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O logos hermenêutico e o logos apofântico

Capítulo I A viragem hermenêutica e o estatuto das línguas

2. O logos hermenêutico e o logos apofântico

Trata-se em primeiro lugar, para Heidegger, de enfrentar a tradição filosófica que traduziu e interpretou logos como ”[...] razão, juízo, conceito, definição, fundamento, proporção.” O questionamento de Heidegger centra-se na questão de saber porque se interpretou logos no sentido de proposição e de juízo, ou seja como síntese de conceitos, que na sua perspectiva tem a função de permitir ver algo em seu estar junto com algo, permitir ver algo como algo. A síntese implicada nos enunciados verbais que classificamos como proposições funda-se na função primordial atribuída por Aristóteles à linguagem e por ele designada de ἀποθαίλεζζαη (dar a ver algo como algo). A confrontação com Aristóteles vai centrar-se nesta primazia atribuída pelo filósofo grego à função apofântica da linguagem: “ιóγος no sentido da fala quer dizer antes o mesmo que δειοῦλ, fazer patente “aquilo de que se fala” na fala. Aristóteles explicou com mais rigor esta função da fala chamando-lhe ἀποθαίλεζζαη.”73

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Cf. Tatiana Aguilar-Álvarez Bay em El Lenguaje en el Primer Heidegger, (México, 1998). A autora defende a tese de que Ser e Tempo se desenrola à volta do problema central da lógica como ciência da verdade e que é nesse contexto que a linguagem assume especial relevância. Heidegger reformula o conceito de logos, deslocando o conceito de verdade para a linguagem, tema transversal a toda a obra e de modo algum circunscrita ao apartado que se lhe dedica. (Idem, ob. cit., 283).

A função apofântica atribui ao logos a possibilidade de dar a ver aquilo de que se fala aos que falam uns com os outros, recobrindo assim simultaneamente a função de designação, própria do sujeito da proposição (que torna patente aquilo que designa), e a função de atribuição inerente à predicação ou ςύλζεζης, que não são, aliás, distinguidas por Heidegger. Na crítica ao “dar a ver algo como algo” característico do logos apofântico, Heidegger visa sobretudo o facto de Aristóteles considerar os enunciados verbais como designando directamente as coisas “diante dos olhos”.

E porque a função da linguagem para Aristóteles consiste no simples permitir ver algo, o mostrado enquanto tal, o üποθείκελολ, o que “está diante dos olhos”, o logos poderá também ser interpretado como significando razão de ser, ou ratio.

Esta função de designação dos entes, tomada como função primária da linguagem, deixa, porém, de lado a questão do sentido - daí que Heidegger pressuponha, não a falsidade da função apofântica da linguagem, afirmada por Aristóteles, mas o seu carácter secundário e derivado. Uma função anterior e mais fundamental da linguagem é por ele pressuposta, sob a designação de “logos hermenêutico”. O logos hermenêutico pode mostrar-se no acto antepredicativo do simples compreender as coisas à mão.

Heidegger vai em seguida questionar-se sobre o conceito de verdade dominante na tradição metafísica, a verdade como concordância, salientado o seu carácter superficial e derivado: “Esta ideia não é em nenhum caso a primária no conceito de ἀιήζεηα. O ser verdade do ιόγος como ἀιεζεύεηλ quer dizer: no ιέγεηλ como ἀποθαίλεζζαη, extrair do seu ocultamento o ente de que se fala e permitir vê-lo, descobri-lo, como não oculto (ἀιεζές).”74

Aprofundando o seu questionamento sobre a possibilidade ontológica deste extrair do ocultamente, Heidegger conclui que esta radica no próprio Dasein e na sua constituição ontológica, que tem em si mesma a possibilidade de uma atitude de desocultação e de abertura relativamente aos entes.

74 „Diese Idee ist keinesfalls die primäre im Begriff der ἀλήζεηα. Das „Wahrsein” des λόγος als ἀλεζεύεην

Esta atitude não se restringe de modo algum ao logos apofântico ou aos enunciados proposicionais, mas é antes de mais inerente à própria aisthesis e ao noein: este confronto com Aristóteles tem como resultado salientar o carácter secundário e derivado dos enunciados proposicionais, e a necessidade de alargar e radicalizar o conceito de logos, de modo a dar conta e a recobrir esta atitude de desocultação e abertura inerentes ao Dasein.

