3 BENJAMIN E A CIDADE EM ESCOMBROS: MODERNIDADES E
3.3 Sonho e mito da modernidade: crítica em fragmentos
Se Baudelaire se utiliza da alegoria para fugir ao cerco moderno da morte, Calderon de La Barda, em o Grande teatro do mundo e Vida é sonho, tenta outra saída. Como Benjamin observa, a alternativa do poeta espanhol para escapar à “clausura de uma imanência que o aprisiona” é a de se ater à própria dimensão da representação e nela fazer uma “inclusão indireta da transcendência”, por meio da “utilização de espelhos, cristais, marionetes” e, em especial, por meio da meditação sobre a dimensão de sonho e de teatralidade do mundo (GAGNEBIN, 2007, p. 56).
Benjamin, com Calderon, afirmará que “‘o sonho se estende sobre a vida desperta como se fosse a abóbada celeste’”. Benjamin liga o sonho à imaginação e entende que sonho e reflexão andam juntos, como pensa o poeta barroco (GAGNEBIN, 2007, p. 63-65).
A verdade, para Benjamin, não é oposta ou indiferente ao sonho. Ele diverge da perspectiva de Kant, que vê os sonhos como mera projeção de objetos interiores. Também diverge do pensamento de Descartes, que concebe a verdade como oposta ao sonho e este como um lugar habitado por um gênio enganador, que deve ser dissolvido pela vigília e pelo raciocínio matemático. Nas palavras de Benjamin, “a verdade não é desnudamento, que aniquila o segredo, mas a revelação, que lhe faz justiça” (GAGNEBIN, 2007, p. 39-40).
Benjamin não concebe o processo de compreensão como encadeamento de deduções, à maneira cartesiana. Para ele, a compreensão estaria mais próxima da interrupção, das experiências limítrofes, da rememoração e do onírico. E também da errância, que ele vê como “instrumento catalizador de uma certa desordem produtiva, fundamental para uma posterior reorientação espacio-temporal da experiência histórica” (BRETAS, 2008, p. 186).
O movimento surrealista francês - com a crítica ao “reino da lógica”, a convocação à imaginação para que venha “mostrar aquilo que pode ser” (BRETAS, 2008, p. 172) e o esforço para “conquistar para a revolução ‘as forças da embriaguez’” (MIQUELIN, 1995, p. 41) -, atraiu fortemente Benjamin. Para Benjamin, “o grande mérito do surrealismo não é apontar no enigmático o seu lado enigmático, mas descobrir o maravilhoso no cotidiano” (BRETAS, 2008, p. 186).
Benjamin não rejeita o sonho, como a tradição clássica e o iluminismo kantiano; pelo contrário, ele o acolhe, mergulhando intensamente em experiências oníricas e limítrofes. No entanto, a sua ênfase é na necessidade do despertar. Como destaca Adorno, o mais importante para Benjamin era “liberar-se do sonho, sem o trair” (BRETAS, 2008, p. 186). Benjamin experiencia a dimensão do sonho, a acolhe, e acolhe o mito. Mas não para afirmar o inebriamento no mito como talvez tenha sido a opção de Nietzsche14, e sim para pensar o 14 Para Nietzsche, o sonho exprime “o núcleo de verdade em torno do qual gravita a realidade humana”. Em Gaia Ciência, Nietzsche afirma: “Isso é um sonho, mas quero continuar sonhando!” Como destaca Aléxia, “a valorização da lógica do sonho como princípio de conduta é, apesar de tudo, um dos fatores que explicam a apropriação das idéias nietzschinianas pela propaganda nazista”. Embora haja uma influência de Nietzsche sobre Benjamin, principalmente nos primeiros escritos, há um afastamento do último Benjamin da perspectiva nietzschiana. Benjamin se opõe a “autonomia do mito em relação à história – ou ainda, nos termos do Passagen-
despertar. Aproximando-se do onírico ele também tenta pensar a “superação do sonho do mundo sobre si mesmo”. Em Benjamin, o sonho se abraça à razão e é imprescindível à “onirocrítica histórica” a que ele se lança (BRETAS, 2008, p. 34-35).
