CAPÍTULO IX O ÚLTIMO DEBATE
A TORRE DE CIRITH UNGOL
Sam levantou-se do chão com muito esforço. Por um momento perguntou-se onde estava, e então toda a desgraça e o desespero retornaram á sua mente. Estava numa escuridão profunda do lado de fora do portão inferior da fortaleza dos orcs, as portas de bronze estavam fechadas. Certamente ele caíra sem sentidos quando arremessou o corpo contra elas, mas quanto tempo ficara ali deitado não sabia dizer.
Naquela hora estivera fervendo, desesperado e furioso; agora tremia de frio. Arrastou-se até as portas e colou o ouvido contra elas. De um ponto distante lá dentro conseguia escutar vozes de orcs gritando, mas logo cessaram ou ficaram fora do alcance de seus ouvidos, e tudo era silêncio. A cabeça lhe doía, e os olhos viam luzes fantasmagóricas na escuridão, mas ele lutava para se firmar e pensar. De qualquer maneira, estava claro que não havia esperança de entrar na fortaleza dos orcs por aquele portão; ele poderia ficar ali aguardando durante dias antes que se abrisse, e não havia tempo para esperar; o tempo era desesperadamente precioso. Sam não tinha mais dúvidas sobre o seu dever: deveria resgatar seu mestre ou perecer na tentativa.
- É mais provável que eu pereça, e de qualquer modo vai ser bem mais fácil - disse ele num ar severo para si mesmo, recolocando Ferroada na bainha e dando as costas para as portas de bronze. Devagar foi tateando o caminho de volta no escuro ao longo do túnel, sem coragem de usar a luz élfica; enquanto avançava, tentava recapitular os acontecimentos desde que Frodo e ele haviam partido da Encruzilhada. Perguntava-se que horas seriam. Algum ponto entre um dia e o próximo, supunha ele; mas até mesmo dos dias ele perdera a conta. Estava numa terra de escuridão, onde os dias do mundo pareciam esquecidos e onde todos os que entravam também eram esquecidos.
- Queria saber se em algum momento eles pensam em nós - disse ele -, e o que está acontecendo lá longe. Acenou com a mão no ar num gesto vago, mas agora na verdade estava virado para o sul, voltando ao túnel de Laracna, e não para o oeste. No mundo lá fora, no lado oeste aproximava se o meio-dia do décimo quarto dia de março, de acordo com o Registro do Condado, e nesse momento Aragorn conduzia a frota negra saindo de Pelargir, e Merry cavalgava com os rohirrim, descendo o Vale das Carroças de Pedra, enquanto em Minas Tirith subiam as chamas e Pippin observava a loucura crescendo nos olhos de Denethor. Apesar disso, em meio a todas as preocupações e temores, os pensamentos de seus amigos voltavam-se constantemente para Frodo e Sam. Eles não tinham sido esquecidos. Mas estavam fora do alcance de qualquer ajuda, e nenhum pensamento poderia trazer qualquer socorro para Samwise, filho de Hamfast; por isso, ele estava completamente sozinho.
Por fim chegou de volta à porta de pedra do corredor dos orcs, e ainda sem poder descobrir a tranca ou o ferrolho que a mantinha fechada, arrastou-se por cima da mesma forma que antes e deixou-se cair delicadamente no chão. Então avançou furtivamente até a saída do túnel de Laracna, onde os farrapos de sua grande teia ainda balançavam no vento frio. Pois frio lhe parecia o vento, depois da escuridão desagradável que deixara para trás. Mas o seu sopro fez o hobbit reviver.
Arrastou-se com cautela para fora.
crepúsculo ao fim de um dia escuro. A enorme quantidade de vapor que subia em Mordor e ia flutuando em direção ao oeste ia passando baixo, uma grande onda de fumaça e nuvens agora iluminada outra vez embaixo por um vermelho sombrio.
