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A TAR e o “social” estabilizado na “sociedade”

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2. A TEORIA ATOR-REDE

2.2. A TAR e o “social” estabilizado na “sociedade”

Para a Teoria Ator-Rede, o “social”, a priori, não existe, pois ele só pode ser observado como resultado das ações das redes constituídas por humanos e não humano. São elas que constituem o “social”, o que implica em desconsiderar a compreensão de “social” como faz a sociologia tradicional, primeiramente, como algo estável, plenamente constituído; e, depois, como algo puramente humano, uma matéria que não inclui o não humano (natureza e tecnologias) (LATOUR, 2012; 2013).

Os autores da TAR propõem rever o que se entende por “social”, pois, ao estudar os fenômenos, os cientistas sociais deslocam-se por diversas situações, nas quais devem utilizar o “social”, como faz a sociologia tradicional, ou sociologia do social (LATOUR, 2012) que o apresenta como algo estável, uma “estrutura social”, um “organismo social” ou um “sistema social”, que remete a algo definido a priori, uma substância ou um adjetivo que, aplicado em um “fenômeno qualquer”, explica tudo. Os cientistas sociais aludiriam “a um conjunto de associações que, mais tarde, podem ser mobilizadas para explicar outro fenômeno”.

Por exemplo, quando se trata de família, igreja, escola, pressupõe-se que sua definição é aplicada de forma precisa, pois não seriam conceitos fechados. Ou quando,

os sociólogos do social pronunciam as palavras “sociedade”, “poder”, “estrutura”, e “contexto”, dão em geral um salto adiante para conectar um vasto conjunto de vida e história, mobilizar forças gigantescas, detectar padrões dramáticos a partir de interações confusas, ver por toda parte, nos casos à mão, ainda mais exemplos de tipos bem conhecidos e revelar, nos bastidores, algumas forças ocultas que manipulam os cordéis. (LATOUR, 2012, p. 43)

Latour (2012, p. 26-27) é categórico quando afirma que a sociologia tradicional confundiu “aquilo que deviam explicar com a explicação. Começaram pela sociedade ou outro agregado social qualquer, quando deviam acabar por eles”. A sociologia tradicional funciona bem, quando se trata daquilo que já foi agregado (LATOUR, 2012, p. 31), entretanto, há condição para o emprego do social, “não há nada de errado com esse emprego da palavra [social] se ela designa aquilo que já está agregado, sem acarretar nenhuma declaração supérflua sobre a natureza do que se agregou” (LATOUR, 2012, p. 31):

Seria tolo e pedante evitar o uso de noções como “IBM”, “França”, “cultura maori”, “mobilidade ascendente”, “totalitarismo”, “classe média baixa”, “contexto político”, “capital social”, “enxugamento”, “construção social”, “agente individual”, “motivações inconscientes”, “pressão do grupo” etc. (LATOUR, 2012, p. 31).

Para admitir a existência do social na “IBM”, na “França” ou da “construção social” é preciso identificar os actantes em ação por meios dos rastros associativos. Latour, Mackenzie, Callon e Hughes (LATOUR, 2012) ao recontarem os feitos de Pasteur, quando atenuou a bactéria do antraz, o desenvolvimento do giroscópio dos mísseis intercontinentais, do filamento da lâmpada incandescente de Thomas Edison e o desenvolvimento do eletrodo das pilhas de combustível, tratavam do social, conforme compreendido pela TAR – ou seja, os atores (actantes) em redes sociotécnicas temporárias heterogêneas (humanos e não humanos) em simetria plana - e não das ciências e tecnologias em ontologias separadas:

Não que estejam errados: com efeito, antigas relações sociais foram apresentadas de modo a parecer que fornecem uma explicação pronta para muitos assuntos intrigantes. Mas já é tempo de olhar com mais cuidado o tipo de agregados até agora reunidos e os modos como eles se conectam uns aos outros (LATOUR, 2012, p. 43)

A sociologia constituída a partir de Durkheim20, e cuja disputa com Gabriel Tarde registrou a divisão do pensamento social daquele período quando ocorreu o surgimento da sociologia como uma disciplina marcadamente moderna. Segundo Latour (2012, p. 3-4), Tarde sempre criticou Durkheim por ter confundido causa e efeito, o que acarretou na compreensão de que o vínculo social era um projeto político voltado a uma engenharia social baseada nos valores da modernidade. No embate, Tarde sustentou que o social não era um domínio especial da realidade, e sim um princípio de conexões, portanto, não havia motivo para separar o “social” das outras associações seja com os “organismos biológicos ou mesmo com os átomos”.

