CAPÍTULO 1 – URBANIZAÇÃO E PMCMV: A PRODUÇÃO DE HIS EM ÁREA DE PROTEÇÃO
1.2 MINHA CASA MINHA VIDA: RETROSPECTIVA AVALIATIVA DO PROGRAMA No lançamento do PMCMV, o Governo Federal prometeu a construção de um milhão de casas,
1.2.1 Os empreendimentos do PMCMV no contexto das cidades brasileiras
Os empreendimentos do Minha Casa Minha Vida, modalidade Empresas para a Faixa 1, objeto de análise deste trabalho, nas primeira e segunda fases do Programa, segundo os estudos de Ferreira (2012), Cardoso e Jeanisch (2014), Rede Cidade e Moradia (AMORE; SHIMBO; RUFINO, 2015)14, Baltrusis (2017) e Leiro (2017), encontram-se inseridos ou nas periferias
consolidadas ou em áreas não urbanizadas, com raras exceções.
Ferreira (2012) considera que a péssima inserção urbana dos empreendimentos é consequência da falta de efetivação dos instrumentos do Estatuto da Cidade, que promoveriam a democratização do acesso à terra urbana, por parte das gestões municipais, e do próprio processo de valorização fundiária que o Programa promove. O autor acredita que as políticas habitacionais brasileiras tendem a certa ineficiência enquanto a questão da terra não for enfrentada.
Para Pequeno e Rosa (2015), a dissociação entre as políticas urbana e habitacional, assim como a inobservância da legislação urbanística para a definição das áreas dos empreendimentos do Minha Casa Minha Vida, tornam a expansão do Programa alarmante. Ainda ressaltam que “na
14 A Rede Cidade e Moradia analisa a produção do PMCMV em seis estados brasileiros: Pará, Ceará, Rio Grande
ausência de articulação entre os planos diretores municipais, antevê-se o surgimento de problemas na implantação de conjuntos periféricos situados em áreas limítrofes, a ressaltar a necessidade de planos de expansão urbana e habitacional metropolitano” (PEQUENO; ROSA, 2015, p. 145).
Cardoso e Jeanisch (2014) declaram que tal fato evidencia uma persistência de hierarquização do espaço urbano e de diferenciação da acessibilidade daquilo que a cidade pode oferecer, além de problematizar questões sobre a mobilidade urbana, acesso adequado aos serviços públicos e provisão das redes de infraestrutura urbana. Ainda nesse sentido, Rolnik et al. (2015) ressaltam que o PMCMV parece promover uma contradição fundamental ao ampliar o acesso de alguns beneficiários aos elementos que compõem o direito à moradia adequada, como o esgotamento sanitário e o abastecimento de água, ao mesmo tempo em que reduz o atendimento a outros desses elementos, como o acesso a comércios, equipamentos e serviços sociais. Nesse sentido, os autores referem-se aos casos em que os beneficiários do Programa ou moravam em assentamentos extremamente precários ou foram removidos de áreas centrais das cidades, por exemplo.
Rufino (2015) apresenta algumas reflexões sobre a implementação dos empreendimentos do PMCMV oriundas das pesquisas da Rede Cidade e Moradia em alguns estados brasileiros. A partir das constatações empíricas da ampliação dos processos de segregação definiu-se que existem dois padrões para inserção na cidade dos conjuntos habitacionais: em periferias consolidadas e em áreas não urbanizadas.
