Ao propormos uma pesquisa no ambiente de trabalho a partir da intervenção nos processos de certificação básica dos trabalhadores técnico/operacionais da mineradora estamos apostando também numa política de produção de subjetividade. É a partir dos possíveis advindos da desestabilização daquilo que já está dado que se tornam potentes as intervenções no mundo do trabalho.
Contudo, antes de submergirmos nos conceitos proposto nesse tópico, sentimos necessidade de abordar um pouco da ‘nossa’ dramática do uso do corpo-si que envolve a escolha do uso desse referencial teórico neste estudo. Como toda atividade porta debate de normas e renormalizações, os riscos inerentes às escolhas sempre existirão e a dramática se encontra na perpetração de gerir as múltiplas escolhas que vão se interpondo no caminho. Essa é a dramática do uso do ‘corpo-si’ na qual nos encontramos nesse momento. Ao sentirmos a necessidade de trazermos o conceito de subjetividade para essa pesquisa transgredimos, em certa medida, com a rejeição de Schwartz ao uso do termo ‘subjetividade’ nos seus estudos em Ergologia,
Desconfio um pouco da noção de subjetividade. É verdade que falar de subjetividade tem algo de sedutor (...). Temos a impressão de que falam de você, enfim, na primeira pessoa. Você é colocado diante de um espelho onde você se reconhece, porque não é tão difícil de evocar sobretudo a dimensão da pena, da dificuldade de viver. “Enfim, falam de mim” (SCHWARTZ; 2010e, p.197)
Referimo-nos a ‘uma certa’ transgressão, pois Schwartz (2010e) ao se distanciar do termo subjetividade, ele o faz na tentativa de colocar o drama como algo substitutivo a uma subjetividade onipresente.
Ela é onipresente como obrigação de negociação, de arbitragem. Essa questão me leva justamente a distanciar do termo “subjetividade”. É minha posição
65 seja justamente as escolhas que são feitas: elas não são sempre conscientes,
postas na mesa, elas são feitas frequentemente, de forma quase inconsciente – e, felizmente, não somos obrigados a nos perguntar sem cessar:
“o que eu estou fazendo, como escolho etc.…” ou tentar decompor, desdobrar em múltiplas arbitragens (SCHWARTZ, 2010e, p. 196, grifos nossos).
Assim, entendemos que a rejeição pessoal de Schwartz ao uso do termo subjetividade se coloca em contraposição à noção de subjetividade usada hegemonicamente para definir ao que é interno, próprio de um sujeito, cristalizado numa espécie de característica consciente. Subjetividade que se encontra num modelo polarizado, onde existe um sujeito único, um “eu” portador de uma subjetividade nata, pronta a ser descoberta, separada de um corpo, numa condição binária. Portanto, por se contrapor ao uso do termo subjetividade hegemonicamente utilizado, Schwartz (2000a) lança mão do termo “si” ou corpo-si. “O “corpo-si”, árbitro no mais íntimo da atividade, não é um “sujeito” delimitado, definido, mas uma entidade enigmática que resiste às tentativas de ser objetivado” (SCHWARTZ; 2010e, p.196).
Ao falar da indissociabilidade entre corpo e mente, Schwartz (2014) afirma abertamente que esse corpo vivo era ao mesmo tempo corpo de um ser psíquico e histórico e que não podia se restringir a alma e nem tampouco ao corpo. Assim, foi com o objetivo de evitar esse esforço de recentramento nas problemáticas demasiado codificadas do ‘sujeito, da ‘subjetividade’ que Schwartz preferiu usar o termo voluntariamente obscuro ‘si’. Para Schwartz, o “si” não se refere a uma subjetividade individual, interiorizada, relativo ao íntimo do trabalhador,
nós seríamos um pouco reservados quanto a toda abordagem puramente especulativa do “sujeito”, do “eu”, da “individualidade”. Nós acreditamos nas coisas mais claras a partir do momento em que a questão é colocada do ponto de vista da atividade, de uma prática, de uma experiência transformadora (SCHWARTZ, 2000, p. 44).