Em Passagens, Benjamin escreve sobre a modernidade como o tempo da “lógica onirocapitalista”, o “tempo do inferno”, do “sempre igual da mercadoria”, em que ocorre uma “reativação das forças míticas” (BENJAMIN, 2006, p. 152). Também nesse trabalho, Benjamin fala sobre a opção da modernidade por continuar sonhando, e não pela história: “O coletivo que sonha ignora a história. Para ele, os acontecimentos se desenrolam segundo o curso sempre idêntico e sempre novo” (BENJAMIN, 2006, p. 144).
É na história, na memória e na crítica que Benjamin se apóia para pensar saídas para o adormecimento moderno. Para ele, segundo acentua Aléxia Bretas, “a instância que salva e redime, para o teatro da sociedade profana, é a meditação sobre a própria natureza do espetáculo e da ilusão” (BENJAMIN, 2006, p. 60).
É a reflexão crítica, em seu movimento de lembrar-se do que foi rejeitado, que poderia, segundo Benjamin, tensionar o espaço do mito. Esse espaço seria o do simbólico, mas também o do alegórico. E essa é a forma como Benjamin tensiona sua inclinação alegorista (GAGNEBIN, 2007, p. 51).
Se é possível perceber, como Benjamin afirma, um gesto alegórico em Baudelaire, também se pode dizer que as ruínas e o fragmentário do modo barroco de produzir e perceber a realidade marcam profundamente a reflexão de Benjamin, em seu esforço por recolher o passado fraturado, fazendo-lhe justiça. E ressoam na própria maneira como Benjamin compõe os seus trabalhos. Ao invés da ênfase no discursivo – ato comunicativo estrito –, Benjamin se utiliza principalmente do imagético (SELIGMANN-SILVA, 1999, p. 225); ao invés da
Werk, a primazia do sonho sobre as ‘instâncias do despertar’”. Como Aléxia destaca: “O motivo da ruptura de Benjamin com o pensamento nietzschiano – tão bem recebido pela juventude pré-hitlerista – é essencialmente o mesmo que o afasta, tanto do idealismo alemão quanto do próprio Expressionismo: sua opção pelo mito, isto é, pelo adormecimento. Como mostram Nancy e Labarte, ‘a potência mítica é propriamente a do sonho’. Neste sentido, a antítese entre o sono e a vigília é análoga à contraposição benjaminiana entre o mito e a história” (BRETAS, 2008, p. 162-163).
universalidade na concepção de um texto, opta pelas montagens abertas, não-resolvidas e pela expansão do espaço do lúdico; ao invés da eternidade do simbólico, Benjamin acentua a historicidade da alegoria, visualizando, nessa forma de composição artística, um potencial político de descentramento.
Mas também seria preciso um contraponto à alegoria. É a atitude crítica, pela mortificação da obra, que abriria espaço para uma contraposição ao espaço barroco do alegórico, ainda dominado pela soberania.
Na teoria de arte de Benjamin, a crítica não busca mistificar uma obra, presentificá-la pelo enaltecendo do que ela teria de vivo, luminoso; mas sim, instaurar “o saber nas obras que estão mortas”. A forma de proceder dessa crítica de Benjamin seria o da “desmontagem de fragmentos e remontagem”, para formação de uma certa constelação de posições, de “elementos extremos” (MIQUELIN, 1995, p. 49-50).
Benjamin “busca uma reaproximação não-intencional dos objetos, pulverizados em seus minúsculos componentes”, para que, da imersão na historicidade das obras, no seu conteúdo material – o que ele nomeia de “teor coisal” – seja possível entrever o “teor de verdade” da obra (MIQUELIN, 1995, p. 43). E como lembra Jeanne Marie Gagnebin, em Benjamin, “é justamente aquilo que escapa a classificação que se torna indício de uma verdade possível” (GAGNEBIN, 2007, p. 13). O que restaria de uma análise, de um procedimento de fragmentação da coerência sistemática de uma obra, o que excedesse a obra, sem permitir o seu fechamento, seria, para Benjamin, o que ela teria de autenticidade.
A seguir, veremos como Benjamin percebe a crítica em relação à história.