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A Tecnologia: Historicidade e Perspectivas

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ UFC (páginas 45-52)

2. Tensões e Discussões Sobre o Espaço Virtual: A Cybercultura e Seus Paradoxos

2.1. A Tecnologia: Historicidade e Perspectivas

Ao elaborar um histórico acerca do processo de informatização, é importante ressaltar que antes da internet havia apenas os computadores. Eles surgiram na Inglaterra e nos Estados Unidos em 1945, e por muito tempo foram usados por militares para cálculos científicos. Seu uso civil só teve início nos anos 60, e apenas começou a ser popularizado na década de 70 com o computador pessoal, com a criação do microprocessador (LÉVY, 1999, p. 31).

As possibilidades de um mundo interligado em rede foram expandidas em milhões de vezes com o surgimento da internet. Para Cesaltina (2008), a mesma é “o conjunto das

centenas de redes de computadores conectados em diversos países, nos seis continentes, para compartilhar informações”. Equivale a uma estrada de informação, como um mecanismo de

transporte que conduz os dados por um caminho de milhões de computadores interligados. Diversas tecnologias são empregadas nas conexões das redes: linhas de telefone, linhas de microondas, cabos de fibra ótica e satélites (CESALTINA, 2008, p.29).

Em 1991, surgiu a world wide web, ou rede “WWW”, que é apenas uma parte da internet, ou melhor, a mais acessada, por reunir documentos multimídia que transmitem informações com texto, som, imagem e animação.7 A internet passou de aparato técnico à mídia, que oferece o recebimento de informações de caráter noticioso, de entretenimento, serviços e negócios. No entanto, ela possui um espaço de comunicação mais flexível que as mídias convencionais, e tem características bem distintas dos meios de comunicação comuns (TV, rádio, jornal etc.).

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Citado pelo Portal Algosobre.com.br: história do computador e da internet. 2000. Disponível na internet em http://www.algosobre.com.br/informatica/historia-do-computador-e-da-internet.html. Acesso em 1 de maio. 2008.

45 Nas mídias convencionais o sistema hierárquico de produção e distribuição da informação segue um modelo onde esta informação concentra-se em uma única fonte para ser estendida aos demais. Já no ciberespaço, essa relação se dá de forma flexibilizada, ou seja, todos podem emitir e receber informações de qualquer lugar do planeta, seja ela escrita, imagética ou sonora (compartilhamento de arquivos, músicas, fotos, comunidades virtuais etc.). Essas características fazem da cybercultura o marco de uma era singular na história da humanidade, devido ao caráter inédito desta nova dinâmica instaurada por ela. Trata-se não apenas de um fenômeno tecnológico, mas de um processo que envolve, além de tecnologia, alterações nas dinâmicas sócio-comunicacionais.

A comunicação online é de mão dupla, como no telefone, mas, diferente dele, possui alcance de rede comunicacional, abrangendo um maior número de pessoas. Segundo Cesaltina, (2008, p.29) as taxas de crescimento da internet indicam que ela é o meio de comunicação com o menor período de aceitação entre a sua descoberta e sua assimilação quase maciça. Este fato confere ao cyberespaço ser o mais relevante espaço de comunicação, de transação e de sociabilidade, mas também ser o novo mercado da informação, do conhecimento e dos negócios.

Segundo Gates (2007, p.72), o maior impacto que será sentido nos próximos dez anos diz respeito à disseminação da revolução digital entre bilhões de pessoas ainda sem acesso aos instrumentos que permitem participar da chamada “economia do conhecimento”. Hoje, aproximadamente 1 bilhão de pessoas usam pc’s. Embora pareça muito, representa uma fração modesta da população mundial de 6 bilhões de pessoas. À medida que a tecnologia torna-se mais acessível e mais simples de usar, pode-se reduzir o abismo entre as sociedades ricas e as mais pobres, e estender as oportunidades sociais e econômicas a todos. Essas oportunidades podem ser traduzidas em maior acesso à educação, à informação, à saúde e aos mercados globais.

