Capítulo I A viragem hermenêutica e o estatuto das línguas
7. A temporalidade como fundamento do “estado de aberto” do Dasein
Dasein
A compreensão das criações linguísticas é um problema hermenêutico, no sentido etimológico, de decifração de uma mensagem, e no sentido técnico e fenomenológico que Heidegger dá a este conceito em Ser e Tempo: “[...] o sentido metódico de descrição fenomenológica é interpretação. O λογος da fenomenologia do Dasein tem o carácter do έρμενεύειν, mediante o qual se dão
110 Cf. Esta capacidade da tradução autêntica escutar na direcção para que aponta o texto, para além do
próprio texto, sublinhada por von Herrmann no citado artigo Übersetzung als philosophisches Problem deve ser correlacionada com a reinterpretação heideggeriana da linguagem como Rede. Tatiana Aguilar- Álvarez Bay sublinha a consideração da fala (Rede) como possibilidade de ouvir ou de escutar (Hören), que imediatamente habilita o Dasein a obedecer ao ser (Horchen): „En la caracterización del habla como
poder oír está implícito el rasgo que, a nuestro juicio, constituye el elemento esencial de la interpretación
heideggeriana del lenguaje. [...] Por tanto como el comprender se resuelve en el oír propio de habla originaria (Rede) - distinta del lenguaje (Sprache) – el hombre es mas un oyente que un hablante. Oír implica, por decirlo de modo gráfico, estar metido en el Da-sein, esto es, en la apertura. Aun cuando el hombre es necesario para que el sentido del ser se revele, no se identifica con la apertura que lo hace posible. El carácter de mediación, de ser instrumento para que el ser se manifieste, es precisamente el habla.“ (Idem, El Lenguaje en el Primer Heidegger, 216-217).
111 Ivo de Genaro destaca como essenciais ao conceito fenomenológico de tradução a escuta atenta do
texto, a demora na sua linguagem, e o deixar-se conduzir pelo seu sentido, como meios de aceder ao desvelamento do ser em que ele se inscreve „Übersetzung ins Wesen – nichts anderes ist das Sehen der Phänomenologie – ist Sache eines gewandelten Aufenthalts in der Sprache: hörende Fügsamkeit,
a conhecer a compreensão do ser inerente ao próprio Dasein, o sentido próprio do ser e as estruturas fundamentais do seu ser peculiar. A Fenomenologia do Dasein é hermenêutica na significação originária da palavra, a qual designa o negócio da interpretação.”112
A Fenomenologia hermenêutica pensa, pois, as criações linguísticas a partir do seu fundamento ontológico, isto é, a partir das estruturas fundamentais do Dasein que suportam todo e qualquer projecto de interpretação, que acima referimos, e cuja unidade se fundamenta na temporalidade.
A contribuição fundamental de Heidegger para abalar os fundamentos em que assentava a filosofia da linguagem reside no facto de ele ter dado um sentido preciso à relação entre linguagem e temporalidade: o logos, tomado como razão ou como linguagem enunciativa, reduz o ser a um “é” - cópula de uma proposição - e remete, como vimos, para uma concepção do ser como presença ou substância. Pelo contrário, o logos, tomado no seu sentido originário de fala (Rede), remete para uma relação originária entre ser e temporalidade. Nela se articulam o sido, ou a reiteração do passado e a projecção do futuro, que constituem o estado de aberto do Dasein.
O tempo, enquanto temporalidade fundamenta a totalidade do estado de aberto do Dasein, atravessando os seus três momentos estruturais e possibilitando a sua unidade. Cada um dos existenciários se relaciona com um dos três êxtases temporais: o compreender tem um carácter dinâmico e projectivo, é um antecipar-se a si mesmo em direcção ao futuro; a afectividade, pelo contrário, temporaliza-se predominantemente no passado; a fala, como articulação da afectividade e do compreender funda-se na unidade extática da temporalidade e não se temporaliza num êxtase determinado.
