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Os projetos políticos da corte do infante D Luís

Mapa I: Senhorios dos infantes D Fernando, D Luís e Ordem do Hospital (Crato):

2.6. Os projetos políticos da corte do infante D Luís

teve el Rei [D. João III] seu irmão sempre em muita conta, tanto que nenhuma cousa fez, nem tratou, das que tocavam aos negócios da guerra, e da paz, como do governo do regno, e de sua fazenda que não fosse por seu conselho, e parecer nem tão somente era presente a todos estes negócios, mas ainda aos despachos dos officios, honras, e mercês que el Rei dava, e fazia a todos seus moradores, e vassalos no que a todos eram delle tão favorecidos, que igualmente lhe Davao por isso as graças, e lhe beijavão a mão, como a mesma pessoa Del Rei165.

Este escrito de Damião Góis reflete como aquela sociedade foi marcada pelo senso de hierarquia e de um esforço por definir a exata posição de cada um de seus membros, que deveria refletir nos espaços de vivência comum. Qualquer sinal ou gesto que não fosse condizente com a hierarquia social era fonte de conflitos. Daí o enorme cuidado exigido daqueles responsáveis pelo cerimonial.

Então, o que vemos acima não era apenas a reverência do escritor para o seu senhor, mas o reflexo de uma situação real de sobreposição entre o infante D. Luís e a de D. João III, revelando uma tensão entre ambos – que foi uma das mais importantes dinâmicas políticas em Portugal da primeira metade do século XVI.

Esta confusão na representação dos poderes era assaz perigosa, pois colocava em dúvida a autoridade do próprio Rei e, como observamos diversas vezes, ele foi seguido pela nobreza em clara desobediência ao monarca. Sua atuação, como os emissários da Igreja descreveram, era de um “homem violento, que influía assaz nos conselhos do rei seu irmão pela audácia com que intervinha nos negócios públicos.”166. Neste caso, o segundo topos identificado, o da obediência à Coroa, também se esclarece, pois na verdade o infante D. Luís foi um risco permanente para a coroa portuguesa e nunca existiu esta lealdade incondicional à Coroa.

O grande projeto de vida do infante D. Luís foi o de obter um reino para si. Embora, em última instância, ele fosse príncipe herdeiro de Portugal, esta era uma possibilidade remota. A Europa oferecia naquele momento maiores possibilidades para um jovem príncipe – a expansão dos impérios ibéricos dava boas chances para alguém com um espírito ousado obter prestígio e poder.

A primeira tentativa séria, e também a mais obscura, foi uma opção bastante tradicional dentro da família real portuguesa: o norte da África. Seguindo o exemplo de

165 GÓIS, Damião, op. cit., 1909, p. 85.

87 outros infantes, seu primeiro projeto foi o de conduzir uma expedição até Arzila em 1530167. À primeira vista, o infante procurou conciliar o objetivo estratégico português de defesa das praças africanas com o seu interesse de obter um capital simbólico através de uma vitória sobre as forças mulçumanas. Embora o caso do infante D. Luís seja diferente do restante da nobreza, é evidente que se aproxima da situação dos filhos segundos que deveriam buscar seu prestígio no império ultramarino168. De acordo com o conde de Vimioso José Miguel teria Diogo de Torres, autor de uma “História dos Xerifes”, o infante e uma princesa do Marrocos mantiveram uma correspondência amorosa e política – na qual ela oferecia inclusive ajuda financeira – para que o infante viesse e conquistasse o reino de Marrocos169.

Esta expedição não teve sucesso possivelmente pelos mesmos motivos que mais tarde o impediram de ir à Índia: o risco de D.Luís se aproveitar da situação e formar um novo reino, como temiam os membros da corte real como a rainha D.Catarina.

A frustração do Marrocos deu sinais de que ele deveria optar por uma ação mais radical, desobedecendo D. João III se fosse necessário. A expedição de Túnis de 1535 marcou o início de uma nova estratégia em que buscou ganhar glória e fama para possuir reconhecimento nas cortes europeias, visando obter um bom casamento. A estratégia foi mais do que bem sucedida, caindo nas graças de Carlos V após Túnis.

O imperador se empenhou em ajudar o infante D. Luís a conseguir o seu próprio domínio. Escrevendo a sua mulher, a imperatriz Isabel, irmã do infante Carlos V, reflete sobre três possibilidades diferentes: o ducado de Milão, o trono da Inglaterra ou o controle de Argel no norte da África170. De todas estas possibilidades, nenhuma era mais cara ao infante do que o ducado de Milão. Teatro privilegiado de ações militares, a península Itálica permitiria ao belicoso príncipe um espaço para futuras ações em conjunto com Carlos V contra o Império Otomano – para este também era interessante ter um homem leal e de reconhecida competência militar em um local estratégico na guerra contra o infiel.