A ruptura de Durkheim afastou a sociologia da filosofia, “sobretudo a metafísica”, situação desnecessária “para uma disciplina se tornar ciência social”, pois para Tarde, a sociologia “não passava de uma espécie de interpsicologia”. Consequentemente,

o estudo da inovação, especialmente ciência e tecnologia, constituía a área de expansão da teoria social; e que a economia precisava ser refeita de ponta a ponta, em vez de ser usada como metáfora vaga para descrever o cálculo dos juros. Acima de

20 Gabriel Tarde e Émile Durkheim foram contemporâneos e rivais no embate sobre as ciências sociais, sendo que

o segundo foi reconhecido como pai da sociologia moderna, em oposição à Tarde que de certa forma, ficou esquecido pela sociologia tradicional, mas voltou a ganhar relevância para se compreender a contemporaneidade. Latour (2012) desenvolve a questão do embate entre suas sociologias.

tudo, ele considerava o social como um fluido circulante que devia ser seguido pelos novos métodos, e não um tipo específico de organismo (LATOUR, 2012, p. 34).

Resgatando Gabriel Tarde, Latour (2012, p. 18) propõe “redefinir a noção de social remontando a seu significado primitivo e capacitando-o a rastrear conexões novamente” com o intuito de “retomar o objetivo tradicional das ciências sociais, mas com instrumentos mais bem ajustados à tarefa”.

Latour (2012, p. 24) procura resgatar a raiz da palavra para recuperar seu sentido, pois “a etimologia da palavra ‘social’ em si é bastante instrutiva”. Social origina-se na raiz seq-,

sequi, e a primeira acepção é “seguir”’. “No latim socius denota um companheiro, um

associado. Nas diferentes línguas, a genealogia histórica da palavra “social” designa primeiro ‘seguir alguém’”, posteriormente, o sentido mudou para “‘alistar’ e ‘aliar-se a’, para finalmente exprimir ‘alguma coisa em comum’”. Mas é na modernidade que o sentido usual de hoje, do “social”, aparece, como um contrato social, uma invenção de Rousseau. Daí, a palavra passa a corresponder a um “tipo de material”, como em “problemas sociais” ou “questão social”; portanto, “social”, assim como “sociedade”, utilizado corriqueiramente, “é uma inovação do século 19” (LATOUR, 2012, p. 24). Portanto, para a TAR o social é o movimento de agregação; pois o social é o que precisa ser explicado e não o que é utilizado para explicar:

Começando por uma definição coextensiva a todas as associações, temos hoje, no linguajar comum, um uso limitado ao que restou depois que a política, biologia, economia, direito, psicologia, administração, tecnologia etc. tomaram posse de suas respectivas partes das associações (LATOUR, 2012, p. 24).

Os pesquisadores da TAR, ao questionarem conceitos estabelecidos para sociologia tradicional, reabriram a caixa-preta das ciências sociais para demonstrar os atores envolvidos. Para Latour (2012, p. 31), “o problema é reunir novamente os participantes naquilo que não é – ainda – um tipo de esfera social”; portanto, surge a necessidade de se procurar novas explicações, a fim de compreender as inovações sociotécnicas as quais proliferam na contemporaneidade e evidenciam que

as fronteiras de grupos são incertas, em que o leque de entidades a considerar flutua, a sociologia do social não consegue mais encontrar novas associações de atores. Nessa altura, a última coisa a fazer seria limitar de antemão a forma, o tamanho, a heterogeneidade e a combinação de associações (LATOUR, 2012, p. 31).

Assim, a palavra “social” congela a condição de movimento e esconde a associação existente que permite compreender a ação dos componentes das redes, portanto, esconde a

dinâmica e compromete a identificação da formação das associações que implica a compreensão do próprio social. Para a TAR, a sociologia não deveria ser a ciência do “social”, mas uma ciência das associações, “um tipo de conexão entre coisas que não são, em si mesmas, sociais” (LATOUR, 2012, p. 23):

A escolha é clara: ou seguimos os teóricos sociais e iniciamos a jornada determinando de início que tipo de grupo e nível de análise iremos enfatizar, ou adotamos os procedimentos dos atores e saímos pelo mundo rastreando as pistas deixadas pelas atividades deles na formação e desmantelamento de grupos (LATOUR, 2012, p. 51).

Para a sociologia tradicional, há pouca relevância para os objetos técnicos na construção do “social”, ou mesmo, quando relevantes, por pertencerem a ontologias diferentes, invertem a lógica, colocando a técnica acima do humano, produzindo, portanto, o determinismo tecnológico. O que aproxima as duas abordagens é quando se considera a etimologia da palavra “social”, se a expressão significar para a sociologia do social “uma coisa homogênea”, “lícito designar com o mesmo vocábulo uma série de associações entre elementos heterogêneos”, como faz a sociologia de associações (LATOUR, 2012, p.23).

O que a TAR propõe é compreender o social, o coletivo, as culturas e as sociedades sem a separação entre humanos e não-humanos. A TAR não considera que as inovações científicas e tecnológicas são de ordem científica ou técnica, mas que são inovações sociotécnicas integradas e inseparáveis do “social” sem hierarquização ou subordinação. Portanto, as inovações devem ser pensadas como redes sociotécnicas, formadas por actantes, ou associações de atores humanos e atores não-humanos temporárias em simetria plana, sem hierarquia a priori e sem subordinação para a construção deste social, provisório, antes de se fecharem em caixas- pretas e promoverem a dissipação dos atores das redes em novos empreendimentos.

