3 O PROCESSO DECISÓRIO ESTRATÉGICO
3.3 A TOMADA DE DECISÃO DO DIRIGENTE DA ICC-SE
3.3.1 A tomada de decisão frente ao risco e a incerteza
A Tomada de Decisão, a incerteza e o risco são conceitos que têm sido abordados por diversos pesquisadores das mais diversas áreas, tais como economia, administração, psicologia, filosofia, sociologia, matemática e outras, com um caráter descritivo ou prescritivo (MILLER, 1999), porém não sendo encontrado trabalho abordando tal assunto na área da ICC, somente alguns trabalhos na área de engenharia de produção como o de MINETO (2005).
A palavra risco tem seu primeiro registro no século XIV. Inexistia em grego, em árabe e no latim clássico. Tem registro em espanhol desde o século XIV, mas ainda sem a clara conotação de “perigo que se corre”. É no século XVI que adquire seu significado moderno, e apenas em meados do século XVII tem registro nos léxicos da língua inglesa. Etimologicamente, suscita mais hipóteses do que certezas. (SPINK, 2000).
Bernstein (1997) relata que a palavra “risco” deriva do italiano risicare (por sua vez derivado do baixo latim risicu, riscu), que significa “ousar”. Neste sentido, o risco é uma opção, e não um destino. A história do risco trata das ações pelas quais ousamos optar.
A partir da associação da palavra risco à economia e à política no século XIX, os homens aprenderam a ter aversão ao risco, pois se supunha que se deveriam fazer as escolhas de acordo com o cálculo. Antigamente risco estava associado à possibilidade de perder ou de ganhar; hoje risco está associado à possibilidade de perder, sendo uma forma
Capítulo 3 – O Processo decisório estratégico 85
de olhar o futuro e prever o que pode dar errado, ou quais são os perigos que possivelmente se encontra à frente. Risco é uma forma de negociar ou de colonizar o futuro (BECK, 1998).
Atualmente a Análise de Riscos encontra-se embasada em duas vertentes distintas: a de origem lógica e a indutiva. A evolução da pesquisa científica permitiu que fossem incorporados aos conceitos lógicos, inúmeros fundamentos matemáticos. Por outro lado, a vertente da análise indutiva evoluiu gerando as teorias comportamentais.
A Teoria da Individualidade Fromm, (1970) explica que cada um de nós, mesmo o mais racional, possui um conjunto de valores único e responderá de acordo com estes valores, dentro de uma estrutura previsível e sistemática para a tomada de decisões.
A Aversão à Ambigüidade significa que as pessoas preferem assumir riscos com base em probabilidades conhecidas, em vez de probabilidades desconhecidas. Este comportamento indica que o volume e a qualidade das informações importam, decisivamente, para servir de subsídio à tomada de decisão (MINETO, 2005).
A maioria das decisões e escolhas envolve certo grau de incerteza com relação às suas conseqüências. Principalmente as decisões envolvendo projetos de investimento em construções habitacionais no qual se tem a incerteza agregada ao retorno dos seus fluxos financeiros, como é o caso da ICC-SE. Com o desenvolvimento do cálculo das probabilidades e estatística, criaram-se as condições para a mensuração do risco, deixando de lado a abordagem predominantemente qualitativa que o caracterizava.
Para Moore (1997), o risco trata de acontecimentos futuros e está presente na vida de todos em diversas ocasiões; sem assumir riscos é impossível um progresso econômico e até mesmo a manutenção do “status quo”.
Coube a Frank Knight (1921) a diferenciação entre incerteza e risco, calcado na abordagem qualitativa-quantitativa. Incerteza deveria ser usada em situações nas quais vários resultados são possíveis, sem, entretanto que sejam conhecidas as probabilidades de ocorrência. Risco, por sua vez, deveria ser aplicado a situações em que todas as possibilidades têm como conhecidas as suas probabilidades de ocorrência.
