• Nenhum resultado encontrado

A rede na teoria dos sistemas e nos sistemas complexos

No documento Download/Open (páginas 41-43)

1 AS NOÇÕES DE REDE: DA RIGIDEZ DO OBJETO-REDE PARA A FLEXIBILIDADE DAS REDES HETEROGÊNEAS

1.6. A rede na teoria dos sistemas e nos sistemas complexos

A abordagem sistêmica surgiu no início do século 20, no campo da biologia com Ludwig von Bertalanffy, ampliou-se e consolidou-se a partir da cibernética com Norbert Wiener e com a teoria da informação com Claude Shannon e Warren Weaver, em 1949 (BERTALANFFY, 2009). A teoria propõe que o mundo seja compreendido pelos sistemas abertos que propiciam a interação, ou a inter-relação com seu o exterior, seria uma “totalidade de partes diferenciadas que forma um todo organizado” (SANTAELLA; LEMOS, 2010, p. 18), e que ao interagirem, podem adquirir novas propriedades e se transformarem.

Para compreender sua dinâmica não devem ser estudados por apenas uma de suas partes, pois, “as propriedades sistêmicas desaparecem quando um sistema é dissecado – física e teoricamente – em elementos separados”. (SANTAELLA; LEMOS, 2010, p. 18). Os sistemas se caracterizam por estarem sempre inseridos em ambientes e em interação com outros sistemas.

Os sistemas se caracterizam pela dinâmica dos inputs, througputs e outputs (entrada, processamento e saída), sendo que os inputs e outputs são os canais de comunicação (SANTAELLA; LEMOS, 2010; KUNSCH, 2003; YANAZE, 2011).

Santaella e Lemos (2010, p. 19) apresentam questões importantes que constituem a teoria dos sistemas: a) o todo tem características próprias e é superior à soma das partes; b. as partes integrantes de um sistema são interdependentes; c) sistemas e subsistemas relacionam-se e estão integrados numa cadeia; d) os sistemas exercem autorregulação e controle, tendo em vista a manutenção do seu equilíbrio; e) por meio dos inputs e outputs de energia e informação os sistemas influenciam o meio exterior, e vice-versa; f) a autorregulação dos sistemas implica a capacidade de se transformar como forma de adaptação às alterações do meio exterior; g) os sistemas têm capacidade de atingir seus fins por vários modos diferentes.

Na Teoria Geral dos Sistemas (BERTALANFFY, 2009, p. 43), portanto, as redes constituem-se nas conexões que existem entre os elementos internos dos sistemas, mas também se interligam com elementos de outros sistemas diante da condição de serem sistemas abertos.

Na cibernética e na teoria da informação a ideia de sistema pressupõe busca pela fluidez, homogeneização e controle, reforçam alguns conceitos do positivismo, em especial, para o

paradigma funcionalista, que define as sociedades como organismos vivos. Entretanto, para que se concretizem como tal, suas funções envolvem a busca pela estabilidade, mas as dinâmicas das redes demonstram sua complexidade ao não garantirem a pretensa homogeneidade.

As redes digitais, por exemplo, ao aderirem aos territórios, não fazem de forma homogênea, elas são adotadas e utilizadas de maneiras diferentes pelas pessoas (SANTOS, 2009, p. 274). Sua fluidez é relativa, pois pressupõe uma visão de sociedade idealizada e homogeneizada, como propôs Saint-Simon e os positivistas. Ou seja, ao se comparar um espaço em relação a outro, sempre será possível observar situações de defasagem sociotécnica e, portanto, é preciso que se compreenda que “a aceitação de novas técnicas sempre foi relativa e sempre incompleta” (SANTOS, 2009, p. 43):

Não existe homogeneidade do espaço, muito menos da sociedade, essa é uma realidade empírica, assim quando se fala em “distribuição homogênea” e de “serviços ubiquitários, instantâneos e simultâneos”, a referência é, sobretudo, às redes e serviços existentes, mas não, propriamente, ao território ou seus subespaços tomados como um todo (SANTOS, 2009, p. 268).

São os conceitos de verticalidades e horizontalidades (SANTOS, 2008) que ajudam a compreender como determinada técnica se insere na vida das pessoas de maneira geral. As verticalidades são definidas pelo “conjunto de pontos formando espaço de fluxos que permite a inserção dos objetos técnicos”. São os espaços de fluxos, os nós da rede e os fluxos seriam as conexões. Estas conexões são, sobretudo, adequadas “às tarefas produtivas hegemônicas, características das atividades econômicas que comandam este período histórico”. Os espaços de fluxos são constituídos pelas redes necessárias para a fluidez “são os atores dos tempos rápidos, que plenamente participam do processo, enquanto os demais raramente tiram todo proveito da fluidez” (SANTOS, 2008, p. 106). Daí a desigualdade implícita da rede.

As verticalidades são os “vetores de uma racionalidade superior e do discurso pragmático dos setores hegemônicos, criando um cotidiano obediente e disciplinado” (SANTOS, 2008, p. 286). No qual se impõem, “pela transferência de elementos culturais de uma camada da sociedade a uma outra” (SANTOS, 2008, p. 282).

Segundo Santos (2008) as horizontalidades são os espaços comuns, banais, envolvem as relações que se dão no cotidiano, “de lugar a lugar, de homem a homem, de grupo a grupo, no ‘espaço social’, utilizando os mesmos condutos que a circulação vertical” (SANTOS, 2008, p. 282) e abrangem, em geral, os integrantes das mesmas camadas sociais, mas sofrem as influências das ações verticais, “as horizontalidades são tanto o lugar da finalidade imposta de

fora, de longe e de cima, quanto da contra finalidade, localmente gerada” (SANTOS, 2008, p. 282). Isto demonstra que a fluidez implícita na rede é sempre relativa, devido às “rugosidades” promovidas de diversas maneiras e por diferentes níveis de adoção de determinada técnica. São as “rugosidades” que evidenciam as desigualdades e a constatação da heterogeneidade da rede: “devemos, assim, distinguir entre a produção de uma expectativa de fluidez, isto é, a criação das condições para sua existência e o uso da fluidez por um agente, isto é, sua efetivação empírica” (SANTOS, 2008 p. 277).

Para Capra (2008, p. 18), “onde quer que haja vida, vemos redes” embora na perspectiva sistêmica, conforme ressalta o autor, o foco não seja nas estruturas materiais das redes (redes físicas), mas nas redes funcionais, isto é, nas redes de relacionamento entre os vários processos que compõem a vida como, por exemplo, nas reações químicas entre as moléculas ou na cadeia alimentar, de organismo comendo uns aos outros, portanto, “a rede é um padrão não-material das relações”.

Santaella e Lemos (2010, p. 21), registram os desdobramentos da teoria dos sistemas resultando em um dos caminhos trilhado no surgimento da ciência da complexidade, na qual a auto-organização, a emergência e a heterogeneidade são alguns de seus parâmetros, que portanto, possuem algumas característica: a) ausência de controle centralizado imposto; b) natureza autônoma das subunidades; c) alta conectividade entre as subunidades; e d) causalidade em rede não linear de iguais que exercem influência sobre iguais.

A teoria dos sistemas voltará a ser abordada no capítulo 5, no qual veremos a questão da comunicação organizacional integrada.

No documento Download/Open (páginas 41-43)