2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.4 DEFINIÇÃO DE DOCUMENTO
2.4.3 A teoria do documento
Lund (2009) aponta que os estudos sobre o documento pelos autores da Ciência da Informação levam à criação do que ele chama de “Teoria do documento”. Na busca por uma teoria, ocorre a valorização das ideias de Otlet e Briet, que são traduzidos, citados e estudados como alternativas de respostas para as questões
atuais relacionadas à definição de documento na biblioteconomia e na Ciência da Informação, com destaque para os trabalhos de Buckand e Hahn (1998, 1997), Buckland e Liu (1995) e Frohmann (2000). Esses trabalhos, por um lado, refletem a procura por um conceito contemporâneo de documento e documentação, no âmbito da Ciência da Informação e, de outro, nos estudos que abordam as tecnologias da informação. A era do computador possibilitou, em larga medida, a concretização do sonho de Otlet.
Na busca por uma teorização do conceito de documento, podem ser citados os trabalhos de Buckland, com destaque para o artigo Information as thing (1991), em que o autor questiona o foco dado à dimensão subjetiva da informação. Estabelece distinção entre a informação considerada como processo, conhecimento e coisa, destacando este último aspecto como o mais significativo para a Ciência da Informação, em especial porque é referida condição que justifica a existência dos sistemas de recuperação da informação. Buckland destaca claramente a influência de Otlet e Briet na construção de sua argumentação. De fato, quem primeiro tratou o documento como objeto ou coisa foi Briet, em seu livro sobre a documentação.
Em outro trabalho de Buckland, What is a document? (1997), são revistos vários conceitos de documento que apontam também para as questões relacionadas à sua criação. O autor afirma que o documento é uma construção social e que a percepção dos seus elementos e componentes não pode ser dela dissociada.
Na visão contemporânea, portanto, enfatiza-se a construção social de sentido, fato que pode evidenciar o caráter do documento como prova. Essa mudança de olhar, da fisicalidade do documento para o contexto social de sua criação, evidencia a importância da linguagem e da tradição semiótica de interpretação dos signos.
No trabalho Document theory: an introduction, Buckland (2013) destaca as bases da teoria documental, em que o documento é percebido e reconhecido por seus vários aspectos:
a) aspectos fenomenológicos − os documentos são entendidos, enquanto objetos, como algo que significa, e o estado de ser documento não é inerente, próprio ou essencial, mas atribuído a um objeto (documento), sendo o significado sempre construído pelo espectador;
b) os códigos culturais − todas as formas de expressão comunicativa dependem de entendimento compartilhado pelo grupo social, as quais podem ser pensadas como linguagem em sentido lato;
c) tipos de mídia – as formas de expressão variam: podem ser textos, imagens, números, diagramas, arte, música, dança, etc.;
d) mídia física − tabuletas de argila, papel, filme, fita magnética analógica, cartões perfurados, mídia digital, e assim por diante.
Assim, para ser um documento, ele deve ser considerado por alguém como tal, no interior de um código cultural, com os aspectos físicos de tipo e gêneros e suas combinações culturais e históricas definidas.
Buckland identifica, ainda, três aspectos que precisam ser explorados na definição de documento, na Ciência da Informação:
a) Visão convencional, ou visão material − rotineiramente, muitos objetos tornam-se documentos, materializados em registros gráficos, em textos, feitos em papel ou similar que, identificados como relevantes, são armazenados, distribuídos e acessados.
b) Visão funcional − quase tudo pode ser documento: maquetes, brinquedos educativos, coleções de história natural. Vestígios arqueológicos podem ser incluídos nesta categoria. Existe a preocupação do acesso aos elementos de prova para que os objetos possam tornar-se documentos.
c) Visão semiótica − qualquer coisa pode ser considerada documento se for evidência de algo, independentemente da vontade do criador. Assim, os aspectos simbólicos, de significação e interpretativos são necessários para a efetiva criação, organização e uso do objeto que se torna documento.
Buckland (2013) enfatiza que a literatura sobre o tema destaca os aspectos inerentes ao documento, sendo necessário, porém, ter uma visão geral em relação aos documentos. Para isso, pode-se recorrer à retórica, à semiótica e a campos mais especializados, como a psicologia educacional, a hermenêutica. Destaca, ainda, os estudos relacionados à comunicação e os aspectos que envolvem o documento e o processo de comunicação.
Lund (2009) finaliza sua revisão citando os aspectos que ainda merecem ser abordados quando se fala de documento e da definição da teoria social do documento, como segue:
a) a teoria do documento pode ter uma definição ampla e incorporar diferentes tipos de mídias e situações sociais, tendo a sociologia e a filosofia como bases de sustentação;
b) pode-se ter uma definição estrita, considerando os aspectos linguísticos da mensagem escrita ou falada, o que é relevante para o desenvolvimento das bases teórica para o gerenciamento de documentos na Ciência da Informação (inspirados na disciplina Documentação e na análise e crítica dos trabalhos de Briet e Otlet);
c) os processos documentais são coletivos e necessitam de diferentes meios e tecnologias para existirem;
d) intensificar os estudos interdisciplinares entre Documentação e Comunicação; e) estudar a diversidade de materiais e a vasta gama de problemas relacionados aos processos de documentação e registros resultantes do trabalho com o documento: o nível geral, o específico e o de conteúdo.
Com relação à teoria do documento na era digital, os aspectos a serem enfatizados são:
a) as discussões em torno da garantia de materialidade e da estabilidade do documento digital para promover a comunicação, a acessibilidade, a recuperação, seus usos ou reusos;
b) a definição de documento em meio digital passa pela compreensão de diferentes níveis de materialidade: o trabalho de fazer o documento digital (computação), o texto em si e o documento;
c) as questões relacionadas à definição de documento original, tendo em vista as ligações possíveis a partir das tecnologias e as diversas intervenções que um texto pode ter a partir do uso e interpretações;
d) o foco no documento como um produto semiótico transcrito ou registrado em uma estrutura perene, que o carrega com atributos específicos para facilitar as práticas associadas com a sua utilização em uma estrutura que permite as transações de comunicação e distribuição através do espaço e do tempo.