É por considerar as exortações de Schwartz sobre o uso do termo subjetividade que optamos por usar como fundamento nesse estudo o conceito de subjetividade de Felix Guattari. Entendemos que essa interlocução vem ao encontro do cuidado de Schwartz ao declinar do uso do termo subjetividade na ergologia.
Portanto, é a partir desse ponto de certa confluência conceitual que nos arriscamos a valer dos conceitos de subjetividade proposto por Guattari por entendermos que o estudo da subjetividade, a partir desse autor, poderá trazer uma contribuição a esse estudo sem, contudo, ferir o zelo de Schwartz em refutar o uso desse termo. Assim, reafirmamos que não temos o intuito de esvaziar o conceito “si” ou “corpo-si” forjado pela Ergologia, mas reiterar a
66 importância de trazer as discussões pertinentes aos processos de produção de subjetividade e os processos de subjetivação nessa pesquisa.
Desta forma, para pensarmos numa produção de subjetividade nesse campo, nos apropriaremos da noção de subjetividade como uma força processual, uma trama que não está dada de antemão, mas que se faz continuamente. Nessa via, há uma plasticidade que se opõe às concepções deterministas da subjetividade unificada.
A subjetividade não é uma espécie de fenômeno psicológico que faz parte do interior do indivíduo, nem é algo natural e imutável, pronto para ser revelado. Para tanto, faz-se necessário um rompimento com o pensamento moderno que sugere a subjetividade como uma unidade, um centro. Há nesse pensamento uma supervalorização da subjetividade privada, uma ideia de intimidade que naturaliza, que busca fossilizar uma realidade existencial que está em movimento, criando a ideia de uma identidade cristalizada do ser humano. Guattari (1992, p. 19) define subjetividade como “o conjunto das condições que torna possível que instâncias individuais ou coletivas estejam em posição de emergir como território existencial autorreferencial, em adjacência ou em relação de delimitação com uma alteridade ela mesma subjetiva”.
Para Guattari e Rolnik (2010, p.41), “a subjetividade não se situa no campo individual, seu campo é o de todos os processos de produção social e material”, é constituída por um certo jeito de utilizar a linguagem, a forma de dar sentido a semiotização do coletivo - sobretudo da mídia, a relação com o universo, com a cidade e etc. Dessa forma, o indivíduo está na encruzilhada de múltiplos componentes de subjetividade, sendo esta manufaturada. Para esses autores, a subjetividade resulta de um entrecruzamento coletivo de várias espécies. Afirmam que a matéria prima que compõe as subjetividades é variável e historicamente localizada. “Não existe uma subjetividade do tipo “recipiente” onde se colocariam coisas essencialmente exteriores, que seriam interiorizadas” (GUATTARI; ROLNIK, 2010, p.43, grifo dos autores).
Dessa forma, a ideia de subjetividade - da mesma forma que foi rechaçada por Yves Schwartz (2010e) - não se confunde com aquela de individuo, pois não compete ao íntimo de cada um. Nesse estudo, apostamos em uma
subjetividade inventiva, desafiadora de si mesma que se auto produz em uma constituição, que não cessa de percorrer caminhos e também deixá-los, que exige modos de vidas plásticos, modificantes, sendo assim, não existe mais
67 individualidade, nem pessoalidade, mas uma impessoalidade e um profundo exercício de singularização e ressingularização [...] A subjetividade não cessa de criar novas modalidades de subjetivação (BRITO, 2012, p.9).
Assim, a subjetividade não escapa da invenção, pois está em deslocamento, em trocas e em movimentos. Para Machado (1999, p. 02), “os modos de subjetivação referem-se à própria força das transformações, ao devir, ao intempestivo, aos processos de dissolução das formas dadas e cristalizadas, uma espécie de movimento instituinte [...]”. Brito (2012, p.20) também se refere a esse duplo movimento ao apontar que “a subjetividade e a subjetivação estão sempre implicadas, é isso que fomenta outros modos de experiência”.