Sam ergueu os olhos para a torre dos orcs, e de repente, das estreitas janelas, luzes espiaram como pequenos olhos vermelhos. Pensou se aquilo não era algum sinal. O medo que sentira dos orcs, esquecido por um tempo em sua ira e desespero, agora retornava. Pelo que podia ver, havia um único caminho possível a tomar: deveria ir em frente tentando achar a entrada principal da pavorosa torre; mas sentia os joelhos fracos, e percebeu que estava tremendo. Desviando os olhos da torre e dos chifres da fenda diante dele, forçou seus pés relutantes a lhe obedecerem e, devagar, escutando com a máxima atenção, espiando para dentro das densas sombras das rochas ao lado do caminho, refez seus passos, passando pelo lugar onde Frodo caíra, onde ainda perdurava o fedor de Laracna, e depois foi adiante e para cima, até chegar de novo exatamente na fenda onde colocara o Anel e vira passar a companhia de Shagrat. Então parou e sentou-se. Por um momento não conseguiu forçar-se a avançar mais. Sentia que, se transpusesse o topo da passagem e se realmente desse um passo descendo e penetrando a terra de Mordor, esse passo seria irrevogável. Nunca mais poderia voltar. Sem qualquer propósito claro, puxou o Anel e colocou-o de novo no dedo. Imediatamente sentiu o grande fardo de seu peso, e sentiu de novo, agora mais forte e opressiva que nunca, a malícia do Olho de Mordor, perscrutando, tentando penetrar as sombras que fizera para a própria defesa, mas que nesta hora o atrapalhavam em sua inquietude e dúvida.
Como antes, Sam sentiu sua audição aguçada, enquanto para seus olhos as coisas deste mundo pareciam tênues e vagas. As muralhas rochosas da trilha estavam pálidas, como se vistas através de uma névoa, mas ainda na distância Sam ouvia o borbulhar de Laracna em sua desgraça; e roucos e claros, parecendo estar bem próximos, ouviu o som de gritos e o entrechoque de metais. Saltou de pé e forçou o corpo contra a muralha que margeava a trilha. Estava feliz por ter o Anel, pois ali já vinha outra companhia de orcs em marcha. Ou pelo menos foi assim que pensou a princípio. Então, de súbito, percebeu que não se tratava disso, e que sua audição o enganara: os gritos dos orcs vinham da torre, cujo chifre mais alto erguia-se agora bem diante dele, do lado esquerdo da Fenda.
Sam estremeceu e tentou forçar-se a avançar. Era claro que alguma maldade estava acontecendo. Talvez, a despeito de todas as ordens, os orcs, dominados por sua crueldade, estivessem torturando Frodo, ou até mesmo partindo-o aos pedaços com selvageria. Ficou escutando, e teve um laivo de esperança. Não poderia haver muita dúvida: havia luta na torre, os orcs deviam estar lutando entre si, Shagrat e Gorbag haviam chegado ás vias de fato. Apesar de ser uma esperança fugidia a que lhe trouxera a sua suposição, foi o suficiente para despertá-lo. Só poderia haver uma chance. Seu amor por Frodo se elevou acima de todos os outros pensamentos, e, esquecendo o perigo, Sam gritou:
- Estou chegando, Sr. Frodo!
Correu para o topo da trilha ascendente e foi adiante. De súbito o caminho fez uma curva para a esquerda e mergulhou vertiginosamente. Sam cruzara o limiar de Mordor. Retirou o Anel, movido talvez por alguma premonição profunda de perigo, embora consigo mesmo pensasse apenas que desejava enxergar mais claro.
- É melhor dar uma olhada no pior - murmurou ele. - Não adianta ir tropeçando na neblina!
Seu olhar deparou com uma terra dura, cruel e amarga. Diante de seus pés o maciço mais alto dos Ephel Dúath caía vertiginosamente em grandes penhascos, para dentro de uma grande vala, que do outro lado subia num outro maciço, muito mais baixo, com uma borda chanfrada e denteada, com rochedos semelhantes a presas que se
sobressaíam negras contra um fundo de luz vermelha: era o sinistro Morgai, o circulo interno das fronteiras da terra. Muito além dele, mas quase em linha reta, através de um amplo lago de escuridão salpicado por pequenas fogueiras, havia um grande clarão de fogo; dele subia em enormes colunas uma fumaça em torvelinhos, de um vermelho empoeirado na parte inferior, negra na parte de cima, onde se misturava à abóbada ondulada que toldava toda aquela terra maldita.