No entanto, aquilo que aqui importa compreender claramente é o que aqui é pensado sob a designação de “êxtases temporais” ou de temporalidade extática: passado, presente e futuro não são segmentos recortados no tempo linear e objectivo, mas relacionam-se com dinâmica intrinsecamente temporal
112 „ [...] der methodische Sinn der phänomenologischen Deskription ist Auslegung. Der ιόγος der
Phänomenologie des Daseins hat den Charakter des έρκελεύεηλ, durch das dem zum Dasein selbst gehörigen Seinsverständnis der eigentliche Sinn von Sein und die Grundstrukturen seines eigenen Seins kundgegeben werden. Phänomenologie des Daseins ist Hermeneutik in der ursprünglichen Bedeutung des
da existência, enquanto projecto lançado. A analítica existencial de Ser e Tempo pensa o tempo como o sentido de ser do Dasein que é em si mesmo temporal (Zeitlich) e o tempo atravessa a estrutura tripartida da existência, sem lhe acrescentar nada, mas tornando possível a sua unidade.
De facto, o Dasein exerce a sua existência oscilando de forma ambígua e imprevisível entre o exercício apropriado da temporalidade extática, que lhe permite ser um si mesmo e a queda na presença do presente, na dispersão e na perda de si mesmo, em que permanece na maior parte do tempo.113 Esta ambiguidade inerente à existência afecta o compreender, a afectividade e a fala, modificando esses existenciários e distorcendo-os em modalidades de
temporalização inapropriadas, mas igualmente fundamentais e
ontologicamente constitutivas.
O compreender é o projectar-se em direcção a um possível e o manter-se numa possibilidade existencial, antecipando-se a si mesmo e lançando-se em direcção ao futuro – este movimento de futuração é inerente à existência, que é assim, porvir (kunftig). Contudo, o compreender impróprio é essencialmente diferente: implica um movimento de projecção que se desvia de si mesmo em direcção às possibilidades abertas pelas coisas, e assim o Dasein ”preocupa- se” com a urgência dos afazeres, esquece-se de si mesmo, dispersa-se nas possibilidades apresentadas pelos sucessos ou fracassos no lidar com as coisas-à-mão, caindo na presença do presente.
Ao contrário, o compreender próprio implica o ”estado de resolução” ou a apropriação de si mesmo, pelo movimento projectivo em direcção a uma possibilidade existencial. Retornando sobre si mesmo a partir da dispersão do quotidiano e da preocupação com o imediato, o Dasein apropria-se de si mesmo. O compreender implica, pois, o projectar-se em direcção ao futuro ou o advir e a partir dele retroceder sobre si mesmo, tomado na sua singularidade essencial e neste voltar para si mesmo (auf sich zu kommen) o Dasein realiza- se, assim, como porvir (Kunftig).
113 Cf. Bernhard Sylla: „Die Zweideutigkeit bewirkt eine kategorische, da existentiale Unsicherheit
hinsichtlich der Unterscheidung von Sein und Seienden und, auf tiefere Ebene, von Eigentlichkeit und Uneigentlichkeit. Deswegen bezeichnet Heidegger sie als „Steigerung des Verfallens“. Man müsste sogar sagen, dass die Zweideutigkeit nicht nur eine Steigerung des Verfallens ist, sondern dessen ‚tiefstes
No entanto, o conceito de projecto lançado implica, como vimos, que a projecção se dá sempre num ser que já é e, portanto, o poder-ser é sempre o poder ser de um já sido. Ao voltar a si mesmo compreendendo, o Dasein toma a seu cargo o ente que ele já é e reitera, simultaneamente o que ele foi, ou o sido.114
O movimento projectivo inerente ao compreender não abre uma possibilidade arbitrária, mas é, na realidade, a reiteração do sido, ou do passado, que se limita a desenvolver as possibilidades nele contidas e a actualizá-las. Esta reiteração do passado implica um movimento de retorno sobre si mesmo essencialmente projectado no futuro: ”Se bem que o compreender ”ocupando- se de”, impróprio, se defina pelo tornar presente aquilo de que se ocupa, a temporalização do compreender leva-se a cabo primariamente no futuro.”115 A afectividade tem o carácter passivo e receptivo do ”ser afectado”, e põe o Dasein diante de si mesmo como projecto sempre já previamente lançado. É na angústia que experimentamos a afectividade própria, sentindo-nos afectados pelo estar lançado no meio dum mundo não-familiar e inóspito. A angústia subtrai o Dasein às possibilidades mundanas contidas nas coisas de que se ocupa e coloca-o diante de si mesmo, libertando-o para a sua possibilidade mais própria, ou seja, para a morte. Pelo contrário no estado de ânimo impróprio do temor, o Dasein é atraído pelos entes circundantes de que se ocupa, o temor abre o mundo à volta como algo de ameaçador.
