com o nome do escocês na capa. Pode-se ter criado, na cultura nacional, a ideia de que o “tal Peter Pan” fazia parte do universo lobatiano, e sempre havia feito. E essa crença só seria derrubada em 1953, quando Walt Disney, amparado por seu já consolidado império de distribuição e influência cultural, lançou sua versão e a enviou aos cinemas brasileiros. A partir daí, passou-se a falar mais pesadamente sobre um “Peter Pan de Walt Disney”.

No documento Antropofagia no sítio : insólito ficcional e identidade cultural em Peter Pan, de Monteiro Lobato (páginas 105-107)