Sam estava olhando para Orodruin, a Montanha de Fogo. De vez em quando, as fornalhas bem abaixo de seu pico de cinzas despejavam, em meio a grandes ondas e convulsões, rios de rocha fundida, saídos de fendas em suas encostas. Alguns corriam reluzindo na direção de Barad-dûr por grandes canais; outros traçavam um caminho sinuoso e entravam na planície de pedra, até se resfriarem e se deitarem como formas retorcidas de dragões, o vômito da atormentada terra. Sam avistou a Montanha da Perdição, e a sua luz, escondida pelo alto escudo dos Ephel Dúath dos olhos daqueles que subiam pela estrada do oeste, agora brilhava contra as rígidas encostas rochosas, de modo que pareciam estar banhadas de sangue.
Naquela luz aterrorizante Sam parou atônito, pois agora, olhando à esquerda, ele conseguia divisar a Torre de Cirith Ungol em toda a sua força. O chifre que vira do outro lado era apenas o torreão mais alto. Seu lado leste projetava-se em três grandes patamares sobre uma saliência na encosta da montanha lá embaixo; sua parte posterior dava para um grande penhasco, do qual saíam baluartes pontiagudos, um sobre o outro, que iam -diminuindo ao subirem, com laterais perpendiculares de habilidosa alvenaria com faces para o nordeste e o sudeste. Ao redor do patamar mais baixo, sessenta metros abaixo de onde estava Sam, havia uma parede com ameia que contornava um pequeno pátio. Seu portão, que ficava na encosta sudeste, abria-se para uma estrada larga, cujo parapeito externo corria sobre a borda de um precipício, até virar-se para o sul e continuar numa descida sinuosa na escuridão, para unir-se à estrada que vinha da Passagem de Morgul. Por ela então atravessava uma fissura denteada no Morgai e saía para o vale de Gorgoroth e para Barad-dûr. O estreito caminho superior no qual Sam estava saltava rapidamente para baixo através de degraus e de uma trilha íngreme, até encontrar a estrada principal sob as muralhas sinistras próximas ao Portão da Torre.
Olhando tudo aquilo Sam de repente entendeu, quase tendo um choque, que aquela fortaleza não fora construída para manter os inimigos fora de Mordor, mas para prendê-los lá dentro. Na realidade era um dos trabalhos realizados muito tempo atrás por Gondor, um posto avançado das defesas de Ithilien no leste, feito quando, depois da Última Aliança, os homens do Ponente passaram a vigiar a terra maligna de Sauron, onde suas criaturas ainda rondavam. Mas como aconteceu com Narchost e Carchost, as Torres dos Dentes, aqui também a vigilância fracassara, e a traição entregara a Torre para o Senhor dos Espectros do Anel, e agora por longos anos ela estivera sob a posse de seres malignos. Desde seu retorno a Mordor, Sauron a considerara útil, pois ele tinha poucos servidores mas muitos escravos do terror, e
o principal escopo da torre era ainda, como sempre, evitar a fuga de Mordor. Caso um inimigo fosse tão temerário a ponto de tentar entrar naquela terra secretamente, a torre então era também um último guarda que nunca dormia, vigiando qualquer um que pudesse burlar a vigilância de Morgul e de Laracna.
Sam percebeu muito claramente como seria sem esperança a sua tentativa de se arrastar sob aquelas paredes de muitos olhos e passar pelo portão vigilante. E, mesmo que conseguisse, não poderia avançar muito na estrada vigiada: nem mesmo as sombras negras, que pairavam nas profundezas onde o brilho vermelho não alcançava, poderiam protegê-lo por muito tempo dos orcs e de seus olhos noturnos. Mas, mesmo que a estrada
não oferecesse esperanças, sua tarefa agora era muito pior; não se tratava de evitar o portão e escapar, mas de entrar por ele, sozinho.
