CAPÍTULO 1 – O QUE É TECNOLOGIA
4. A tecnologia com estrutura
Os avanços que o homem tem experimentado atualmente são inegavelmente vertiginosos. Os avanços científicos, combinados com o que a tecnologia tem disponibilizado ao homem, têm nos direcionado para uma situação cada vez mais inédita na história humana. Se há pouco mais de 50, 60 anos estávamos questionando como fazer máquinas mais humanas e como o homem poderia se juntar à máquina, nos dias atuais, isso tem se tornado mais uma realidade, do que questionamento. A mecânica mudou a sociedade a seu tempo, mas a eletrônica, em seguida, o fez de forma mais profunda e veloz. E o mesmo se dá agora, porque se as máquinas aumentaram nossas capacidades de deslocamento, velocidade e força, hoje, estamos usando a tecnologia para refazermos nossa composição estrutural com manipulação genética, avançando em questões de inteligência artificial e robotização de tarefas cotidianas e, até mesmo, modificando nossa estrutura para combater doenças. Arthur observa que, na medida que aprendemos a usar essas tecnologias, nós caminhamos para modificar nossa própria natureza (ARTHUR, 2009, p.11-12).
Tanto a primeira como a segunda camada de análise apresentada nesta reflexão, sozinhas não respondem às indagações iniciais da indagação do trabalho, mas nos ilumina em determinados aspectos, evitando que cometamos erros desnecessários. E apesar de abrangente e profundo, tais análises ainda não são suficientes e estão limitadas a uma observação não tangível da tecnologia (como somos acostumados a perceber) e as relações da mesma com a comunicação, além claro, das questões de falibilidade humana.
Ao olhar a Tecnologia de forma estruturada, partimos da premissa de que, ela é a parte executável de um planejamento anterior do homem, para cumprir um propósito, mas que se apresenta igualmente de forma estruturada. Arthur usa três definições de Tecnologia:
A primeira e mais básica definição é a de que a tecnologia é um meio de atingir um propósito humano. [...] A segunda definição é plural: a tecnologia como resultado de uma montagem de práticas e de componentes. [...] E vou usar uma terceira definição, da tecnologia como uma coleção completa de
dispositivos e práticas de engenharia disponíveis a uma cultura22 (ARTHUR, 2009, p. 28).
Esse olhar para a tecnologia ainda observa três principais tipos de tecnologias: singular, plural e generalista. A tecnologia singular atua de forma direta e é mais simples de observá-la, pois torna-se mais tangível a observação do processo ao qual a mesma se dispõe a executar, principalmente através de um dispositivo, um método ou um processo. O dispositivo da tecnologia de processar óleo é a plataforma petrolífera, assim como o rádio é o sinal de rádio. Dessa forma, o tipo de tecnologia singular é focada, racional e concentrada (ARTHUR, 2009, p.163).
Já a tecnologia do tipo plural apresenta a ideia de uma caixa com um arsenal de ferramentas construídas ao redor de um fenômeno específico. Diferente da ideia de uma tecnologia singular que executa um trabalho, a plural existe meramente como um conjunto de práticas a serem utilizadas. Podemos tomar como exemplo a tecnologia eletrônica. Ela não é, por si mesma, uma tecnologia que executa uma atividade como uma plataforma petrolífera (processamento de óleo), mas sim, como um domínio, um campo onde existem diversos subdomínios a serem explorados. Os eletrônicos estão no subdomínio da eletrônica analógica e digital, que está no subdomínio do estado sólido de dispositivos semicondutores, que novamente estão no subdomínio do arsênico, galium e silício (ARTHUR, 2009, p.70,76).
Se a tecnologia do tipo singular é focada, concentrada e racional, a tecnologia do tipo plural contrasta por ser muito mais ampla e abrangente, pois ela se dá ao longo do tempo de forma cumulativa (a tecnologia eletrônica levou anos para desenvolver os microchips de silício e tem aprimorado desde então), orgânica; pois uma vez desenvolvido o componente, seu aprimoramento é muito similar a como organismos evoluem ao longo do tempo e, por fim, cumulativo, pois tais aprimoramentos tendem a ser aglutinados para dar luz às novas tecnologias (ARTHUR, 2009, p.80-81,163).
Por fim, as tecnologias do tipo generalistas são grandes coleções de tecnologias que existiram no passado e no presente. Ou seja, são tecnologias originadas no uso natural ao redor de um fenômeno, construída de forma orgânica, a partir de novos componentes formados pela combinação de antigos componentes. Podemos citar, por exemplo, os mais avançados trens-bala japoneses, que usam os trilhos antigos como base para aplicação de uma tecnologia eletromagnética de levitação para controlar o
22Tradução nossa de:“The first and basic one ia that technology is a means to fulfill a human purpose.[...] The second definition i will allow plural one; technology as na assemble of practices and componentes. [...] I will alllow a third meaning. This is technology as inteire collection of devices and engenieering practices avaliable to a culture”
deslocamento do veículo a velocidades de até 600 quilômetros por hora. Por mais que a tecnologia de eletromagnetismo aplicada aos trens-balas seja recente, a estrada de ferro não é.