Para Guattari (1992), o que se torna importante é a constituição de complexos de subjetivação que oferecem à pessoa possibilidades diversificadas de recompor uma corporeidade existencial, de sair de seus impasses repetitivos e de alguma forma de se ressingularizar. Dessa forma,
O modo como pelo qual os indivíduos vivem essa subjetividade oscila entre dois extremos: uma relação de alienação e opressão, na qual o indivíduo se submete a subjetividade tal como a recebe, ou uma relação de expressão e criação, na qual o indivíduo se reapropria dos componentes da subjetividade, produzindo um processo que eu chamaria de singularização. (GUATARRI; ROLNIK, 2010, p.42)
É importante ressaltar que, no contexto das relações de trabalho, onde opera a lógica das modulações capitalistas – faz-se presente a tirania do lucro, modus operandi das grandes empresas, sobretudo as multinacionais que são fortemente influenciadas pelo capital internacional - há um campo de forças que age em duas dimensões concorrentes, de um lado, uma produção de subjetividade, dominante, que tenta capturar toda potência de vida do trabalhador e transformá-la em vetor de produção de riquezas e, por outro, há algo da ordem do desejo, da inventividade, do amor e da criatividade que insiste em se fazer presente como possibilidade de resistência e de luta pela vida e pela saúde no trabalho, os processos de singularização. No entanto Guattari, de forma enfática, nos adverte que,
Todos os devires singulares, todas as maneiras de existir de modo autêntico chocam-se contra o muro da subjetividade capitalística. Ora os devires são absorvidos por esse muro, ora sofrem verdadeiros fenômenos de implosão. É preciso construir uma outra lógica – diferente da habitual – para poder fazer coexistir esse muro com a imagem de um alvo que uma força não seria capaz de perfurar (GUATTARI; ROLNIK, 2010, p.59).
O que vai caracterizar um processo de singularização e reapropriação dos seus devires é que ele seja automodelador para um grupo, que ele seja capaz de captar elementos da situação e que
68 construa seus tipos de referência práticas e teóricas. Guattari nos aponta que “a partir do momento em que os grupos adquirem essa liberdade de viver seus processos, eles passam a ter uma capacidade de ler sua própria situação e aquilo que se passa em torno deles. Essa capacidade que vai lhes dar um mínimo de possibilidade de criação” (GUATTARI; ROLNIK, 2010, p.55).
Contudo, os processos de singularização podem ser vistos pelo capital dominante como escape às suas armadilhas, e à medida que esse processo se fortalece, é estabelecido uma verdadeira luta para dominá-los. Esses processos frustram os mecanismos de interiorização dos valores capitalísticos e pode conduzir à afirmação de valores num registro particular, independentemente das escalas de valor que os cercam (GUATTARI; ROLNIK, 2010). Pois “tudo o que é do domínio da surpresa e da angústia, mas também do desejo, da vontade de amar e de criar deve se encaixar de algum jeito nos registros de referências dominantes” (ibid, p, 52).
Nesse sentido que Guattari nos adverte: há tentativas de singularização que não são fáceis, por isso, acabam sendo abortadas. Entretanto, apesar da precariedade e dos fracassos elas se encontram em ruptura com a produção de subjetividade capitalística e desencadeiam a reapropriação dos territórios subjetivos (GUATTARI; ROLNIK, 2010). Apostar em uma formação que valorize a singularização e os saberes históricos que ela constitui, é também apostar na resistência do coletivo de trabalhadores em não sucumbir às tentativas de captura da inventividade que se dá no transcurso da atividade. A ruptura com esse modus operandi fomenta a reapropriação do trabalho como objeto de pensamento, provoca os processos de ressingularização e de renormalização do saber-fazer construídos coletivamente. Assim, nessa lógica de formação, podemos afirmar que estamos apostando na ampliação do poder de agir (CLOT, 2010) dos trabalhadores da mineração e na potência de vida e de saúde no trabalho.