Seu pensamento voltou-se para o Anel, mas ali não havia consolo, só terror e perigo. Logo que conseguira avistar a Montanha da Perdição, queimando na distância, Sam percebeu uma mudança em seu fardo. A medida que se aproximava das grandes fornalhas onde, nas profundezas do tempo, o Anel fora forjado e moldado, seu poder crescia e ficava mais cruel, não podendo ser controlado a não ser que houvesse alguma vontade poderosa. E no momento em que Sam parara ali, mesmo sem usar o Anel, tendo-o apenas penduradtendo-o atendo-o pesctendo-oçtendo-o, ele própritendo-o se sentiu maitendo-or, ctendo-omtendo-o se estivesse vestindtendo-o uma enorme sombra distorcida de si mesmo, uma ameaça enorme e ominosa parada sobre as muralhas de Mordor. O hobbit sentia que de agora em diante só tinha duas escolhas: abster-se do Anel, embora isso pudesse torturá-lo, ou reivindicá-lo, desafiando o poder que se sentava em seu escuro domínio além do vale de sombras. O Anel já o tentava, devorando sua vontade e raciocínio. Fantasias loucas despertavam em sua mente, e ele via Samwise, o Forte, Herói do seu Tempo, caminhando a passos largos com uma espada flamejante através da terra escurecida, e exércitos se arrebanhando a um chamado seu, no momento em que marchava para derrotar Barad-dûr. E então todas as nuvens se dissipavam, e o sol branco brilhava, e a uma ordem sua o vale de Gorgoroth se transformava num jardim de flores e árvores que davam frutos. Ele só tinha de colocar o Anel e reivindicar a sua posse, e tudo isso podia acontecer.
Naquela hora de provação, foi o amor por seu mestre que mais o ajudou a manter-se firme; mas também, no fundo de manter-seu manter-ser, ainda vivia independente manter-seu manter-senso simples de hobbit: sabia em seu coração que não era grande o suficiente para carregar tal fardo, mesmo que aquelas visões não fossem apenas uma mera ilusão para atraiçoá-lo. O pequeno jardim de um jardineiro livre era tudo o que desejava e de que precisava, não um jardim expandido em um reino; queria trabalhar com as próprias mãos, e não ter as mãos dos outros para comandar.
- E de qualquer forma todas essas sensações são apenas uma armadilha - disse ele para si mesmo. - Ele me acharia e me faria morrer de medo antes que conseguisse sequer gritar. Ele me acharia bem rápido, se eu colocasse o Anel aqui em Mordor. Bem, tudo o que posso dizer é: as coisas parecem desastrosas como uma geada na primavera. Bem na hora em que estar invisível seria realmente útil, não posso usar o Anel! E, se conseguir avançar mais um pouco, ele não vai passar de um fardo e um peso a cada passo. Então, que devo fazer?
Na verdade, ele não estava em dúvida. Sabia que precisava descer até o portão e não ficar ali por mais tempo. Com um dar-de-ombros, como se quisesse afastar a sombra e livrar-se dos fantasmas, começou a descer lentamente. A cada passo tinha a impressão de que diminuía. Não tinha ido muito longe e já se via reduzido de novo ao tamanho de um hobbit bem pequeno e amedrontado. Estava agora passando sob as próprias muralhas da Torre, e os gritos e ruídos de luta podiam ser ouvidos sem a ajuda do Anel. No momento, o barulho parecia estar vindo do pátio que ficava atrás da muralha externa.
Sam estava no meio de sua descida pela trilha quando do portão escuro vieram dois orcs correndo, surgindo no clarão vermelho. Não se viraram para ele. Estavam se dirigindo para a estrada principal, mas enquanto corriam tropeçaram e caíram no chão, ficando imóveis. Sam não vira flechas. mas supunha que os orcs tinham sido feridos por outros que estavam nas E ameias ou escondidos na sombra do portão. Avançou, encostando-se na muralha à esquerda. Um olhar para cima lhe revelara que não havia possibilidade de escalá-la.
rachadura ou patamar, até atingir saliências que pareciam degraus invertidos. O portão era o único caminho.