Diante da afirmação de Gates (2007), torna-se clara, dentro da citada “economia do

conhecimento”, a comercialização da ciência, cujo saber vem se adequando à lógica do padrão

capitalista. Contudo, talvez isto não seja simplesmente o que está imbuído na estatística acima. É necessário enfatizar que são os setores econômicos de ponta e a produção dos serviços complexos os grandes utilizadores das tecnologias da informação. Tal como

46 aconteceu em outras áreas das telecomunicações (televisão, telefones celulares etc.), essa área também produziu mudanças na sociedade. Entretanto, a informática tem um poder específico, ao produzir um espaço diferenciado, que é o espaço virtual, capaz de projetar as pessoas para um terreno anárquico, movediço, obscuro, encurtando distâncias e nivelando indivíduos.

Paradoxalmente, Boaventura (2006) afirma que a emergência do cyberespaço fará com que os grupos sociais subordinados, não incluídos na cybercultura, transitem do sistema de desigualdade para o sistema de exclusão. Daí, a compreensão de que as oportunidades não se dão de forma equilibrada para todos os grupos, todas as regiões, todos os países.

Na concepção de Boaventura (2006, p.307), “as auto-estradas da informação não

servirão, por igual, a todas as partes do mundo”, desenhando-se uma distinção entre a

sociedade que será abundantemente servida pela tecnologia da informação e a sociedade “incivil”, constituída por uma “subclasse tecnológica”, excluída do acesso e de tudo o que esse acesso torna possível. Para o autor, é quase impossível visualizar um cybercafé organizado, com sistema de ar condicionado, com pc’s instalados em rede, com tecnologia de alta velocidade nas regiões de grande pobreza na África (Angola ou Ruanda, por exemplo).

Segundo Lévy (1999, p. 12), quando se tenta explicar o desenvolvimento de novas formas de comunicação transversais, interativas e cooperativas, sempre se ouve rebates sobre os “ganhos fabulosos de Bill Gates”. Lévy (1999, p.12) afirma que “os serviços online serão

pagos, restritos aos mais ricos” e que o crescimento do cyberespaço “servirá apenas para aumentar ainda mais o abismo entre os bem-nascidos e os excluídos, entre os países do Norte e as regiões pobres nas quais a maioria dos habitantes nem mesmo tem telefone”. Nesta

visão, como disse o mesmo Lévy (1999, p.12), qualquer esforço para apreciar a cybercultura sugere, automaticamente, que se esteja “ao lado da IBM, do capitalismo financeiro

internacional, do governo americano, tornando-se um apóstolo do neoliberalismo selvagem e duro com os pobres, um arauto da globalização escondido sob uma máscara de humanismo”.

No entanto, Lévy (1999) gera tensões em suas teorias:

O fato de que o cinema e a música também sejam indústrias e parte de um comércio não nos impede de apreciá-los, nem de falar deles em uma perspectiva cultural ou

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estética. O telefone gerou e continua a gerar verdadeiras fortunas para as companhias de telecomunicação. Isso não altera o fato de que as redes de telefonia permitem uma interação planetária e interativa. Ainda que apenas um quarto da humanidade tenha acesso ao telefone, isso não constitui um argumento contra ele. Por isso, não vejo por que a exploração econômica da internet ou o fato de que nem todos têm acesso a ela constituiria, por si mesmo, uma condenação da cybercultura ou nos impediria de pensá-la de qualquer forma que não a crítica (LÉVY, 1999, p. 13).

Em contrapartida, também é válido ressaltar a proliferação crescente dos serviços

online gratuitos, advindos das universidades, órgãos públicos, organizações não-

governamentais etc. Sendo assim, vê-se uma negociação entre a mercantilização da internet e a sua dinâmica libertária e comunitária.

Para Lévy (1999, p. 13), a questão da exclusão não deve impedir de contemplar as implicações culturais da cybercultura em todas as suas dimensões. Na concepção do autor, não são os pobres que se opõem à internet, são aqueles cujas posições de poder, os privilégios (sobretudo os privilégios culturais) e os monopólios encontram-se ameaçados pela emergência dessa nova configuração de comunicação.

Lévy (1999, p. 17) afirma que “sempre ambivalentes, as técnicas projetam no mundo

material nossas emoções, intenções e projetos. Os instrumentos que construímos nos dão poderes mas, coletivamente responsáveis, a escolha está em nossas mãos”. Sobre as críticas a

essa nova forma de universalidade o autor se manifesta:

Aqueles que denunciam a cybercultura hoje têm uma estranha semelhança com aqueles que desprezavam o rock nos anos 50 ou 60. O rock era anglo-americano e tornou-se uma indústria. Isso não o impediu, contudo, de ser o porta-voz das aspirações de uma enorme parcela da juventude mundial. Também não impediu que muitos de nós nos divertíssemos ouvindo ou tocando juntos essa música. A música pop dos anos 70 deu uma consciência a uma ou duas gerações e contribuiu para o fim da Guerra do Vietnã. É bem verdade que nem o rock nem a música pop resolveram o problema da miséria ou da fome no mundo. Mas isso seria razão para ser contra? (LÈVY, 1999, p. 11).

