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A subjetividade moderna em Benjamin Morte e escrita na cidade de Baudelaire

3 BENJAMIN E A CIDADE EM ESCOMBROS: MODERNIDADES E

3.2 A subjetividade moderna em Benjamin Morte e escrita na cidade de Baudelaire

A visão de mundo moderna teria traços tanto barrocos como trágicos, como Benjamin observa ao voltar seu olhar para a obra poética de Baudelaire. Benjamin cita o poeta nesses termos:

O homem moderno é um herói, diz Baudelaire: ‘A maioria dos poetas que trataram de assuntos realmente modernos contentou-se com temas esteriotipados, oficiais – estes poetas preocuparam-se com nossas vitórias e nosso heroísmo político. (...) Mas existem temas da vida privada muito mais heróicos. O espetáculo da vida mundana e de milhares de existências desordenadas; vivendo nos submundos de uma grande cidade – dos criminosos e das prostitutas – A “Gazette dês Tribunaux” e o “Moniteur” provam que apenas precisamos abrir os olhos para reconhecer o heroísmo que possuímos (BENJAMIN, 2005, p. 7).

A partir de Baudelaire, Benjamin afirma: “o herói é o verdadeiro tema da modernité. Isto significa que para viver a modernidade é preciso uma formação heróica” (BENJAMIN, 2005, p. 12). Ele percebe uma atitude heróica não só nos personagens

que Baudelaire desenha, mas nas próprias atitudes do poeta e na forma como ele vê a atividade produtiva. Ao falar de Baudaleire, Benjamin o compara ao esgrimista que faz sua obra a partir de um esforço físico de criação. E destaca que, se Baudelaire vê um gesto heróico nos trapeiros nas ruas de uma metrópole capitalista, selecionando lixo, também estende essa tragicidade ao poeta moderno: “os poetas encontram na rua o lixo da sociedade e a partir dele fazem sua crítica heróica” (BENJAMIN, 2005, p. 16). O artista reúne “tudo o que a cidade grande jogou fora, tudo o que ela perdeu, tudo o que desprezou” (BRETAS, 2008, p. 129).

Como destaca Flávio Kothe (1976, p. 74 e 75), Benjamin “valorizou Baudelaire por ter assumido a experiência de choque, vigente no cotidiano das metrópoles modernas” e pela denúncia que o poeta faz das experiências de trauma diárias nos grandes centros. Benjamin também enalteceu a “poética de recusa” de Baudelaire, sua resistência em “ser somente um produtor de mercadorias”, sua reivindicação de dignidade para si mesmo e para a sua produção.

Baudelaire voltou seu olhar para a população empobrecida e proletária do século XIX, em seu esgotamento físico e moral e a trouxe para seus poemas. Mas não era incomum que a apresentação dos problemas sociais preparasse a cena para a entrada do herói moderno. A multidão parisiense que Baudelaire retratou compunha o quadro, ou, como diz Benjamin, “o pano de fundo, no qual se destaca o herói” (BENJAMIN, 2000, p. 12).

Montado o palco, como se desdobraria o enredo? Segundo Benjamin, na modernidade, a trama é aquela em que o herói não tem lugar. Baudelaire usa a imagem dos navios no ancoradouro, destacando “o seu despreendimento e a sua força”, para falar dos modernos. Embora dotado de grande força, o herói moderno seria guiado por “uma má estrela”, em direção a um destino fatal: a própria modernidade, que o rejeita, negando-lhe um lugar. A destinação que a modernidade lhe dá é amarrá-lo “para sempre no porto seguro”.

Como diz Benjamin, “a modernidade heróica revela-se como tragédia em que o papel do herói está disponível”. Como herói deslocado, que não tem papel próprio, o moderno representa papéis; é “o representante do herói” (BENJAMIN, 2000, p. 27-28).

Sem lugar, o destino do herói moderno se encerra na morte, diz Benjamin. A modernidade, encerrada à perspectiva do sujeito, não chega ao descentramento das identidades; o que alcança é a afirmação da inevitabilidade da morte natural, sem desfocá-la pelo movimento – contingente e ‘não-natural’ – em direção ao outro.

Nesse aspecto, o ato heróico da modernidade, diz Benjamin, é o suicídio. Em suas palavras:

os obstáculos que a modernidade opõe ao élan produtivo natural do indivíduo encontram-se em desproporção com as forças dele. É compreensível que o indivíduo fraqueje, procurando a sorte. A modernidade deve estar sob o signo do suicídio, que seja uma vantagem que nada concede à atitude que lhe é hostil. Esse suicídio não é renúncia, mas paixão heróica. É a conquista da modernidade no campo das paixões (BENJAMIN, 2000, p.13).

Baudelaire, que Benjamin elege para pensar a modernidade, um poeta profundamente impregnado por morte, via a sua poesia como uma “luta, perdida de antemão, contra o tempo devastador” (GAGNEBIN, 2007, p. 52). Refletindo, a partir de Baudelaire, sobre as relações entre escrita e morte, Benjamin viu, na modernidade, uma época em que uma mordaz percepção da temporalidade histórica se apodera da escrita13. E se apodera de maneira dilacerante, sem que a consciência do efêmero se apóie mais na estabilidade de um horizonte teológico. Na ausência do consolo do eterno, a modernidade se percebe fadada à ruína, reconhecendo, nos restos que lhe chegam da antiguidade, o seu próprio destino, corroído pelo tempo.

13 Segundo Gagnebin (2007, p. 139), “a nossa hipótese é a de que Benjamin elabora uma reflexão a fundo sobre a modernidade (...) para elucidar, a partir do exemplo privilegiado de Baudelaire, as ligações essenciais entre escrita e consciência do tempo (e da morte): é essa relação específica que será decisiva para a definição benjaminiana da ‘modernidade’”.

Para Benjamin, o poeta moderno, ao escrever, afirma a morte e, ao fazê-lo, luta com ela: “Em suas obras, Baudelaire e Proust dizem a morte em obra, inaugurando esta relação de combate contra a morte e de conivência com ela, que caracteriza a literatura contemporânea'” (GAGNEBIN, 2007, p. 52). E é no espaço da cidade, característico da modernidade, que escrita e morte se associam: “a cidade moderna não é mais um simples lugar de passagem em oposição à estabilidade da Cidade divina, mas o palco isolado de um teatro profano onde a destruição acaba por vencer sempre” (GAGNEBIN, 2007, p. 50).

Segundo Benjamin, o que impede Baudelaire de se aprisionar no espaço simbólico é a sua intenção alegórica, que, conferindo-lhe tons barrocos, o faz arrancar os objetos de seus contextos usuais e inseri-los em outros, em um esforço por “liberação das coisas da escravidão de serem úteis” (SELIGMANN, 2007, p. 35).