Para a frente, e, enquanto avançava, perguntava-se quantos orcs viviam na Torre com Shagrat, e quantos Gorbag tinha, e qual seria o motivo de sua discussão, se era isso o que estava acontecendo. Tivera a impressão de que a companhia de Shagrat era composta de quarenta elementos, e a de Gorbag lhe parecia mais de duas vezes maior; mas sem dúvida a patrulha de Shagrat representara apenas uma parte de sua guarnição. Era quase certeza que estavam discutindo sobre Frodo e o espólio. Por um segundo Sam parou, pois de repente as coisas lhe pareceram claras, como se as tivesse visto com os próprios olhos. O casaco de mithril! Era claro, Frodo o estava vestindo, e eles o achariam. E, pelo que Sam pudera ouvir, Gorbag o cobiçava. Mas as ordens da Torre Escura eram agora a única proteção de Frodo, e, se fossem ignoradas, ele poderia ser morto a qualquer momento.
-Vamos lá, seu preguiçoso miserável! exclamou Sam para si mesmo.- Agora, vamos! - Sacou Ferroada e correu na direção do portão aberto. Mas, no momento em que estava prestes a passar embaixo do grande arco, sentiu um choque: como se tivesse batido contra alguma teia como a de Laracna, mas desta vez invisível. Não conseguia enxergar obstáculo algum. mas algo forte demais para que pudesse superar pela força de sua vontade barrava-lhe o caminho. Olhou ao redor, e então dentro da sombra do portão viu as Duas Sentinelas.
Eram como grandes figuras sentadas em tronos. Cada uma tinha três corpos unidos, e três cabeças olhando para fora, e para dentro, e através do portão. As cabeças tinham caras de abutres, e em seus grandes joelhos descansavam mãos em forma de garras. Pareciam ter sido entalhadas em enormes blocos de pedra, imóveis, e apesar disso estavam vigilantes: algum espírito terrível de vigilância maligna morava nelas. Conheciam quem era um inimigo. Visível ou invisível, ninguém poderia passar despercebido. Proibiriam sua entrada, ou sua fuga.
Forçando sua disposição, Sam lançou o corpo outra vez para a frente, e parou com um solavanco, cambaleando como se tivesse levado um murro na cabeça e no peito. Então, com enorme ousadia, porque não conseguia pensar em mais nada, respondendo a um pensamento repentino que lhe ocorreu, puxou lentamente o frasco de Galadriel e o ergueu. Rápido a luz branca ganhou vida, e as sombras sob o arco escuro fugiram. As monstruosas Sentinelas continuavam ali sentadas, frias e imóveis, reveladas em toda a sua forma hedionda. Por um momento Sam capturou um faiscar nas pedras negras de seus olhos, cuja própria malícia o fez vacilar; mas lentamente sentiu que a vontade delas titubeava e desmoronava de medo. Passou por elas num salto, mas no momento em que fazia isso, escondendo o frasco de volta em seu peito, percebeu nitidamente, como se uma barra de aço tivesse descido de súbito atrás dele, que a vigilância fora renovada. E daquelas cabeças malignas veio um grito agudo que ecoou nas altas muralhas diante dele. Lá em cima, como um sinal em resposta, um sino estridente emitiu um único toque.
- Tudo acabado! - disse Sam. - Agora toquei a campainha da porta da frente! Bem, que alguém apareça! - gritou ele. - Digam ao Capitão Shagrat que o grande Guerreiro Élfico está aqui, e veio com sua espada élfica!
Não houve resposta. Sam avançou a passos largos. Ferroada emanava um brilho azul em sua mão. O pátio estava envolto em sombras, mas ele podia ver que a calçada estava coberta de corpos. Bem aos seus pés estavam dois arqueiros-orcs com facas enfiadas nas costas. Mais além jaziam muitas outras formas; algumas sozinhas, pois haviam sido golpeadas ou flechadas, outras em pares, uma ainda agarrada à outra, mortas em meio ao espasmo de golpear, esganar, morder. As pedras, borrifadas com sangue escuro, estavam escorregadias.
Sam notou dois uniformes, um marcado com o Olho Vermelho, o outro com uma Lua desfigurada, representando um rosto fantasmagórico de morte; mas ele não parou para olhar mais atentamente. Do outro lado do pátio, uma grande porta ao pé da Torre estava entreaberta, e uma luz vermelha escapava por ela; um grande orc jazia morto no