167 “O fervor militar e religioso de alguns homens estantes no Norte da África, como Gonçalo Mendes

Sacoto, parece atingir em 1530 maior exaltação com a perspectiva de uma intervenção pessoal do Infante D.Luís naquelas terras (em cuja determinação vê a vontade de Deus” CRUZ, Maria Leonor García. As controvérsias ao tempo de D.João III sobre a política portuguesa no Norte de África. In: Mare Liberum. Junho de 1997, nº13, p. 135.

168 THOMAZ, Luís Filipe F. R. De Ceuta a Timor. Lisboa: Difel, 1994, p. 205. 169 PORTUGAL, D.José Miguel João de, op. cit.,1735, p. 22-24.

170 Carta de Carlos V a imperatriz D.Isabel. Nápoles, 20 de fevereiro de 1536. In: DESWARTE-ROSA,

88 Deswarte-Rosa desvenda bem toda a articulação que a corte do imperador Carlos V, e do próprio infante D. Luís, realizaram para conseguir para este príncipe um reino próprio, e, dessa forma, não entraremos em detalhes sobre as diferentes etapas das negociações. Porém, todas fracassaram por uma série de motivos. O ducado de Milão, que esteve muitas vezes próximo de ser obtido, tornou-se problemático à medida que virou moeda de troca nas negociações entre Carlos V e Francisco I em suas guerras e negociações de paz; também existiu certa dose de ingenuidade do infante D. Luís a respeito da sua amizade com Carlos V, pois o imperador sempre teve como prioridade os interesses políticos de seu império assim como do seu filho Filipe II e, evidentemente, que os interesses do infante D. Luís eram secundários e estavam à mercê das necessidades práticas.

Um bom exemplo é quando surge a oportunidade de casamento entre a princesa D. Maria e Filipe II. Existindo a possibilidade de obter a união dos reinos, tornou-se urgente tirar o infante D. Luís da disputa, revivendo a possibilidade de casamento com Maria Tudor da Inglaterra171. Morta a princesa portuguesa em 1545, surgiu em 1553 uma nova oportunidade de casamento entre Maria Tudor e Felipe II, do qual D. Luís tentou obter a mão da princesa, mas a hábil diplomacia castelhana conseguiu afastá- lo172.

É difícil identificar a verdadeira intenção da família portuguesa em relação aos projetos de casamento do infante. Obviamente que D. Luís deveria se casar, mas tal empreendimento também era uma ameaça, pois colocava o processo de centralização da coroa portuguesa em risco, já que sua vasta herança, em especial o priorado do Crato, poderia cair em mãos de um futuro herdeiro estrangeiro. Caso o infante morresse sem herdeiros legítimos, a coroa daria um passo fundamental para o efetivo controle de todo território português.

A família real impediu os planos do infante, tanto no Marrocos quanto na Índia. E voltaria a impedi-lo no episódio da sua fuga para Barcelona e depois para a França em que D.Luís tentaria obter, com o intermédio de Carlos V, algum casamento com a casa real da França. D. João III decretou que o infante D. Luís deveria imediatamente retomar ao reino173. Tal episódio foi mais que uma manobra para impedir um casamento

171 Carta de Luís Sarmiento a Francisco de Cobos, 21 de janeiro de 1540. In: DESWARTE-ROSA,

Sylvie, op. cit., 1991. Anexo III, Doc. 27, p. 293-294.

172 BRAUDEL, Fernand. Mediterrâneo e mundo mediterrânico na época de Filipe II. Vol. II. Lisboa:

Martins Fontes, 1984, p. 307-308.

89 contrário ao interesse da Coroa, mas sim uma humilhação pública planejada para que ficasse claro a quem o infante D. Luís devia obediência.

Pois a tensão entre ambos deveria causar enorme incômodo em toda a sociedade portuguesa, além de confusão nas demais cortes que não sabiam quem realmente mandava em Portugal. A Igreja não tinha dúvidas de que o infante D. Luís era um agente de Carlos V e representava a sua voz na corte portuguesa. A própria corte portuguesa ficou em dúvida, como D. Pedro de Mascarenhas que não sabia se servia o infante D. Luís ou D. João III174.

A partir de 1538 a relação entre os irmãos entrou no momento mais tenso. O infante D. Luís agiu de maneira desesperada, chegando a propor planos junto a Carlos V para desafiar o seu próprio irmão e reaver o seu prestígio ferido após o fracasso de sua visita à França. Pretendia que Carlos V o convocasse publicamente para alguma campanha contra o infiel e assim colocar seu irmão em uma situação delicada, não podendo negar o pedido do imperador, que prudentemente preferiu não levar adiante os planos ousados do infante D. Luís.

Fracassados todos os projetos, restou Portugal.

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