CAPÍTULO 2 IMPACTO E INJUSTIÇA AMBIENTAL NA PRODUÇÃO DE HIS EM ÁREA DE
2.1 URBANIZAÇÃO E IMPACTOS AMBIENTAIS
2.2.1 A sustentabilidade como um discurso hegemônico
Intrínseca à questão ambiental é a discussão sobre os direitos das futuras gerações e, tal qual, encontra-se também em disputa de sentidos ideológicos. Assim, sobre a noção de sustentabilidade há diferentes discursos e estes estão, segundo Acselrad (2001a), em disputa pela expressão que se pretende mais legítima. Essa diversidade sugere que não se estabeleceu uma predominância entre os discursos.
Em oposição, Limonad (2013) afirma que a noção de sustentabilidade que surgiu das lutas e conflitos sociais emergentes em diversas partes do planeta no período após a Segunda Guerra Mundial (1939 - 1945) e tinha o objetivo de rediscutir a questão do desenvolvimento vigente, foi obliterada e a ideia prevalecente é a proveniente do Relatório de Brundtlandt (1987), conhecido também como Nosso Futuro Comum. Esse Relatório foi o resultado dos trabalhos da Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento da Organização das Nações Unidas (ONU), que compreende o desenvolvimento sustentável como “aquele que atende as necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem as suas próprias necessidades” (CMMAD, 1991, p. 46).
Muitos autores fazem críticas a esse conceito que, de acordo com Borja (2006, p. 125), se devem, principalmente, à “impossibilidade de compatibilizar o modelo de desenvolvimento
45 A expressão ecologia profunda foi criada na década de 1970 pelo filósofo norueguês Arne Naess, em oposição
ao que ele chama de "ecologia superficial" ou “ecologia rasa” – isto é, a visão convencional segundo a qual o meio ambiente deve ser preservado apenas por causa da sua importância para o ser humano. Em oposição, a ecologia profunda ou ecologia espiritual adota em suas bases a interdependência fundamental de todos os fenômenos: ela vê o universo não como uma coleção de objetos isolados, mas como uma rede de fenômenos que estão fundamentalmente interconectados e são interdependentes. Ela reconhece o valor intrínseco de todos os seres vivos e concebe os seres humanos apenas como um fio particular da teia da vida (CAPRA, 2001 e 2006 apud LOVATTO
et al., 2011).
46 Segundo Lowy (2017), “o ecossocialismo é uma alternativa radical ao capitalismo que resulta da convergência
entre a reflexão ecológica e a reflexão socialista (marxista). Sua premissa fundamental é que a preservação de um ambiente natural favorável à vida no planeta é incompatível com a lógica expansiva e destrutiva do sistema capitalista. Não se podem salvar os equilíbrios ecológicos fundamentais do planeta sem atacar o sistema, não se pode separar a luta pela defesa da natureza do combate pela transformação revolucionária da sociedade”.
pautado no crescimento econômico e a sustentabilidade”. Para Limonad (2013), essa noção de desenvolvimento sustentável esvaziou o sentido da questão ambiental e viabilizou a instrumentalização da ideia de sustentabilidade para a preservação ambiental, em consonância com os interesses hegemônicos.
Diante dessa gama de definições para o conceito, Costa (2000) analisa que estas se dividem em dois grupos a partir da aceitação ou não do projeto de modernidade (capitalista ocidental). Costa (2000) considera que, por um lado, há vários autores que, partindo dessa “versão oficial” do conceito, articulam os diversos agentes em conflito. Mas, ainda que em seus discursos haja uma preocupação com a redistribuição, as desigualdades e a identificação de novos caminhos, a partir da formulação de políticas e estratégias, “a análise (e as propostas) dificilmente resiste ao crivo de abordagens mais críticas do processo, que enfatizam a assimetria das relações de poder, ou a quase impossibilidade de uma solidariedade capitalista” (COSTA, 2000, p. 62). Todavia, a autora observa que “é a perseverança da utopia (ou de algumas utopias) que move tanto a ciência quanto a transformação social. O conceito de sustentabilidade urbana faz parte desse tipo de idealização” (COSTA, 2000, p. 62).
O outro grupo de definições se caracteriza, segundo Costa (2000), por rejeitar o desenvolvimento em sua versão hegemônica. Dentre elas,
[...] pode ser considerada particularmente interessante a cáustica crítica identificada como pós-estruturalista (ESCOBAR, 1996) que, além de desconstruir o desenvolvimento sustentável como discurso, busca compreender as novas formas de internalização da natureza pelo capital no momento atual (COSTA, 2000, p. 63).
Ao analisar o discurso pós-estruturalista, Costa (2000) comenta que para estes autores o conceito de sustentabilidade traz consigo uma proposta de reprodução e manutenção do capitalismo em nível global. Além disso, Acselrad (2001a) considera que a noção de sustentabilidade associada à ideia de que há um único modo sustentável de apropriação e de uso do meio ambiente ignora a existência de várias formas sociais de duração dos elementos da base material do desenvolvimento. Assim como acredita que é necessário questionar esta ideia de um único modo sustentável de uso e colocar o debate sobre a noção de sustentabilidade fora dos marcos deste determinismo ecológico.
Tão diversos quanto os conceitos de sustentabilidade são os projetos de cidade que nestes se pautam. Segundo Acselrad (2001a), a associação da noção de sustentabilidade ao debate sobre o desenvolvimento das cidades tem origem na busca pela legitimidade das perspectivas dos atores sociais envolvidos na produção do espaço urbano, que estavam em concordância com a Agenda 2147.
Para Acselrad (2001a), uma das noções de sustentabilidade urbana está associada às estratégias de implementação da metáfora da cidade-empresa, onde a “cidade sustentável” teria a função de atrair investimentos para se inserir no contexto da competição global. A cidade sustentável seria aquela que pode “promover a produtividade no uso dos recursos ambientais e fortalecer as vantagens competitivas” (DURAZO, 1997, p.51 apud ACSELRAD, 2001a, p. 37). Nesse sentido, Oliveira (2001) observa que, de acordo com o discurso das agências multilaterais, a sustentabilidade se impõe como condição para a competitividade urbana, logo, a inclusão desta noção na agenda urbana representa a inserção competitiva da cidade no mundo globalizado.
Limonad (2013) ressalta que a articulação de governos e instituições oficiais em diversas escalas para a promoção dessas cidades sustentáveis se tornou meio de cooptação político- ideológica e de apaziguamento de tensões sociais, pelo qual se abandonam projetos de modernidade passados. Em concordância, Oliveira (2001, p. 200) considera que, “o discurso hegemônico contribui para a promoção de consensos fictícios, fundados no ocultamento de conflitos e na despolitização das questões sociais”.
Assim, a inserção da sustentabilidade como condicionante da cidade competitiva, por meio de projetos e programas pautados na sustentabilidade proporcionam a concentração de poder nas mãos dos grandes investidores e empreendedores urbanos (OLIVEIRA, 2001). Mesmo com a supremacia do discurso hegemônico de sustentabilidade, não se pode desconsiderar a emergência desta noção no âmbito das lutas sociais por preservação e uso democrático do meio ambiente e contra a concentração de poder sobre os recursos naturais, bem como de que a construção do futuro desejável para as cidades também se encontra em disputa.
47 Documento que resultou da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, no
Rio de Janeiro, em 1992. Tem por objetivo instrumentalizar as gestões municipais para pôr em prática os preceitos globais do desenvolvimento sustentável.