De acordo com essa autora, a inserção nas periferias consolidadas se dá ou por meio da produção dos empreendimentos em espaços residuais, em muitos casos, em áreas próximas aos grandes conjuntos habitacionais produzidos no período do BNH, ou pela ocupação de grandes glebas vazias contíguas aos tecidos urbanos existentes. Com efeito, a implantação de empreendimentos do Programa em espaços residuais acaba por impor maior fragmentação territorial pela disseminação do modelo de grandes condomínios murados, além de reforçar a tendência à monofuncionalidade das periferias, que, a despeito de serem territórios muito mais dinâmicos e mais bem equipados atualmente, continuam a carecer de atividades econômicas e, principalmente, de empregos, e permanecem sendo caracterizadas pelo predomínio do uso habitacional. Segundo Rufino (2015), esse processo foi evidente, sobretudo, nos municípios polos das regiões metropolitanas e naquelas com maior grau de conurbação. Por sua vez, as
circunstâncias das áreas contíguas aos tecidos urbanos existentes, onde os empreendimentos foram implantados, são caracterizadas como mais precárias devido à complexidade das condições topográficas e ambientais. Rufino (2015) declara terem sido identificados empreendimentos em área de inundação, próximo a Áreas de Preservação Permanente (APP), em áreas de alta declividade e em topo de morro. Desse modo, a autora conclui que a implementação dos conjuntos nas periferias consolidadas resulta na ampliação das “precariedades de áreas já caracterizadas pela falta de uma malha viária bem estruturada, pavimentada e com boas condições de circulação” (RUFINO, 2015, p. 66).
Sobre os empreendimentos em áreas não urbanizadas, Rufino (2015) afirma que o Programa induz a emergência de novas fronteiras periféricas em franjas periurbanas descontínuas, que, muitas vezes, estão fora do perímetro urbano existente. Nessas áreas foram produzidos empreendimentos de grande porte e com a pior inserção urbana. Ainda, conforme a autora, esse processo foi particularmente evidente nos municípios mais periféricos das regiões metropolitanas analisadas. Esses, com menor nível de integração metropolitana.
A autora ainda apresenta outras questões que foram identificadas:
Nesse padrão de inserção, os empreendimentos do PMCMV também passam a ter papel de expansão das periferias em territórios muitas vezes marcados por fragilidades ambientais e próximo a setores com maior vulnerabilidade social, com as clássicas operações de produção de vazios de valorização imobiliária. Muitos desses empreendimentos são acessados por via (ou rodovia) única. A implantação em áreas com infraestrutura precária vem impondo, em várias situações, a adoção de pontos de captação de água e tratamento por meio da construção de estações de esgotos compactas, as quais vêm apresentando problemas na sua execução e manutenção (RUFINO, 2015, p. 67).
Além disso, Rufino (2015) afirma que a condição dos empreendimentos, em termos de monofuncionalidade e segregação, nas áreas não urbanizadas são mais críticas devido, tanto ao impedimento de usos comerciais e serviços locais, quanto pela implantação de grandes quadras fechadas com pouca articulação com o entorno. Como resultado, identificou-se, em muitos casos, o aparecimento de um setor terciário informal no entorno dos empreendimentos ou improvisados nas próprias unidades habitacionais. Esses comércios e serviços são, por um lado, um modo de oferecer produtos básicos aos moradores, e por outro, uma alternativa de geração de renda e sobrevivência sob um grau de absoluta precariedade. Nesse sentido, vê-se, mais uma vez, o PMCMV promover contradições, ao avançar na consolidação da moradia, impulsiona novas formas de informalidade e desigualdades. Haja vista que a implantação de pequenos
comércios, em geral, contraria as próprias regras do Programa e da ocupação das unidades (RUFINO, 2015).
Rufino (2015, p. 68), por fim, declara que as avaliações realizadas pela Rede Cidade e Moradia compreendem que a inserção urbana dos empreendimentos do Programa, obedecendo a esses dois padrões, “tende a impor um distanciamento cada vez maior da chamada cidade completa, plenamente dotada de infraestrutura, de equipamentos urbanos, de comércio e serviços diversificados e, fundamentalmente, de oferta de emprego”. Além de, como destaca Rolnik (2014), evidenciar a reafirmação do padrão de localização de habitação de interesse social que já se reproduz nas cidades brasileiras há muitas décadas, no qual os pobres urbanos são relegados às periferias longínquas e subequipadas.
1.3 SALVADOR, POLÍTICA HABITACIONAL E PROGRAMA MINHA CASA MINHA