A proposta de estrutura da tecnologia pode ser vista, portanto, por três princípios: montagem e combinação de partes de forma generalista, recursividade e fenômeno. As partes organizadas em componentes sistematizados ou modularizados ao longo do tempo e uso se tornam objetos padronizados, no qual cada parte tem uma tarefa a concluir (ARTHUR, 2009, p.35-38). Recursividade é um princípio muito interessante, pois nos leva além da ideia de tecnologia, produz insumos e determina caminhos para a própria tecnologia, de forma cíclica e contínua. Podemos observar esse princípio, quase que de forma natural, a qualquer nova possibilidade em torno de um fenômeno.
Antes de as unidades de armazenamento de dados dos computadores serem em estado sólido, inicialmente, eram nada mais que cartões perfurados em um engenho de Herman Holeritt para computar o senso norte-americano. Mas uma vez criado a forma de se computar dados, rapidamente os cartões perfurados foram substituídos pelas bobinas magnéticas, posteriormente estas foram substituídas pelos discos magnéticos, e mais recentemente, fomos capazes de armazenar uma animação dentro de um DNA, em células vivas23. O terceiro princípio é o fenômeno que motiva o surgimento da tecnologia. Para Arthur, uma tecnologia que não explora um fenômeno só pode atingir nada como resultado (ARTHUR, 2009, p.46). De fato, não é possível pensar em semicondutores sem os fenômenos elétricos e químicos dos materiais, suas reações e possibilidades de aplicações, da mesma forma que não é possível pensar em comunicação sem linguagem ou alfabeto.
Além desse olhar estruturado da tecnologia, Arthur nos oferece uma visão interessante sobre nossa percepção dela. Naturalmente, toda tecnologia (ou sua grande maioria) requer algum entendimento básico sobre ela, para que possa ser presente. Mas uma pessoa só consegue guiar um carro se ela entender a proposta de uma máquina que amplia suas capacidades locomotoras. Quanto mais incremental, do ponto de vista de vantagens, evoluções e praticidades no cumprimento desse propósito, mais afirmamos que o artefato em si é uma tecnologia de ponta. Mas por que a Comunicação não pode ser vista como um artefato tecnológico? Por que nos principais trabalhos da área que envolvem tecnologias das mais variadas existe uma separação como se fossem de domínios distintos? Arthur aponta que isso se deve porque ao longo da história, por hábito ou treinamento, observamos “coisas” como tecnologia. O carro, o robô, o navio, o avião. Cada vez mais tecnológicos, cada vez mais inteligentes. Mas existem tecnologias que não são aparentes e se colocam de forma sutil nas atividades do homem, sem que esse se dê conta de sua real natureza. Arthur observa que:
23 Harvard scientists pionner storage of video inside DNA. Disponível em <
https://www.theguardian.com/science/2017/jul/12/scientists-pioneer-a-new-revolution-in-biology-by- embeding-film-on-dna>. Acesso em: 26 jul. 2017.
Tecnologias convencionais, como o radar e a geração de eletricidade, parece como tecnologia porque elas são baseadas em fenômenos físicos. As não convencionais, como contratos ou o sistema legal, não parecem ser tecnologia porque eles estão baseadas em efeitos não físicos – organizacional, comportamental ou mesmo lógico e matemático no caso dos algoritmos. A assinatura da tecnologia padrão – o que nos ajuda a reconhecer algo como tecnologia – é baseado em efeitos físicos24 (ARTHUR, 2009, p.55,56).
Como um simples exercício, pegando o caso do que Arthur cita sobre o sistema legal, contratos e os princípios citados acima, seria possível que os sistemas que não entendemos como tecnologia sofressem as mesmas condições? Em uma primeira análise, a resposta é sim. No caso do sistema legal ou mesmo financeiro, podemos observar a evolução da economia em diversos caminhos, seja no de identificação e redução de fraudes25, seja na troca rápida do dinheiro papel pelo dinheiro de plástico e transações eletrônicas, pelo surgimento de moedas totalmente digitais como Bitcoin e o Blockchain26, Inteligências artificiais que determinam quais casos jurídicos27 antigos serão mais relevantes para um caso atual, entre outras. É a proposta de Bush, em uma escala global e instantânea, auxiliada por algoritmos a filtrarem a relevância e a qualidade dessas mesmas informações.
Dessa forma, entendemos que existe uma relação da tecnologia com a comunicação nestes aspectos estruturais, e o primeiro a apontar essa relação foi Marshal Mcluhan.
24 Tradução nossa de: “[...] Conventional Technologies, such as radar and eletricity generation, feel like
“Technologies”because they are based upon physical phenomena. Nonconventional ones, such as contracts and legal systems, do not feel like Technologies because they are based upon nonphysical “effects”- organizational or behavioral effects, or even logical or mathematical ones in the case of algorithms. The signature of standart technology – what makes us recognize something as a technology – is that it is based upon physical effect”.
25 How to Mastercard is using AI to improve the accuracy of its fraud prevention. Disponível em:
<http://www.businessinsider.com/mastercard-artificial-intelligence-fraud-protection-2017-1>. Acesso em: 22 mar. 2017. 26 Bitcoin é uma criptmoeda descentralizada apresentada em uma lista de discussão em 2008 por um grupo de programadores, de pseudônimo Satoshi Nakamoto. É considerada a primeira moeda livre digital descentralizada e tida como principal responsável pelo surgimento de um Sistema bancário livre. A transação financeira por bitcoin é realizada sem intermediários e é verificada por nós de rede e gravada em um banco de dados distribuído, chamado de blockchain.
27 Rise of robotlawers. Disponível em: <https://www.theatlantic.com/magazine/archive/2017/04/rise-of-the- robolawyers/517794/>. Acesso em: 14 abr. 2017.