No discurso (Rede) articulam-se o compreender e a afectividade e ela funda-se por isso mesmo na unidade extática da temporalidade e não se temporaliza primariamente num êxtase determinado. A fala, enquanto Rede é em si mesma temporal, não porque se refira enquanto linguagem expressa ou Sprache a acontecimentos que se desenrolam no tempo, ou porque use os diversos tempos verbais. Ela é temporal originariamente, enquanto estrutura existenciária, isto é, enquanto fala pré-gramatical: ela deriva em si mesma da unidade da temporalidade extática, nela se articulando os três êxtases da
114 Cf. Ramón Rodríguez (Hemeneutica y Subjectividad, 30). O autor sublinha que a contribuição
fundamental de Heidegger no contexto da filosofia da história foi ter mostrado a temporalidade como o sentido do ser do Dasein, isto é, como aquilo que atravessa a estrutura da existência e torna inteligível a
temporalidade, o passado, o futuro e o presente e, por isso, ela não se temporaliza num êxtase determinado.
A fala, enquanto Rede, remete para a constante fusão entre o passado e o futuro, como dois horizontes que incessantemente se misturam: ao movimento de futuração da compreensão pertence necessariamente um passado, como um momento intrínseco de si mesmo compreendido no futuro; por outro lado, o passado só é compreendido como passado por esse movimento do projectar que retorna sobre si a partir do futuro. Esta fusão entre os horizontes do futuro e do passado que constitui o gestar-se apropriado da existência projecta um horizonte de sentido no qual os entes aparecem como presença.
No entanto, este horizonte de presença não remete imediatamente para uma instância discursiva, mas para uma desvelação instantânea e intuitiva de sentido, que Heidegger denomina como ”olhar instantâneo” (Augenblick), o que tem sido posto em correlação com o Kairos de Santo Agostinho. Este instante kairológico do desvendamento do sentido suporta a constituição ontológica das grandes criações linguísticas e, como a seguir vemos, dos acontecimentos propriamente históricos.
A vocação ontológica da linguagem, a sua função de abertura de mundo (Welterschließung), funda-se, pois, na unidade dos esquemas horizontais do futuro, do sido e do presente - a fala (Rede) é responsável pela projecção instantânea de um horizonte de inteligibilidade ou pela abertura aberta que torna possível o surgimento dos entes. Essa diferença entre o horizonte e o que aparece nesse horizonte esclarece a noção de diferença ontológica, ou a noção da diferença entre ser e ente.
Enquanto linguagem expressa ou Sprache tem o presente um papel preferencial na sua constituição. No entanto, esta articulação da temporalidade sob o modo do presentear ou do tornar presente pode fazer-se no modo inautêntico da linguagem decaída, do falatório e da dispersão, ou sob o modo da presença genuína, ou instantânea iluminação: ”O presente mantido na temporalidade própria ou presente próprio chamamos-lhe o ”olhar instantâneo”.” 116 O tempo instantâneo é a temporalidade inerente ao olhar instantâneo daquele que a partir do sido se projecta em direcção ao futuro e,
assim, abre de forma originária um horizonte de presença, em que as coisas e os homens podem fazer frente a uma nova luz, fazendo surgir a unidade de significação de um mundo.117
Mais tarde, Heidegger identificará esta dimensão poiética da linguagem, isto é, este instantâneo levantar de um mundo, originariamente inscrito na linguagem humana, com a obra de arte. Esta temporalidade própria das criações humanas118, enquanto criações linguísticas, essencialmente diferente da temporalidade das coisas ou dos entes da natureza, faz da sua compreensão um problema que de modo algum pode ser resolvido pelas metodologias usadas nas ciências, nem submetido ao seu ideal de objectividade.
É a partir deste fundamente ontológico, isto é, a partir desta oscilação do Dasein entre o exercício apropriado e não apropriado da temporalidade extática que podem ser compreendidas todas as criações linguísticas e, por conseguinte, é também nesse plano que pode ser relançada a discussão do problema da tradução.