Capítulo I A viragem hermenêutica e o estatuto das línguas
4. O estado de aberto do Dasein e o projecto lançado
Este enraizamento existencial da verdade de todo o discurso teorético pode ser mais claramente compreendido a partir da ideia de “projecto lançado” (geworfene Entwurf) que desempenha um papel central na tematização heideggeriana da função hermenêutica da linguagem.
A noção de projecção fundamenta-se na constituição ontológica do homem enquanto ex-sistência, isto é, como ser que se determina em cada caso a partir de uma possibilidade que ele compreende no seu ser. A categoria da possibilidade é “a mais originária determinação do ser do homem”, pois tudo o que faz, fá-lo em referência a possibilidades que fazem parte do que ele é. “O Dasein não é ”algo diante dos olhos”, que possua como qualidade adicional a
produzir-se sobre um fundo de mundo já aberto e essa abertura há-de já ter acontecido sempre previamente, delimitando as possibilidades dos enunciados dotados de sentido. Cf. Ibidem, 166.
86 O estado de aberto dos entes intramundanos constitui-se através do estado de aberto do Dasein, e é
neste que se encontra o fenómeno mais originário da verdade: “El “estado de abierto” se constituye a través del “encontrarse”, el comprender y el habla y concierne cooriginariamente al mundo, al “ser en” y al “sì mismo”.”, Ibidem, 181.
87 Cf. Tatiana Aguilar-Álvarez Bay: „Existencia formalmente significa „ser relativamente a“. Esto es, un
modo de ser al que le es propio hacerse o proyectarse mediante el ejercicio de las propias posibilidades... En cuanto que existir é no tener más remedio que hacerse cargo del propio ser, Heidegger lo caracteriza como ser, en cada caso, mío, como aquello de lo que no puedo desentenderme. De aquí se sigue que el
de poder algo, mas é primariamente ”ser possível”. O Dasein é em cada caso aquilo que ele pode ser e tal como é a sua possibilidade.” 88
A estrutura deste poder ser é o “projecto” (Entwurf), que não deve ser entendido como planificação deliberada, mas como a própria forma de ser do homem, na medida em que ele está sempre orientado em direcção aos seus possíveis.89
Contudo, este projecto não deve ser entendido como um projectar-se em direcção a infinitas possibilidades, mas está ele mesmo circunscrito e limitado pela estrutura formal constituída pelos três existenciários da Befindlichkeit, do Verstehen e da Rede.
A Befindlichkeit, ou seja, o sentir-se afectado do Dasein no meio da totalidade dos entes testemunha a sua condição fáctica, a sua natureza de projecto lançado, enquanto de-jecção a partir de um onde que se desconhece e numa direcção que também é desconhecida. A afectividade (Befindlichkeit) é o modo como, em cada caso, o Dasein é afectado pela sua facticidade, ou pela sua condição de estar sempre já previamente lançado, que marca a sua irremediável finitude. “O ser tornou-se patente como uma carga. Porquê não se sabe. E o Dasein não pode saber coisa semelhante, porque as possibilidades de ”abrir” de que dispõe o conhecimento permanecem demasiado curtas frente ao ”abrir” originário dos estados de ânimo, nos quais o Dasein é trazido diante do seu ser como ”aí”.” 90
A Befindlichkeit é o fundamento existenciário dos diversos estados de ânimo, ou Stimmungen ônticos, como o medo, a angústia ou o espanto: “O que designamos ontologicamente com o termo afectividade é onticamente o mais conhecido e trivial: a tonalidade afectiva, o estar afinado.” 91
88 „Dasein ist nicht ein Vorhandenes, das als Zugabe noch besitzt, etwas zu können, sondern es ist primär
Möglichsein. Dasein ist je das, was es sein Kann und wie es seine Möglichkeit ist.“ SuZ, GA 2, §31, 143.
89 O projecto é um projecto hermenêutico ou um projecto de constituição de sentido, que desvela e abre
um mundo. Equiparando este projecto de sentido com a verdade, Heidegger pode negar ao conceito de verdade as propriedades de validade universal, necessidade e intemporalidade (Cf.Cristina Lafont,
Lenguaje y apertura del mundo, 188-189).
90 „Das Sein ist als Last offenbar geworden. Warum, weiß man nicht. Und das Dasein kann dergleichen
nicht wissen, weil die Erschließungsmöglichkeiten des Erkennens viel zu kurz tragen gegenüber dem ursprünglichen Erschließen der Stimmungen, in denen das Dasein vor sein Sein als Da gebracht ist.“, SuZ, GA 2, §29, 134.
A importância da afectividade ou do pathos, para a instância da linguagem enquanto discurso persuasivo, era já tema analisado por Aristóteles na Retórica, mas vê-se aqui retomada por Heidegger de um modo muito mais originário: ela é a instância que em primeiro lugar abre o Dasein de um modo inteiramente involuntário e de um modo igualmente decisivo para a totalidade daquilo que é, revelando-o na sua problematicidade. Este estado de aberto em que o Dasein se encontra nos estados de ânimo abre o mundo como um todo e torna possível referir-se a essa totalidade, ou o exercício apropriado de o “In- der-Welt-Sein”.
