2 SENSIB SENSIB SENSIB SENSIBILIDADES EMERGENTES: topografia ILIDADES EMERGENTES: topografia ILIDADES EMERGENTES: topografia ILIDADES EMERGENTES: topografia
2.2 Panorama nacional
2.2.2 A topografia enquanto mote do projeto
Além de denúncias sobre a negligência da topografia, Carlos Alberto Maciel, no artigo Topografias ou a construção como paisagem (2006), lança reflexões sobre o entendimento desta enquanto mote do projeto, segundo ele, maciçamente utilizado na arquitetura contemporânea internacional. (MACIEL, p. 16, 2006), mas que já se podia ver na produção brasileira desde 1950. Para compreender essa relação dos edifícios com a topografia, Maciel lança três características conceituais e não excludentes entre si:
A utilização de geometrias complexas para reforçar o caráter público e aberto do edifício, com maior continuidade com o espaço urbano adjacente; A interpretação ou reinvenção da topografia pré-existente como fato gerador do projeto, definindo com isso construções menos geométricas e mais topológicas; A síntese de uso, construção e forma, entre edifício e paisagem, reduzindo e em alguns casos eliminando quase completamente a diferenciação entre ambos. (MACIEL, 2006, p. 16)
Sobre a primeira estratégia, Maciel destaca alguns casos internacionais, como o Kunsthal (Rem Koolhaas, Rotterdam, 1992) - que sobrepõe o percurso público, entre o parque e a avenida, com o privado; o Terminal Marítimo de Yokoama (Farshid Moussavi e Alejando Zaera-Polo, 1995-2002) - que interliga distintos níveis do edifício e cria um espaço público aberto integrado com o espaço adjacente; e a Biblioteca da Universidade de Delft (Mecanoo, 1993-1998) - que oculta o programa abaixo de uma grande laje gramada que se eleva do solo, integrando-se com o entorno do parque.
Figura 65 – Kunsthal (Rem Koolhaas, 1992).
(Fonte: http://www.flickr.com. Acesso em: 08 de Junho de 2012)
Figura 66 – Terminal de Yokohama (Farshid Moussavi e Alejandro Zaera-Polo, 1995-2002) (Fonte: http://www.flickr.com. Acesso em: 8 de
jun. 2012)
Figura 67 - Biblioteca da UDelft (Mecanoo, 1993-1998). (Fonte: http://www.flickr.com. Acesso
62 Na arquitetura moderna brasileira, Maciel destaca a galeria comercial do Edifício Copan (Oscar Niemeyer, São Paulo, 1950), constituída por um piso inclinado, sem escalonamentos, que promove a continuidade com as vias adjacentes; o Pavilhão do Brasil na Feira Internacional de Osaka (Paulo Mendes da Rocha, 1969-1970), que cria uma topografia artificial, pequenas colinas que abrigam os usos, delimitados por uma grande coberta em concreto aparente; e a Sede do Partido Comunista Francês (Oscar Niemeyer, 1965), onde o Salão da Classe Operária foi rebaixado e superfícies rampadas articulam o nível da rua ao topo da cúpula do espaço.
Figura 68 – Galeria comercial do Edifício Copan (Oscar Niemeyer,
São Paulo, 1950). (Fonte: MACIEL, 2006, p. 17)
Figura 69 - Pavilhão do Brasil na Feira de Osaka (Paulo Mendes da Rocha, 1969-1970).
(Fonte: MACIEL, p. 17, 2006)
Figura 70 - Partido Comunista Francês (Oscar Niemeyer, 1965). (Fonte: http://www.flickr.com. Acesso em:
08 de Junho de 2012)
Na segunda estratégia, a topografia como fato gerador do projeto a partir da elaboração de soluções menos geométricas e mais topológicas, tem-se o Pavilhão da Serpentine Gallery (MVRDV, Londres, 2005), que cria uma colina artificial para ocultar a edificação antiga, de caráter oneroso e meramente experimental. De resultado formal distinto, mas com estratégias semelhantes, o edifício da Cidade da Cultura da Galícia (Peter Eisenman, Santiago de Compostela, 1999), também apresenta uma grande força mimética com a paisagem, numa clara tentativa de se fundir com a topografia. O vasto programa é distribuído em um conjunto que mais parece o resultado da movimentação de placas tectônicas. De longe, o conjunto ondulante simboliza uma nova colina na paisagem.
Figura 71 – Cidade da Cultura (Peter Eisenman, Santiago de Compostela, 1999).
(Fotos: Lívia Nóbrega, 2011)
Figura 72 – Residência Sigrist (Eduardo de Almeida, São Paulo, 1973-1976).
(Fonte: GUERRA, 2006, p. 29)
No âmbito brasileiro, Maciel cita a Residência Sigrist (Eduardo de Almeida, São Paulo, 1973-1976) ocultada no aclive pelo escalonamento dos espaços, mas cujo jogo de aberturas revela o edifício como
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63 um artefato francamente humano. A utilização de variações artificiais na topografia também é destacada na Rodoviária de Brasília (1957), que foi rebaixada para integrar o cruzamento dos dois eixos e minimizar a presença da construção e na Praça dos Três Poderes (Oscar Niemeyer, Brasília, 1958), onde, de forma oposta, o rebaixamento confere hierarquia e visibilidade ao Congresso Nacional.
Por fim, sobre a relação indissociável entre edifício e paisagem, Maciel destaca o projeto do Museu Paul Klee (Renzo Piano, Berna, 1999) como uma síntese entre arquitetura e paisagem a partir da criação de uma nova topografia, com ondulações artificiais escultóricas que ora se fundem e ora se soltam do terreno, marcadas pela sua expressividade tectônica. E a Casa das Canoas (Oscar Niemeyer, Rio de Janeiro, 1953), onde as rochas e a topografia preexistente conferiram o ordenamento do projeto.
Figura 73 – Museu Paul Klee (Renzo Piano, Berna, 1999). (Fonte: http://www.flickr.com. Acesso em: 08 de Junho de
2012)
Figura 74 - Casa das Canoas (Oscar Niemeyer, Rio de Janeiro, 1953).
(Foto: Fernando Diniz Moreira)
Estes exemplos trazem novas possibilidades de entendimento do edifício, ressaltando a recorrência deste tema na arquitetura internacional recente, e a presença do mesmo na arquitetura brasileira de algumas décadas atrás. Neste sentido, Maciel mostrou como os arquitetos modernos brasileiros souberam tratar a relação entre edifício, paisagem e espaço urbano e as relações entre domínio público e privado de forma criativa e desperta para o fato de que isto parece ter se perdido nos dias atuais. Suas reflexões estão em consonância com a idéia de Leatherbarrow de desmistificar o caráter racional e funcionalista da arquitetura moderna e alguns aspectos por ele salientados também são observáveis na arquitetura portuguesa, tradicional e contemporânea, onde é notável a sensibilidade com que os arquitetos concebem o projeto a partir de um entendimento topográfico da realidade, rural ou urbana. Portanto, este capítulo buscou mostrar discussões que fornecem insights no sentido de dar continuidade ao debate sobre o relacionamento dos edifícios com o sítio, a partir da incorporação da realidade e de sua topografia pelos projetos, tema recorrente nas formulações da arquitetura moderna e contemporânea nacional e internacional, recorrência esta que também será estudada na obra de Siza.
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