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A continuidade da corte do infante D Luís e o antonismo

Mapa I: Senhorios dos infantes D Fernando, D Luís e Ordem do Hospital (Crato):

2.8. A continuidade da corte do infante D Luís e o antonismo

Em 29 de agosto 1593 deram-se as “Alterações da Beja”, quando surgiram nas portas da catedral e outras igrejas papéis que provavelmente conclamavam a população para que se levantasse e buscasse o outro rei, ou seja, D. Antônio. O local escolhido foi justamente aquele que D. Luís tinha embelezado com as suas construções184.

Este exemplo parece-nos reforçar a tese de que existiu uma continuidade simbólica entre D. Antônio e o infante D. Luís. Mas, o que é necessário agora esclarecer é se tal continuidade também existiu no nível dos próprios agentes políticos envolvidos, tanto na corte do infante D. Luís, como aqueles que lideraram o movimento antonista.

Como já apontamos, as relações da corte do infante D. Luís ainda aguardam estudos mais aprofundados capazes de uma efetiva reconstituição daquele espaço, coisa que aqui não temos condição de realizar, mas podemos detectar ao menos elementos que comprovem esta continuidade, mas sem capacidade de dimensioná-la corretamente185.

Podemos afirmar que toda a alta cúpula do movimento antonista possuía ligação com a corte do infante, sendo que devemos começar pela família Portugal.

Frei Luís de Sousa afirma que D. Francisco de Portugal, 1° Conde Vimioso, foi contrário à cláusula do casamento de que caso D. João III viesse a morrer, sem deixar filho varão, a princesa D. Maria seria a herdeira do reino. O conde de Vimioso teria reclamado que tal assunto não era negociável entre as partes, pois a sucessão do reino era matéria da justiça186. Argumento jurídico repetido em 1580 pelos braços populares. A ligação entre os interesses das duas famílias repete-se na expedição de Túnis de 1535 quando seu filho D. Afonso de Portugal, 2° Conde de Vimioso, aos 16 anos, participou do grupo de fidalgos desobedientes que seguiram o infante D. Luís para a guerra. Sua carreira foi brilhante, substituindo o seu pai na corte e depois seguindo D. Sebastião. Foi morto na batalha de Alcácer-Quibir (1578). Seus filhos foram todos seguidores de D.

184 BOUZA-ÁLVAREZ, Fernando. Portugal no Tempo dos Filipes – Política, Cultura, Representações

(1580-1668). Lisboa, Edição Cosmos, 2000, p. 140-141 e 145.

185 Utilizaremos aqui o já citado Lembranças dos moradores da Casa do Infante D.Luiz, tirada do livro

do anno de 1555 em que elle faleceo (...). In: SOUSA, D. Antônio Caetano de. Provas da História Genealógica da Casa Real Portuguesa. Tomo II Parte II Coimbra: Atlântida Livraria Editora, 1947, p.

109-111. A partir desta lista, procuramos cruzar os dados já obtidos com o exaustivo trabalho de listagem de todos os membros do movimento antonista de Joaquim Veríssimo Serrão, em especial, os presentes durante a aclamação de D. Antônio que assinaram um documento confirmando o ato. Além de algumas novas ligações obtidas a partir de outras duas listas, o já conhecido Rol de amigos (...). In: ibidem, p. 173- 175 e o das Dividas que tenho despoes de Rey do que não era da Coroa (...). In: ibdem, p. 160-167.

95 Antônio, sendo o seu braço direito D. Francisco de Portugal, o 3° Vimioso, além de seu irmão D. Luís de Portugal e de dois de seus primos: D. João de Portugal, bispo da Guarda, um dos principais articuladores do prior do Crato, e D. Afonso de Portugal187.

Outra família importante são os Botelhos.

Os Botelhos possuem ligações com a família real desde o reinado de D. João II. Diogo Botelho foi um dos principais seguidores de D. Antônio, sendo seu procurador perante o cardeal-rei D. Henrique, chegando a ser preso por isso. Sua família, assim como os Portugais, também apoiou a causa do prior do Crato e possui origens na corte do infante D. Luís. Embora a sua genealogia seja bastante confusa, é preciso aqui corrigir um erro gerado pelo grande número de homônimos desta família. O famoso Diogo Botelho, que foi governador do Brasil em 1602 e depois acusado de promover orgias sodomíticas, era o Diogo Botelho, o jovem, filho de Francisco Botelho, Capitão de Tânger e Embaixador de Roma que, por sua vez, era filho de Diogo Botelho, o velho, que serviu como Porteiro Mor ao infante D. Luís. Este Diogo Botelho, o jovem, chefiou o castelo de Setubal contra as forças de Filipe II, sendo derrotado e preso, obtendo a liberdade graças à intervenção de Nuno Álvares Pereira, seu sogro. Já o Diogo Botelho que foi procurador de D. Antônio era primo deste Diogo Botelho, o jovem. Esse Diogo Botelho era filho de Pedro Botelho, irmão de Francisco Botelho, que também pertencia à corte do infante D. Luís. 188

D. João de Castro foi um dos nobres que seguiram o infante D. Luís na batalha de Túnis, participando do grupo de D. Afonso de Portugal. Além de amigo muito próximo do infante D. Luís, participou ativamente das pesquisas desenvolvidas na corte deste príncipe, sendo por indicação direta do infante D. Luís que chegou a ser nomeado vice-rei da Índia. Seu neto bastardo, D. João de Castro, foi igualmente seguidor do D. Antônio, prior do Crato, porém, após as sucessivas derrotas, virou-se para a crença do retorno de D. Sebastião.