Este reconhecimento da importância da afectividade como momento estrutural do estado de aberto do Dasein não remete, no entanto, para um irracionalismo, ou para a negação do papel da razão na compreensão do mundo, apelando apenas para a existência de um modo de ”evidência” mais originário que a evidência racional. Na Befindlichkeit, o Dasein encontra-se sempre já num determinado estado de ânimo que o coloca diante do seu aí como enigma. Contudo, a Befindlichkeit remete a maior para das vezes o Dasein para uma fuga a si mesmo, cuja constituição existenciária é designada por Heidegger como ”queda”: “A afectividade não se limita a abrir o Dasein no seu estado de lançado e no seu estado de referido ao mundo aberto em cada caso já com o seu ser; é inclusivamente a forma de ser existenciária em que o Dasein se está entregando constantemente ao ”mundo”, se deixa ”ferir” por este de tal forma que, de certo modo, se esquiva a si mesmo. A constituição existenciária de este esquivar-se ficará clara no fenómeno da queda.”92
A afectividade lança o Dasein para o mundo, fazendo como ele se lhe refira no modo da abertura ou do fechamento. Esta oscilação entre o existir em propriedade e o existir inautêntico, que faz do homem um ser instável e ambíguo, radica neste fundo obscuro de emoções que dominam a sua experiência do mundo. Longe de ser um constructo humano, a experiência vem ao encontro do homem e arrasta-o por razões desconhecidas e de modo inesperado: toda a experiência decisiva arrasta o ser do homem, domina-o,
92
„Die Befindlichkeit erschließt nicht nur das Dasein in seiner Geworfenheit und Angewiesenheit auf die mit seinem Sein je schon erschlossene Welt, sie ist selbst die existenziale Seinsart, in der es sich ständig
transforma-o e é por ele sofrida ”de ponta a ponta”, como se indica no termo grego pathos. É essa condição patológica da experiência que se indica no existenciário da Befindlichkeit e que mais tarde irá ser referida por Heidegger às diversas Stimmungen epocais e relacionadas com o devir da história universal e o obscuro domínio da temporalidade (Zeitlichkeit).
O Verstehen (compreensão) não tem uma dimensão cognoscitiva, mas relaciona-se inteiramente com o conceito existenciário de possibilidade. Compreender como “poder-ser” é o existenciário que corresponde à peculiaridade ontológica do Dasein como ser que não está completo, cuja entidade está sempre por fazer. Ser para a existência humana é sempre poder- ser e este poder-ser tem a estrutura dum projectar (Entwerfen) ou dum estar orientado em direcção a possibilidades. Compreender é, assim, antes de mais, compreender-se, tomando a seu cargo aquilo que se pode ser.
O existenciário da compreensão (Verstehen) corresponde de algum modo à espontaneidade do entendimento em Kant, embora em Heidegger este existenciário não remeta para uma faculdade dos conceitos, mas antes para uma compreensão pré-conceptual, orientada para a significação do mundo como totalidade: “O estado de aberto do compreender abarca, enquanto estado de aberto do por mor de e da significatividade, de maneira igualmente originária o íntegro ser-no-mundo. A significatividade é aquilo sobre cujo fundo é aberto o mundo enquanto tal.” 93
Ora, este “fundo de mundo” é projectado por um compreender que é sempre afectivo, donde resulta que ele se projecta não a partir de uma livre decisão, mas a partir de possibilidades limitadas, previamente circunscritas pelo modo como o Dasein se encontra lançado no mundo. O poder ser da compreensão está entrelaçado com o “já ser” que o limita negativamente, mas que o orienta também positivamente para determinadas possibilidades de abrir o mundo na sua significatividade.94
93 „Die Erschlossenheit des Verstehens betrifft als die von Worumwillen und Bedeutsamkeit
gleichursprünglich das volle In-der-Welt-sein. Bedeutsamkeit ist das, woraufhin Welt als solche erschlossen ist.“, SuZ, GA2, §31, 143.
O conceito de “projecto lançado” implica que o projecto que somos nos escapa sempre, pois nos escapa o início do movimento que no entanto nós mesmos somos, e de que apenas podemos tomar consciência como abrindo possibilidades de ser. O ter sido já lançado constitui o núcleo da facticidade da existência: as possibilidades do meu poder ser são precisamente enquanto fácticas: constituem-se como tal no seio de um estar em situação para que remete o próprio conceito de Da-sein ou de ser-aí.95
O conceito de “projecto lançado” (geworfene Entwurf) tem um papel central em Ser e Tempo, e nele reside a finitude constitutiva do Dasein e da sua possibilidade de intelecção. A ideia de lançamento é a ideia de que o projecto que somos está sempre previamente circunscrito ou orientado por um movimento inicial cuja génese não conhecemos, mas que, por não ser errático, mas direccionado, nos deixa apenas a liberdade para assumir como nossa a possibilidade que nos cabe, cabendo-nos igualmente a responsabilidade de encontrar-nos a nós mesmos nas nossas possibilidades, sempre que de nós mesmos nos extraviamos.96
É este compreender originário que antecipa o conhecimento explícito, abrindo ”onde”, ou “aí” do ser, implicando a totalidade do In-der-Welt–sein. Projectando- se em direcção às suas possibilidades o Dasein abre o mundo como significatividade, e os entes à-mão, adquirem a qualidade de úteis, nocivos, manejáveis, dispondo-se segundo um conjunto de categorias e ordenando-se de acordo com uma finalidade última.