No dia a dia de gerentes e executivos, situações de risco empresarial também são rotineiras. March & Shapira (1987) descrevem a empresa como um contexto onde escolhas são feitas habitualmente. O próprio sistema de crenças gerenciais enfatiza a importância do risco e de sua aceitação, já que se trata da própria rotina do trabalho executivo. Segundo os autores, as pesquisas indicam que os executivos fazem uma distinção profunda entre assumir risco e jogar. Estes executivos argumentam que embora assumir risco seja uma parte essencial de suas responsabilidades, jogar é alguma coisa que eles evitam. Esta concepção dos executivos sobre a situação de jogo parece envolver duas questões: primeiro, nos jogos as probabilidades de perdas são inaceitáveis, de tão grandes; em segundo lugar, além de certo ponto é impossível aprender alguma coisa para reduzir a
Capítulo 3 – O Processo decisório estratégico 86
incerteza em um jogo. Assim, uma grande parte do tratamento dispensado pelos executivos em relação ao risco envolve a descoberta do resultado que ocorrerá caso seja tomada uma determinada ação.
Para Maccrimmon & Wehrung (1986) existem três condições para a definição de risco, denominadas pelos autores como componentes do risco, as quais são afetadas por aspectos determinantes ou causadores do risco, conforme quadro a seguir.
Tabela 7 - Componentes e os determinantes do risco
Componentes do risco Determinantes do risco
(causadores) Magnitude da perda potencial Possibilidade da perda potencial Exposição à perda potencial Falta de controle - forças da natureza - forças humanas - insuficiência de recursos - insuficiência de informações - insuficiência de tempo Impossibilidade de afetar o tamanho da perda Impossibilidade de afetar a possibilidade da perda potencial Impossibilidade de afetar a exposição à perda potencial Falta de informações - inadequadas - inconfiáveis - falta de familiaridade - imprevisíveis - tempo insuficiente Desconhecimento sobre o tamanho da perda potencial Desconhecimento da probabilidade da perda potencial Desconhecimento da exposição à perda potencial Falta de tempo - Necessidade de escolher antes de eventos incertos ocorrerem Tempo insuficiente para entender ou reduzir a magnitude da perda potencial Tempo insuficiente para entender ou reduzir a probabilidade da perda potencial Tempo insuficiente para entender ou reduzir a exposição à perda potencial Fonte: Maccrimmon & Wehrung (1986)
Capítulo 3 – O Processo decisório estratégico 87
Fonte: Maccrimmon & Wehrung (1986)
Figura 9 - Situação de risco
Vários estudos foram desenvolvidos com o objetivo de analisar o comportamento do decisor nas tomadas de decisões diante dos riscos e incertezas. Dentre estes:
Maccrimmon & Wehrung (1986) afirmam que embora situações de risco sejam inevitáveis devido a impossibilidade de se prever com total segurança o futuro, a atitude perante o risco é prerrogativa individual de cada decisor. A percepção humana é fundamental na determinação do risco, dependendo de experiência e habilidade pessoais. O comportamento quanto ao risco, à possibilidade de acontecer algo no futuro, é elemento importante na análise da situação e da decisão.
March & Shapira (1987) em suas pesquisas concluíram que não existem evidências de que a abordagem do risco por parte dos decisores adote a forma racional e sistematizada para avaliação e escolha entre as combinações de risco e retorno disponíveis. Segundo estes autores, a possibilidade de atingir os resultados desejados é forte componente da postura de decisor perante o risco.
Hall (1984) observa, ainda, que os administradores tendem a evitar as decisões de alto risco, e que, na sua maioria, as análises de tomada de decisão costumam ignorar as situações de fracasso. Já Laughhunn, Payne & Crum (1980) detectaram comportamento de aversão ao risco também quando as perdas eram muito elevadas e comportamento de preferência ao risco, apenas para perdas de pequeno valor.
Na busca de uma teoria clássica que conseguisse explicar como os decisores agem perante o risco e incertezas, duas frentes de pesquisa se destacaram: A Teoria da Utilidade Esperada (TUE) formulada por Von Neumann e Morgenstern (1944) e a Teoria dos Prospectos (Prospect Theory - PT) proposta por Kahneman e Tversky (1979).
Capítulo 3 – O Processo decisório estratégico 88