Regido pela mão de ferro do capitalismo contemporâneo, o ambiente laboral é um lugar onde o campo de força entre a produção de subjetividade - orquestrada por este sistema - e os processos de singularizações se desafiam. A primeira extrai o seu alimento no cotidiano das práticas e das relações de trabalho estabelecidas pelo grande capital. Já os processos de singularização, força oponente e criadora de vida, se mostram - como possibilidade de resistência e de proteção à saúde - nas ações inventivas e criadoras no trabalho, nos escapes do que é repetitivo e fragmentado, no drible do que está prescrito, no real da atividade. Isso quer dizer que é algo da ordem do que não se pode ensinar, posto que é singular. Pois, como nos diz Guattari, o processo de singularização
69 É uma maneira de recusar todos esses modos de encodificação preestabelecidos, todos esses modos de manipulação e telecomando, recusá- los para construir, de certa forma, modos de sensibilidade, modos de relação com o outro, modos de produção, modos de criatividade que produzam uma subjetividade singular. Uma singularização existencial que coincida com um desejo, com um gosto de viver, com uma vontade de construir o mundo no qual nos encontramos, com a instauração de dispositivos para mudar os tipos de sociedade, os tipos de valores que não são os nossos ((GUATTARI; ROLNIK, 2010, p.22).
A produção de subjetividade para Guattari é influenciada pelo Capital Mundial Industrial (CMI). Logo,
A produção da subjetividade pelo CMI é serializada, normalizada, centralizada em torno de uma imagem, de um consenso subjetivo referido e sobrecodificado por uma lei transcendental. Esse esquadrinhamento da subjetividade é o que permite que ela se propague em nível da produção e do consumo das relações sociais, em todos os meios (intelectual, agrário, fabril, etc.) e em todos os pontos do planeta (GUATTARI; ROLNIK, 2010, p.48).
Dessa forma, tanto a produção de subjetividade, brotada no cotidiano das relações, quanto os processos de singularização gravitam no espaço corporativo, cada um, a seu modo, opera com sua potência.
Assim, a partir do entendimento da existência do campo de forças nas quais os processos de produção de subjetividades e de singularização se encontram num continuum devir, como efeito da dramática do uso do corpo-si nesse processo, faz-se necessário uma intervenção, nos processos de certificação básica dos trabalhadores técnico/operacionais da mineradora, que busque dar visibilidade a importância dos processos de ressingularização da experiência no campo do trabalho, potencializando os saberes históricos que são frutos dos processos cotidianos de aprendizagem na atividade.
Para Teixeira e Barros (2009), ao intervirmos na atividade, estamos intervindo nos modos de subjetivação, pois os modos de subjetivação põem em funcionamento formas relacionadas ao cotidiano da vida – pensar, trabalhar, agir, amar... – contudo essas formas de viver não são exclusivas de um grupo de trabalhadores nem constituem a sua identidade, “mas são construídas histórica e socialmente, abertas para a criação de outros/novos processos subjetivos que podem colocar em funcionamento subjetividades mais potentes” (ibid. p. 84). Isso reforça o nosso entendimento sobre a importância dos processos de produção de subjetividade e dos modos de subjetivação para constituição dos saberes históricos.
70 Este estudo, ao ter como centralidade a importância dos processos de ressingularização e da produção de saberes históricos que permeiam o saber-fazer coletivo, pela qual a atividade é seu efeito e, paradoxalmente, a sua causa, nos permite lançar mão dos conceitos de subjetividade e de subjetivação, pois estes se encontram em justaposição aos conceitos da dramática do uso do corpo-si tal qual concebido pela Ergologia. Contudo, usá-los-emos com parcimônia e cuidado que tal debate nos exige.
Deste modo, valemo-nos dessa concepção teórica em complementaridade ao conceito de dramática do uso do ‘corpo-si’ por entendermos que este estudo nos convoca a lançar os nossos olhares para além da atividade. Um olhar que deve ser também direcionado para a existência das estratégias, economicamente produzidas pelo capitalismo mundial, as quais suscitam efeitos nos processos de produção de subjetividade e nos processos de singularização em que os trabalhadores da mineração se encontram em constante batalha. Ora, se são os valores que possibilitam o debate de normas e os processos de renormalização, logo, nós devemos nos atentar para o fato de que a constituição desses valores também é efeito da produção de subjetividade e dos processos de subjetivação em curso na atividade.