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Mapa I: Senhorios dos infantes D Fernando, D Luís e Ordem do Hospital (Crato):

2.7. A tentativa de casamento com a princesa D Maria

E posto no lugar pareceo mais conveniente a sua pessoa se chegarão há princesa todas as pessoas, que aly estavão, para lhe beijarem a mão, assy Castelhanos como Portugueses, o que acabado, que se fez com muyta ordem e conceitos175.

Em 1613, Francisco d‟Andrade (1540-1614) escreveu em sua crônica sobre D. João III o casamento da então princesa portuguesa D. Maria com o príncipe Filipe, futuro rei de Portugal. No texto, a princesa, que teria sido a rainha de Portugal e Castela, aparece como a concórdia, pacificando portugueses e castelhanos em torno dos reis. D. Luís, que perdeu a disputa, teria demonstrado “clara mostra de obediência e respeito” a vontade régia, dissimulando todo o seu sofrimento pelo fato do acontecimento ser justo e necessário a cristandade. E na festa de casamento, paga por ele, demonstrou toda a sua felicidade e contentamento. Mas as fontes da época mostram-nos que tal cenário não foi como descrito pelo cronista, que agora analisaremos.

A crise dinástica portuguesa teve origem na sucessão de mortes que abateu a família real entre 1537 e 1540. Morreram neste período as irmãs D. Beatriz (1538), a imperatriz D. Isabel (1539), seus dois irmãos D. Afonso (1540) e D. Duarte (1540), e quatro filhos de D. João III: D. Dinis (1537), D. Manuel (1537), D. Filipe (1539) e D. Antônio (1540). O infante D. Henrique era religioso e não podia se casar; o príncipe D. João mostrava sinais de saúde frágil.

A partir de então D. Maria foi considerada como a virtual herdeira do trono e, consequentemente, o seu esposo seria o rei de Portugal. Foi a esta conclusão que o embaixador de Carlos V, Luís Sarmiento, rapidamente chegou, pois sabia que era uma oportunidade de casar o então príncipe Filipe com a D. Maria e, desta forma, unindo os reinos de Castela e Portugal. Mas também observou que a corte portuguesa se encontrava dividida já que “geralmente hablan en que la havian de casar com el Infante Don Luis (...). Mas el Rey y La Reyna se yo que estan em extremo afficionados al príncipe nuestro Señor”176.

Esta divisão da corte em torno do casamento de D. Maria teve grande importância, pois é o momento em que o infante D. Luís parte para o enfrentamento

175 ANDRADE, Francisco de. Chronica do muyto alto e muyto poderoso rey destes reynos de Portugal

dom João o III deste nome. Coimbra: Na Real officina da universidade, 1796. Tomo III, p. 414.

176 Carta de Luís Sarmiento à Cobos. Lisboa, 21 de março de 1540. In: DESWARTE-ROSA, Sylvie, op.

91 político contra D. João III e D. Catarina. Tal acontecimento político deve ser entendido como o verdadeiro começo da crise dinástica de 1580.

Deswarte-Rosa afirma que estando em jogo o próprio reino, o infante D. Luís começou a acreditar que somente ele poderia salvar o reino, casando-se com a sua sobrinha e aceitando o sacrifício da mesma forma que fez no ataque Turco à Índia. A população também o via da mesma forma. Somente o herói de Túnis poderia salvar o reino das mãos de Castela. Desta forma, a população projetou suas esperanças no infante D. Luís, que, como observou Sarmiento, valeu-se disso como um instrumento para impedir o casamento177. Além do apoio popular, o infante D. Luís facilmente mobilizou os grandes do reino para a sua causa, mesmo que o rei e a rainha estivessem conscientes e contrários. A crise dinástica mostrou assim sua face pela primeira vez: o reino corria o risco de uma guerra civil pela coroa178.

Foi um período muito difícil em Portugal, no qual se instalou uma verdadeira guerra entre os partidários do infante D. Luís e da rainha D. Catarina, a maior defensora da união entre Portugal e Castela. Entre 1542 e 1543 o assunto predominante no conselho Real foi o casamento da princesa D. Maria. “Dous anos havia que se altercava a matéria quási cada dia” sem chegar a qualquer resolução179.

Um dos momentos mais dramáticos foi relatado por Sarmiento, que a partir de uma confissão secreta feita pela própria rainha D. Catarina “saltando le las lagrimas”. De acordo com ela, durante um conselho real, o conde de Vimioso e o duque de Bragança foram utilizados pelo infante D. Luís para pressionarem o rei a casar sua filha com ele. A resposta de D. João III foi furiosa:

El infante sienpre me dixo contrario. Agora que ve y que se me na muerto mis hijos, dira eso por ganar las voluntades desos y para que se pusiensen em procurar comigo para que yo Le casase com mi hija, pensando que a de herdar este reyno180.