Outro alto membro do movimento antonista foi o seu procurador durante o julgamento da legitimidade de D. Antônio, D. Francisco Pereira, que teria servido ao

187 SERRÃO, Joaquim Veríssimo. O Reinado de D.Antonio, Prior do Crato. Vol. I (1580-1582).

Coimbra: 1956, p. 26.

188 O excesso de homônimos levou a uma verdadeira confusão a respeito deste Diogo Botelho que

governou o Brasil. Para maiores esclarecimento, ver SERRÃO, Joaquim Veríssimo, op. cit., 1956, p. 27, nota 69 e, principalmente, SOUSA, D. Antônio Caetano de. Memorias Historicas, e genealógicas dos

grandes de Portugal. Lisboa: Oficina Sylviana, 1755, p. 415-417 e COSTA, P. Antonio Carvalho da. Corografia Portugueza e descripçam Topografica. Tomo I. Lisboa: Valentim da Costa Deslandes. 1706,

96 infante D. Luís como escrivão da puridade189 e ajudado na sua criação190. Seus dois filhos D. Manuel e D. Antônio Pereira assinaram um documento que confirmavam a aclamação de D. Antônio191. Ainda temos muitos exemplos de membros do movimento antonista não tão conhecidos, mas que reforçam esta continuidade.

O padre João Rodrigues de Vasconcellos, portador da carta de D. Antônio de 20 de junho para a Universidade de Coimbra, é citado como moço fidalgo da casa do infante D. Luís. Era irmão de Ruy Mendes de Vasconcellos, primeiro conde de Castelo Melhor, prior da Louzã e colegial de S. Pedro192.

Outros que assinaram o documento de confirmação da aclamação de D. Antônio eram: D. Antônio Pedro de Anaia, possivelmente filho de Manoel d´Anaya, fidalgo escudeiro da corte do infante D. Luís193; Garcia Afonso de Beja, moço fidalgo da corte do infante D. Luís, que era filho de João Rodrigues de Beja Veador, fidalgo cavaleiro da casa do infante194; seu pai também é citado por D. Antônio como um de seus colaboradores195. Estes exemplos não esgotam todas as possibilidades, comparando a lista de fidalgos da casa do infante D. Luís e as listas de apoiadores de D. Antônio fica evidente que além de alguns homônimos, que não podemos ter certeza de ser a mesma pessoa, também há uma incidência muito grande de certas famílias como Botelhos, Menezes, Beja, Tellez e Pereira.

O antonismo, portanto, não parece ser fruto tão somente da crise dinástica, mas tendo raízes mais profundas e uma duração mais longa do inicialmente se supunha.

189 SOUSA, D. Antônio Caetano, op. cit., 1947, p. 109.

190 VELLOSO, J.M. Queiroz. Cap. XVI – O Interregno – in. PERES, Damião (dir) Historia de Portugal.

Edição monumental comemorativa do 8° centenário da fundação da nacionalidade. Barcelos: Portucalense Editora, 1938. Vol. V, p. 190-191.

191 SERRÃO, Joaquim Veríssimo, op. cit., 1956, p. 28.

192 SERRÃO, Joaquim Veríssimo, op. cit., 1956, p. 29-30 e SOUSA, D. Antônio Caetano, op. cit., 1947,

p. 110.

193 SERRÃO, Joaquim Veríssimo, op. cit., 1956, p. 29. 194 SOUSA, D. Antônio Caetano, op. cit., 1947, p. 110. 195 Ibidem, p. 163.

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Capítulo III

A Trajetória de D. Antônio, prior do Crato (1531-1578)

É uma boa palavra essa: “legítimo”!

(SHAKESPEARE, William.

Rei Lear. Trad. São Paulo: Abril,

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3.1. “E agora, aja Deus pelos bastardos!”

Na peça Rei Lear, Shakespeare nos apresenta a história de um rei idoso, a beira da loucura e sem herdeiros varões, obrigado a dividir o reino entre os pretendentes de suas filhas. Neste cenário, Edmund, filho bastardo do conde de Gloucester, trama secretamente tomar o poder, mesmo que para isso tenha que enganar o seu próprio pai, trair o seu irmão legítimo e manipular as princesas. A seu ver, era uma forma de reparação, pois “Sem berço, mas esperto, pego a terra.”!196.

