• Nenhum resultado encontrado

As redes digitais: a internet e a World Wide Web

No documento Download/Open (páginas 35-38)

1 AS NOÇÕES DE REDE: DA RIGIDEZ DO OBJETO-REDE PARA A FLEXIBILIDADE DAS REDES HETEROGÊNEAS

1.4. As redes digitais: a internet e a World Wide Web

A noção de rede a partir da matemática, por meio da Teoria dos Grafos e da Análise de Redes Complexas, teve enorme importância para a criação da internet. Paul Baran propôs o modelo de rede distribuída para a agência dos Estados Unidos, que estava desenvolvendo a nova estrutura de comunicação, durante a década de 1960 (BARABÁSI, 2009; RECUERO, 2009). A proposta de Baran foi a solução de um modelo que propiciava a troca de informações entre computadores distantes por meio de uma topologia de rede distribuída, ao contrário dos modelos tradicionalmente utilizados. Como por exemplo, na comunicação de massa, permitiria a troca de informações entre quaisquer pontos da rede, conforme demonstra a figura 3.

Figura 3: Modelos de rede de Paul Baran.

Retirado de https://entrenostodos.wordpress.com/2016/09/21/centralizacao-descentralizacao-e-distribuicao/ em 12/02/2019.

A versão mais conhecida da história remete a um projeto que tinha como objetivo criar um sistema de comunicação que sobrevivesse a um ataque de uma bomba de hidrogênio, testada em 1955 pela União Soviética, e que afligiu de maneira especial a defesa dos Estados Unidos, forçando-a a buscar uma solução em caso de um ataque em um dos polos de emissão. A solução proposta por Baran foi a adoção de um modelo de rede distribuída similar a uma rede de pesca a qual, formada por nós e conexões em igualdade de condições de comunicação possibilitava, em caso de ataque, que os demais continuariam ativos (BARABÁSI, 2009; ISAACSON, 2014). Entretanto, como sua solução não foi aceita nem pelos militares nem pela empresa que dominava a telefonia dos Estados Unidos na época, a AT&T, o reconhecimento do seu trabalho ocorreu apenas posteriormente. Os militares tinham desconfiança no modelo de comutação de pacotes. A AT&T não queria arcar com o custo de transformar toda a sua infraestrutura analógica em digital. Assim, somente 10 anos depois a proposta de Baran foi adotada.

A internet tornou-se popular e acessível devido à criação da Word Wide Web (a www, ou web - teia de alcance mundial). Criada no CERN (Centro Europeu de Pesquisa Nuclear) por um grupo de cientistas liderado pelo engenheiro britânico Tim Berners-Lee, a web é uma série de recursos (protocolos, linguagens, padrões) que facilitaram o acesso dos usuários leigos à internet. Seu mérito está em descomplicar a internet, até então utilizada por profissionais da área de tecnologia, por militares e cientistas, ou por esforços dos interessados, e que, devido à complexidade e ao alto custo da computação incipiente, afastava as pessoas comuns.

A web ajudou a superar essas barreiras ao criar condições para o surgimento, por exemplo, do navegador web, que permitiu o uso da interface gráfica por meio de páginas web (HTML), de forma a tirar proveito da internet de modo mais interessante. O que importa aqui,

é a ênfase à popularização do conceito de rede, que, apesar da infraestrutura tecnológica possibilitada pela internet ao conectar computadores, a sua relevância surgiu em decorrência da web, que contribui para a noção que a rede proporcionava com o acesso, a produção e a publicação de conteúdo como uma comunicação multidirecional, de todos para todos, presentes nos conceitos de redes e mídias sociais, contrapondo-se aos modelos da comunicação de massa. Importante notar ser a questão, de fato, o que torna a metáfora da rede tão importante para as culturas contemporâneas. Lemos (2013, p.14) ao abordar a questão da cibercultura15, explica que a internet apresentou “uma nova configuração comunicacional” com a “inédita liberação do polo de emissão”, surgiram os “chats, fóruns, e-mail, listas, blogs, páginas pessoais [...] depois de séculos dominado pelo exercido controle sobre a emissão pelos mass media”, as teorias e os estudos das redes sociais que surgiram e se consolidaram com Euler no século 18, evoluíram no século 20, e tornaram-se teorias importantes para se compreender o social no século 21.

Assim, os computadores, os satélites, os mecanismos de conexão, a velocidade das bandas de internet, as tecnologias móveis, os softwares e os algoritmos ficaram cada vez mais complexos e mais inteligentes, bem como a proliferação das mídias sociais com seus princípios de colaboração, participação e de compartilhamento. Enfim, as questões humanas e as questões não humanas compõem uma percepção sobre a inserção das redes na contemporaneidade.

A quase onipresença das tecnologias instituídas por meio das redes garantiram a base tecnológica que compõe as sociedades capitalistas do século 21. Castells (2009) constatou, no final do século 20, a relevância das tecnologias de informação e comunicação para a transformação do capitalismo, na sua participação não apenas para a produção de materiais e de bens de consumo, mas como imprescindível para a produção e circulação da informação. Estas questões implicaram o que o sociólogo espanhol chamou de sociedade em rede, na qual a questão não está apenas em perceber a rede como uma forma de organização social, pois se tornaram “um traço-chave da morfologia social que, no mundo dos negócios, passou das burocracias verticais às corporações horizontais” (SANTAELLA; LEMOS, 2010, p. 16).

A sociedade em rede condiciona a uma nova forma de se fazer comunicação, que incorpora os atributos do digital e da rede, conforme será abordado no capítulo 4. Numa

15 O conceito de cibercultura foi desenvolvido por Pierre Lévy, na década de 1990, e significa uma cultura

influenciada pela cibernética, conceito desenvolvido por Norbert Wiener na década de 1950 nos Estados Unidos. Para Lemos (2002), seria a cultura contemporânea associada às tecnologias digitais (ciberespaço, simulação, tempo real, processos de virtualização etc.)

perspectiva puramente tecnológica, pode-se afirmar que foram as redes que possibilitaram a mudança no sentido da comunicação de unidirecional para multidirecional, de centralizada para descentralizada, e vertical para horizontal.

No documento Download/Open (páginas 35-38)