Não houve paz no reino até o momento em que a princesa D. Maria cruzou a fronteira com Castela. As fontes revelam-nos que até mesmo a comitiva escolhida para

177 Carta de Luís Sarmiento à Cobos 11 de maio de 1541 In: DESWARTE-ROSA, Sylvie, op. cit., 1991,

Anexo III, Doc. 35.

178 Carta de Luís Sarmiento à Cobos Lisboa 24 de Novembro de 1540. In: DESWARTE-ROSA, Sylvie,

op. cit., 1991, Anexo III, Doc. 33.

179 SOUSA, Luiz de, op. cit.,1938, Vol.II, p. 216. Um dos argumentos usados para apoiar a causa do

infante D. Luís, conforme apontado por Frei Luís, era que o casamento entre ambos pouparia à Coroa das enormes despesas que, devido a terrível situação financeira, não permitia gastos elevados.

180Carta de Luís Sarmiento à Cobos, 19 de agosto de 1540. In: DESWARTE-ROSA, Sylvie, op. cit.,

92 receber a princesa teve problemas. Do reino vizinho, foram selecionados para receber a princesa portuguesa D. Juan Martinez Silicce, bispo de Cartagena (e que depois viria a ser arcebispo de Toledo) e também o duque de Medina Sidonia. Em seu trajeto até a fronteira portuguesa, durante a passagem por Salamanca, um português questionou os homens que a compunham comitiva, pois não eram dignos de receber a sua rainha. O que provocou uma grande discussão, que logo degenerou para uma troca de insultos, e terminando com um estudante de Salamanca “sentada una cuchillada en la cabeza” do português181.

Durante a entrega em Badajoz ocorreu o momento mais tenso: o autor deste relato afirma que “estuvo á ponto de correr riesgo la entrega”. Disputas entre os nobres pelas posições ocupadas na hora da entrega e uma troca intensa de “correos y mensages com ofrecimientos de partidos” deixou a todos temerosos que algo de errado pudesse ocorrer, e de fato aconteceu. Estando a postos as duas comitivas a princesa não era entregue aos espanhóis:

Perdo dentro de uma hora no quedo repuesto ni português en todo Badajoz, especialmente cuando vieron volver al Duque y al obispo y al regimento sin la Princesa, lo cual les acrecentó La turbacion, y fué causa de escândalo de toda La gente, ansi de una parte como de La outra, y comenzáros á decir muchas novedades y envenciones y mentiras: los unos decian que era muerto el Príncipe de Portugal y que esto no La entregaban, y otros quo La Princesa se habia de volver á Lisboa para casar com el Infante D. Luis, (...).

Foi uma noite de grande medo em Elvas: pessoas fidedignas, nos dizeres do autor, relataram que a princesa e nem dama alguma não dormiram com a terrível confusão. O autor também notou que a própria entrega era diferente, pois sempre foi o infante D. Luís que acompanhou e recebeu as princesas e rainhas – e ele era o grande ausente na cerimônia:

Y así pasaron aquella noche en Elvas con gran sobresalto y congoese de lo pasado, y algunos habia que juraban á Dios que no La habian de dar que si fuera para algun fillo bastardo de Deus que pasara, pero que tanto por tanto que ahí estaba o Infante con quien todo el reino queria que se casase, y que ninguno Del habia sido llamado para dar parecer

181Relacion del recibimento que se hizo á Doña María, Infanta de Portugal, hija de D.Juan el tercero y de

Doña Catalina, hermana Del Emperador Carlos V, cuando vino á España á desposarse com Felipe II em el año 1543. In: Co.Do.In., Vol. III, p. 369.

93 de que viniese á Castilla, como se acostumbra siempre em estos casos182.

Todas as fontes parecem apontar para o mesmo fato: a população não aprovou o casamento, que deveria ser realizado com o infante D. Luís. Mesmo Pero de Alcaçova Carneiro não conseguiu disfarçar o ocorrido ao afirmar que “No casamento da Prinçesa de Castella filha Del Rey que Deos tem, que sendo comum opnião, e quase dos mais do Conselho que El Rey a casasse com o Infante e não em Castella183. Só que aqui, apesar do sofrimento, D. Luís obedeceu à vontade do irmão que ainda pagou todas as enormes despesas do casamento entre a princesa D. Maria e Felipe de Espanha e ainda “se mostrou contente nos prazeres deste casamento”. Era o texto de Carneiro que Francisco d‟Andrade se valeu naquele contexto, servindo agora aos propósitos da Coroa castelhana.

Em suma, pelo que demonstramos, o comportamento do infante D. Luís era um exemplo para todos e, desta forma, podemos facilmente perceber porque o infante é empregado nos discursos antonistas de forma tão frequente: O infante D. Luís foi o grande opositor à união dinástica.

182 op. cit. In: Co.Do.In., III p. 363-418.

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