A personagem de Shakespeare serve como introdução para entendermos a forma pela qual eram percebidos os ilegítimos naquela sociedade. Na Idade Moderna, a hierarquia social era entendida como um fato da natureza e ordenado por Deus, em que cada indivíduo tinha uma posição definida na sociedade e qualquer possibilidade de mudança de estado encontrava-se sob controle rígido de poucas autoridades197. Os bastardos, frutos de relações proibidas e geralmente entre pessoas de desigual posição social, eram percebidos como uma fonte de instabilidade da ordem social, por dois motivos: primeiro porque não era possível estabelecer uma diferença clara entre os legítimos e ilegítimos, pois além de não existirem sinais externos198, muitas vezes cresciam ao lado dos filhos legítimos, produzindo somente na herança uma diferenciação199; segundo, que desprovidos de herança, os ilegítimos eram forçados a buscar por todas as maneiras a sua ascensão social, colocando muitas vezes em confronto as qualidades e o mérito individual contra a herança e as virtudes herdadas200.

A trajetória de D. Antônio foi percebida pelos seus contemporâneos justamente como algo ameaçador, e a sua pessoa, como alguém de caráter inconstante, ambicioso e nunca satisfeito com o que lhe foi dado. Tal percepção não deve ser confundida com a sua personalidade – era de se esperar que alguém tido como ilegítimo fosse associado a

196

SHAKESPEARE, William. Rei Lear. Trad. São Paulo: Abril, 2010, p.271, p.24.

197 HESPANHA, Antônio Manuel. A mobilidade social na sociedade de Antigo Regime. In: Tempo, 2006,

vol.11, n°.21, p. 123.

198 Shakespeare, ao tomar voz de Edmund, certamente registrou um questionamento comum: “Bastardo?

Inferior?/ As minhas proporções são tão corretas,/ Minha mente tão fina, boa a forma,/ Quanto o produto da madame honesta. In: SHAKESPEARE, William, op.cit., 2010, p.264-265.

199 ELIAS, Nobert, O processo civilizador. Vol. I. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994, p. 182-183. 200 Na peça, este aspecto é simbolizado pelo desprezo de Edmund pela Astrologia, que representa a ordem

oculta do mundo que em momentos de crise servia como guia para compreender as ações de Deus, mas que para o bastardo era “a grande tolice do mundo, a de que quando vai mal nossa fortuna – muitas vezes como resultado de nosso próprio comportamento – culpamos pelos nossos desastres o Sol, a Lua e as estrelas (...)”In: SHAKESPEARE, William, op.cit., 2010, p.269.

99 todos os tipos de perturbação da ordem – e a sua pretensão à coroa era a expressão máxima de sua condição. As próprias fontes revelam a dificuldade que aquela sociedade teve em entendê-lo, pois as descrições de D. Antônio sempre acabam em pares opostos: legitimo/ilegítimo, nobre/clero, religioso/pecador, cavaleiro/teólogo, rei/tirano, entre outras. No entanto, se esta indeterminação social era algo terrível para os homens daquela época, para os historiadores oferece talvez a única forma de compreender a sua trajetória social.

Neste capítulo, procuraremos estudar a trajetória social deste indivíduo dentro da sociedade quinhentista portuguesa, reconstituindo a etapa da vida anterior a crise dinástica. Pretendemos observar quais eram os objetivos da família real em relação a D. Antônio durante o século XVI, momento de profundas transformações na Europa e em Portugal. Com a divisão da cristandade e a nova situação em que o reino se encontrava após a expansão marítima, muitos caminhos e possibilidades políticas estavam disponíveis aos dirigentes do reino, que precisavam escolher os rumos deste império ultramarino, assim como a sua posição no jogo político europeu.

D. Antônio, talvez mais do que qualquer outro nobre português, estava no centro de todas estas profundas transformações. O fato de ser considerado ilegítimo ao mesmo tempo em que era o único filho do infante D. Luís seria o suficiente para reconhecer nele um papel singular na política portuguesa quinhentista, mas, naquele momento, D. Antônio foi uma peça fundamental de um jogo político que se desenhava desde o começo do século XVI. A família real necessitava de membros ocupando lugares chaves na Igreja no momento das reformas do ensino e da vida religiosa, o infante D. Luís, após abandonar os seus sonhos de ser rei, encontrava na manutenção da ortodoxia da fé um novo projeto tanto de vida como para o reino. Por sua vez, as forças de oposição, descontentes com a política régia acreditavam que o filho do infante D. Luís poderia exercer um papel de liderança na corte.

D. Antônio, devido a sua posição singular naquela sociedade, tinha um papel importante a desempenhar em cada um destes projetos políticos. Mas justamente devido ao fato de não ter um lugar definido naquela sociedade, ele busca o único papel que considera digno de sua pessoa: a do infante D. Luís.

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