Segundo Lévy (1999) o cinema, ao nascer, foi desprezado e considerado como um meio de embotamento mecânico das massas por quase todos os intelectuais da época, assim como pelos porta-vozes oficiais da cultura. Hoje, no entanto, o cinema é reconhecido como

48 uma arte completa, investido de todas as legitimidades culturais possíveis. Contudo, para Lévy (1999, p.11) parece “que o passado não é capaz de nos iluminar”. O mesmo fenômeno pelo qual o cinema passou se reproduz hoje com as práticas sociais e artísticas baseadas nas técnicas contemporâneas. No entanto, o próprio autor afirma que “dizer que tudo o que é feito

com as redes digitais é bom, seria tão absurdo quanto supor que todos os filmes são excelentes”.

Há trinta anos, Gates (2007) fundou uma empresa com o objetivo de colocar um computador em cada mesa e em cada residência. Hoje, com a grande ênfase na portabilidade dos produtos eletroeletrônicos, poderia se falar, inclusive, no sonho de colocar um computador em cada mão, a exemplo dos notebooks, smartphones e iphones. É perceptível a evolução deste empreendimento idealizando tornar este objetivo uma realidade.

Em busca deste alcance, pode-se citar empreendimentos que deram certo, onde a tecnologia avançou de forma a incluir pessoas, mais especificamente em camadas menos favorecidas. Um exemplo local a ser citado é o Pirambu Digital8, um projeto não- governamental, do terceiro setor, composto de jovens desenvolvedores de software que desejam fazer do Pirambu, uma favela de Fortaleza, onde vivem 350 mil pessoas, um modelo de inclusão social com tecnologia digital, permitindo ao jovem apropriar-se de seu entorno social. Tal projeto encara a tecnologia digital como fundamental na democratização das oportunidades nas comunidades de baixa renda. A cooperativa oferece capacitação na área de tecnologia da informação, objetivando a formação de jovens vulneráveis à marginalidade, somada à transformação socioeconômica das famílias, com a absorção dos jovens pelo

mercado de trabalho (Disponível na internet em

http://www.arede.inf.br/index.php?Itemid=99&id=1248&option=com_content&task=view. Acesso em: 27 de abril. 2008.).

Outro exemplo de empreendimentos semelhantes e bem sucedidos, em nível internacional, foram os Telecentros, que têm como objetivo alavancar a inclusão sócio-

8 Citado pela Revista ARede: tecnologia para inclusão digital. São Paulo: 2007. Disponível na internet em

http://www.arede.inf.br/index.php?Itemid=99&id=1248&option=com_content&task=view. Acesso em: 27 de abril. 2008.

49 econômica-cultural de diferentes cidadãos em regiões distintas, possibilitando o acesso às tecnologias da informação à maior parte da população que não possui esses meios e não os alcançaria de forma individual. A idéia nasceu nos países nórdicos como programa de inclusão digital e acessibilidade tecnológica à população em geral. Historicamente no Brasil, em 1992 foi inaugurado o primeiro Telecentro da América Latina, na cidade de Brusque, em Santa Catarina, tornando-se um dos primeiros projetos de inclusão digital do Governo Federal (CÂMARA, 2005). O entendimento de que a falta de inclusão digital só distancia o cidadão das novas possibilidades, e dificulta ainda mais o desenvolvimento social e humano, é ponto de partida para a implementação dessa política pública. O processo de desenvolvimento tecnológico acontece de forma rápida, e isso faz com que aquelas pessoas que não dispõem de acesso a essas tecnologias fiquem cada vez mais afastadas da “economia do conhecimento”.