Para a TAR, o coletivo substitui o termo sociedade, pois o coletivo arregimenta diversos tipos de forças unidas por serem diferentes (LATOUR, 2012, p. 112). O problema é a expressão “sociedade” que, para Latour (2012, p.18) é uma invenção da sociologia tradicional, na época em que a modernização corria solta, e a ciência era uma necessidade absoluta a fim de promover o progresso, “eles não imaginavam que sua amplitude poderia torná-la praticamente uma extensão do resto das relações sociais”. Isto reforça a ideia de que “já não se sabe ao certo se existem relações específicas o bastante para serem chamadas de ‘sociais’ e agrupadas num domínio especial capaz de funcionar como uma ‘sociedade’” (LATOUR, 2012, p.19).

O que Latour (2012, p. 112) propõe é priorizar a palavra “coletivo” em detrimento de “sociedade”, pois “coletivo” é constituído pela ação “que arregimenta diversos tipos de forças unidas por serem diferentes”. Ao contrário de “sociedade” que visa uma “ação de forças sociais homogêneas”, como propõe a “constituição moderna” (LATOUR, 2013). A heterogeneidade dos coletivos é o que interessa, e, consequentemente, da sociedade, se esta não for constituída pela padronização da pretensa modernidade, pois esta não concretizou suas promessas de liberdade, igualdade e democracia (LATOUR, 2013; LYOTARD; 2002; TOURAINE, 2009).

O coletivo, portanto, designará o projeto de juntar novas entidades ainda não reunidas e, por esse motivo, obviamente, não serão feitas de material social (LATOUR, 2012, p. 71, p. 98). Já o termo sociedade será empregado somente quando se referir ao conjunto de entidades quem foram feitas, segundo os sociólogos do social, de material social.

O “social” deixa de ser compreendido como resultado da ação homogeneizante puramente humana, como ocorre nos organismos sociais constituídos a priori, e passa a ser tecido enquanto as ações coletivas do agenciamento das redes sociotécnicas ocorrem.

O “social” não é uma propriedade segura e simples. Para ser compreendido, é preciso admiti-lo como resultado dos movimentos, pois o “social” não deve ser entendido pelos vínculos sociais, mas pelas associações que são feitas de vínculos não sociais por natureza, novas associações heterogêneas temporárias em movimento, e em constante formação e desmobilização que só podem ser percebidas pelos rastros “quando uma nova associação se constitui com elementos de modo algum “sociais” por natureza” (LATOUR, 2012, p. 27).

A TAR deve ser compreendida como uma “sociologia de associações” (LATOUR, 2012, p. 31), pois pressupõe que os atores devem deixar de ser informantes comportados, “tipos bem conhecidos”, e retomem “a capacidade de elaborar suas próprias teorias sobre a constituição do social”. A tarefa “não consiste mais em impor a ordem”, nem “em limitar o número de entidades aceitáveis”, mas “em revelar aos atores o que eles são ou em acrescentar alguma lucidez à sua prática cega”. É preciso seguir os atores, identificar seus rastros por meio da formação de grupos e de suas controvérsias. A sociologia das associações, se propõe retomar a tarefa de conexão e agregação abruptamente interrompida pela sociologia do social. O que a TAR propõe, portanto, é a elaboração de uma ontologia que compreenda os humanos e os não humanos, pois “assim funciona a ciência. Assim funciona o ‘social’” (LEMOS, 2013, p. 35).

Na sociologia das associações, os grupos não estão definidos a priori, em oposição à sociologia do social, eles são constituídos conforme as associações são formadas. Aqui

“aprendemos a vislumbrar conexões sociais graças aos traços inesperados que as controvérsias em torno de formação de grupos nos deixaram. (LATOUR, 2012, p. 72).

Ao tratar da incerteza da “natureza dos grupos”, o autor afirma que há várias formas contraditórias de se atribuir identidade aos autores (LATOUR, 2012, p. 42), pois “não há grupos, apenas formação de grupos” (LATOUR, 2012, p. 49). Ao criticar a sociologia do social, constata que “não há grupo relevante ao qual possa ser atribuído o poder de compor agregados sociais, e não há componente estabelecido a ser utilizado como ponto de partida incontroverso” (LATOUR, 2012, p. 51-52).

O processo de formação de grupos evidencia que, para cada grupo ser constituído, “aparece logo uma lista de antigrupos. [...] O delineamento de grupos é não apenas uma das preocupações dos cientistas sociais, mas também a tarefa constante dos próprios atores” (LATOUR, 2012, p. 56). A questão dos grupos envolve a compreensão de que os atores podem ser enquadrados em um ou mais grupos, ou seja, "existem inúmeras formações de grupo e alistamentos em grupos contraditórios (LATOUR, 2012, p. 51).

Para a TAR (LATOUR, 2012, p. 99), a ênfase do “social” está em não ser como algo limitado aos “vínculos sociais”, mas ser como “associações”, para ficar mais perto da etimologia original.

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