O logos hermenêutico é a expressão encontrada por Heidegger para indicar esta perspectiva globalizante em que agora se encara a fala: de facto, Heidegger aponta para uma linguagem antepredicativa inerente ao Dasein como ser-no-mundo, isto é, a uma atitude compreensiva e interpretativa do mundo englobante, que fundamenta a possibilidade da linguagem expressa, dos enunciados verbais numa qualquer língua e ainda dos enunciados proposicionais inerentes a uma atitude teorética.75

Há, para Heidegger, uma linguagem (logos) inerente aos modos pré-teoréticos de relacionamento do Dasein com o mundo à volta e com os entes intra- mundanos, uma vez que este modo de relacionamento, mesmo enquanto praxis, se mostra enquanto um ”tratar com”, orientado para um ”para que”, que estrutura uma situação significativa que em cada caso existe. Em conformidade com isto Heidegger dirá no § 32 de Ser e Tempo: “A indicação do ”para quê” não é simplesmente o nomear algo, mas o nomeado é compreendido como aquilo pelo que há que tomar aquilo pelo que se pergunta. O aberto no compreender, o compreendido, é sempre já acessível de tal maneira que nele pode destacar-se expressamente o seu ”como quê”. O ”como” constitui a estrutura do estado de expresso de algo compreendido; constitui a interpretação. O ”andar em torno”, interpretando no ”ver em torno”, com o ”à- mão” no mundo circundante, que o “vê” como mesa, porta, carro, ponte, não necessita forçosamente de explicitar o interpretado no ”ver em torno” também

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A afirmação do primado do logos hermenêutico é uma questão central relativamente à investigação levada a cabo em Ser e Tempo, pois conecta-se com a dimensão ontológica da linguagem: “Nos encontramos ante un punto decisivo en la interpretación heideggeriana del habla. La distinción que lleva a cabo a continuación explica el alcance que atribuye al lenguaje más adelante. La estructura-como que está en la base del significar, se distingue de la síntesis y la diáiresis como lo ontológico de lo lógico. En

numa proposição determinante. Todo o simples ver antepredicativamente o ”à- mão” é já em si mesmo interpretativo-compreensor.” 76

O simples ver das coisas é sempre já uma articulação da inteligibilidade, é-lhe subjacente a compreensão de algo como algo (Als-Struktur)77, que configura uma função de abertura ou de interpretação, que é inerente ao Dasein enquanto ser-no-mundo. É essa possibilidade que possui o Dasein de olhar à volta, compreendendo, que faz com que “o mundo” esteja sempre já compreendido e interpretado: “O olhar à volta descobre, significa: “o mundo” já compreendido é interpretado. O “à-mão” entra expressamente no campo do ver compreensor.”78

Heidegger sublinha várias vezes em Ser e Tempo que esta articulação da inteligibilidade é prévia a qualquer enunciado temático sobre as coisas, que qualquer enunciado se limita a expressar o ”como” previamente apropriado pela interpretação compreensiva do mundo à volta e ainda que esta apropriação prévia deve já estar presente para que possa ser expressável num qualquer enunciado. A fala (Rede) é precisamente essa articulação da inteligibilidade prévia a qualquer enunciado e fundante de qualquer discurso linguístico, para os quais Heidegger reserva o termo alemão de Sprache. A destruição fenomenológica, como desmontagem do conceito aristotélico do logos apofantikos, teve, pois, como resultado possibilitar uma aproximação da experiência fáctica de vida e uma tentativa de reconstrução do conceito de logos fiel a essa experiência originária da fala como articulação totalizante de sentido em que, afinal, consiste “um mundo”: “Os entes intra-mundanos são projectados sem excepção sobre o fundo de mundo, isto é, sobre um todo de

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„Die Angabe des Wozu ist nicht einfach die Nennung von etwas, sondern das Genannte ist verstanden

als das, als welches das in Frage stehende zu nehmen ist. Das im Verstehen Erschlossene, das

Verstandene ist immer schon so zugänglich, daβ an ihm sein „als was” ausdrücklich abgehoben werden kann. Das „Als” macht die Struktur der Ausdrücklichkeit eines Verstandenen aus; es konstituiert die Auslegung. Der umsichtig-auslegende Umgang mit dem umweltlich Zuhandenen, der dieses als Tisch, Tür, Wagen, Brücke „sieht“, braucht das umsichtig Ausgelegte nicht notwendig auch schon in einer bestimmenden Aussage auseinander zu legen. Alles vorprädikative schlichte Sehen des Zuhandenen ist an ihm selbst schon verstehend-auslegend.“, SuZ, GA 2, §32, 149.

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João Paisana chama a atenção para a distinção entre a estrutura “enquanto que” (Als-Strucktur) hermenêutica (isto é, ante-predicativa) e a estrutura “enquanto que” apofântica (predicativa). Cf. idem,

significação a cujas relações de referência se fixou antecipadamente o “ocupar- se com” enquanto “ser no mundo”.”79