Segundo Câmara (2005), um fator determinante de exclusão, que vem reafirmar o modelo capitalista, é que os mercados que desenvolvem, fabricam e comercializam tecnologia ainda despendem custos de produção relativamente altos. Dessa forma, não demonstram qualquer interesse em abrir mão de seus lucros, disponibilizando suas tecnologias para quem não tem recurso financeiro, o que reforça o abismo da desigualdade entre aqueles que podem ou não ter acesso às novas tecnologias. No entanto, essas instituições que trabalham para a inclusão digital compreenderam que, quanto maior o número de pessoas capacitadas, melhor poderá ser o resultado de uma produção inovativa, proporcionando desenvolvimento social, cultural e econômico.

Nesse contexto de inclusão digital e capacitação de jovens para integrarem o mercado de trabalho, pode-se constatar, estatisticamente, o grande número de estudantes com acesso à internet. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra Domiciliar, de 2005, mostram que o número de estudantes com acesso à internet (38%) é superior à média nacional da população (21%). Estudantes de escolas privadas e instituições de ensino superior foram os únicos que registraram taxas de acesso à internet acima de 80%, índice compatível com os de países avançados. Já nas escolas públicas de ensino fundamental e médio, as taxas são de 17,2% e 37,3%, respectivamente.9

9Dados citados pela Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana (RITLA). Disponível na internet em

http://www.ritla.net/index.php?Itemid=149&id=665&option=com_content&task=view. Acesso em: 4 de maio. 2008.

50 Com tais evidências, a interconexão parece ser o princípio que rege a vida nessa sociedade ligada em rede, mesmo para quem não tem em casa um computador ligado à internet. De uma forma geral, é inviável desplugar: viver sem celular, sem cartão de crédito, conta bancária, cartão para pagar a passagem de ônibus.

Lucas (2007) observa que a tecnologia abre possibilidades e oferece opções culturais e sociais que não poderiam ser pensadas antes de seu desenvolvimento. “Tem coisas que a

gente não vai mais voltar a fazer, como perder tempo em fila de banco enquanto se pode usar um caixa eletrônico ou mesmo pagar contas de casa pela internet”, observa.

Tenta-se imaginar como seria o mundo se o homem ainda tivesse que estar no contexto dos acontecimentos para saber sobre eles, como acontecia nas sociedades orais10. “Foi com o surgimento da escrita que a informação foi descolada do seu contexto vivo” (LÉVY, 1999, p.15). E, com o passar do tempo, o homem foi empregando esforços para melhorar o alcance e a velocidade das comunicações. Primeiro vieram as estradas físicas, que abriram caminho para a circulação de mercadorias e informações. Depois o telefone, o rádio, a televisão, os satélites de telecomunicações e, por fim, a internet, que construiu nas sociedades uma dinâmica movida pela tecnologia, a citar, a cybercultura.

No entanto, percebe-se que a mesma universalidade adquirida com do advento da escrita estática e de seu desenvolvimento, capaz de unir dois pontos distanciados no tempo e no espaço, parece dar lugar à comunicação instantânea, onde as mensagens voltam a ocorrer em seu contexto, como acontecia nas sociedades orais. No entanto, vale salientar, que este imediatismo de informações ocorre dentro de uma nova universalidade, movida pelo avanço tecnológico, e é decorrente da troca da temporalidade pela rapidez informacional.

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Nas sociedades orais, as mensagens lingüísticas sempre eram recebidas no momento e no local de sua emissão. Emissores e receptores partilhavam uma situação idêntica e, na maioria das vezes, um universo semelhante de significado. Os atores da comunicação mergulhavam no mesmo banho semântico, no mesmo contexto, no mesmo fluxo vivo de interação. A escrita abriu um espaço de comunicação desconhecido pelas sociedades orais, no qual tornava-se possível tomar conhecimento de mensagens geradas por pessoas situadas a milhares de quilômetros ou mortas desde séculos, ou expressando-se desde enormes distâncias culturais ou sociais. Assim sendo, os atores da comunicação não partilhavam necessariamente a mesma situação, não estavam mais em interação direta. Vide LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Ed. 34. 1999.

51 Essa revolução comunicacional baseada na virtualidade, na dimensão não real, na instantaneidade, “onde as pessoas não se trocam em termos concretos, mas apenas há

transferência dos dados” (BAUDRILLARD, 1990, p.147), instalou-se de maneira

determinante e adentrou o estilo de vida das pessoas de forma a estabelecer um novo padrão, uma nova dinâmica que vai prescrever e caracterizar as relações construídas na contemporaneidade.

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ UFC (páginas 45-52)