2 INTEGRALIDADE COMO EIXO DE ANÁLISE
2.4 A TRAJETÓRIA ASSISTENCIAL
A trajetória assistencial é tecida na busca do usuário pelos cuidados nos serviços de saúde e também na busca pelos profissionais de saúde. Vale ressaltar que esta busca não é solitária, uma vez que a rede social ganha relevância na busca de cuidado. Esta rede social pode ser uma rede de sustentação ou de apoio e se
efetiva por ordem afetiva, moral, econômica e cultural. Ela se constrói nas experiências vividas pelas pessoas no cotidiano, estimulando o surgimento de mediadores nos espaços cooperativos, privados e público (MARTINS; SANTIAGO; CARVALHO, 2009).
A rede de sustentação é “aquela vinculada à pessoa adoecida de forma mais constante, configurando um núcleo de permanência na biografia e na produção do cuidado familiar” como a família (BELLATO et al., 2009, p. 192). Esta rede de sustentação vive o adoecimento e as necessidades como uma experiência comum.
A rede de apoio é aquela conformada com sentido de “ajuda ou assistência vinda do exterior”, composta por pessoas que colaboram em momentos específicos e mais pontuais da experiência de adoecimento e envolve relações mais formais e de menor afetividade (BELLATO; ARAÚJO; CASTRO, 2008).
Adotando a rede social como atores na busca e produtores de cuidado, o usuário passa a ter caráter coletivo e divide sua centralidade na busca pelo cuidado com estes elementos. Assim, o usuário do serviço público deixa de ser elemento isolado, torna-se articulado em um sistema de reciprocidade. A rede social tem vínculo de afetividade para com o sofrimento do usuário que o conduz ao cuidado. A afetividade é “uma motivação da ação social” (PINHEIRO; MARTINS, 2011, p. 11).
A busca do usuário e sua rede social pelo cuidado nos serviços de saúde conforma sua trajetória assistencial, que eleva ao plano real o conflito entre o sistema voltado para condições agudas, estruturado na lógica da gestão no formato piramidal e hierarquizado com a lógica do usuário e sua necessidade de cuidados e seu direito.
Esta pesquisa buscou descrever as trajetórias assistenciais estritamente no sistema formal de saúde. Apesar de se saber que os cuidados são buscados onde os usuários e familiares possam encontrar a resolução para suas necessidades, e estas buscas não se restringem a um “dado lugar institucional”. Kleinman11
(1978, 1980, 1988 apud COELHO; ALMEIDA FILHO, 2002) propôs que o sistema de
11
KLEINMAN, A. Concepts and a model for the comparison of medical systems as cultural systems.
Social science & medicine, Oxford, v. 12, n. 2B, p. 85-95, Apr 1978.
KLEINMAN, A. Patients and healers in the context of culture: an exploration of the borderland between Anthropology, Medicine, and Psychiatry. Los Angeles: University of Californi a Press, 1980.
KLEINMAN, A. The illness narratives: suffering, healing and the human condition. New York: Basic Books, 1988.
cuidado à saúde seria composto por três setores12, incluiria, por exemplo, instâncias informais como fitoterapia, benzedeiras. Uma visão mais ampliada da busca está na definição de itinerário terapêutico de Bellato e outros (2009) que, resumidamente, definem este último por trajetórias de busca, produção e gerenciamento do cuidado para saúde empreendidas pela pessoa e famílias na experiência do adoecimento. O itinerário terapêutico, em toda a sua complexidade de técnica de pesquisa antropológica, perpassa muito mais que as buscas no sistema formal.
Desta forma, nossa pesquisa alça voo somente sobre a trajetória assistencial13 em busca de cuidados que está contida dentro de um processo maior de itinerário terapêutico. A opção pela trajetória assistencial se deu não pela crença unicamente no sistema formal ou descredito aos outros, mas pelo objeto e objetivo da pesquisa em si, que trata da busca por cuidados empreendida por usuários e por sua rede social no sistema formal de saúde, SUS, e da análise da trajetória assistencial, tendo como eixo a integralidade.
A correlação da dimensão do direito e suas subdivisões de análise – itinerário terapêutico e trajetórias assistenciais – pode ser vista na Figura 3:
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A saber, os três setores seriam: o setor da cura profissional, o setor das curas populares e o setor popular das crenças, escolhas, decisões, papéis, relacionamentos, interações e instituições –, nos quais se experiencia e se reage à enfermidade (COELHO; ALMEIDA FILHO, 2002).
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Bellato, Araújo e Castro (2008) fazem crítica ao termo “fluxo” como uma designação da regulação da gestão como numa linha de produção entre os níveis, traz também ponderações sobre o termo trajetos em saúde como demarcação de espaços percorridos. Na fuga destes limites, adotamos as trajetórias assistenciais.
Figura 3 – Intercessão entre direito à saúde, itinerários terapêuticos e trajetórias assistenciais
Fonte: Adaptado de Pinheiro e Silva Júnior (2008, p. 35)14
A trajetória assistencial foi um meio concreto para análise dos conceitos operacionais da integralidade nos encontros e desencontros com serviços formais de saúde. Essa trajetória ilustra o percurso do usuário para obter atendimento, “objetivando o cuidado do ponto de vista de quem é cuidado, observando com especial atenção as escolhas do usuário, a rede social que o apoia e a relação com a oferta de serviços do sistema local de saúde” (SILVA, et al., 2008, p. 225).
A partir da trajetória assistencial, podemos cotejar: a experiência da doença em si, a experiência de busca de cuidado e o protagonismo do usuário, redes de sustentação e apoio, a visão dos gestores refletida na organização e no funcionamento dos serviços de saúde e a prática dos profissionais de saúde (SILVA,
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Vale ressaltar que as escolhas e decisões do usuário são condicionadas à oferta de serviços e normas do sistema. Entretanto as normas são aprendidas e reinterpretadas pelos usuários conforme sua necessidade e escolha.
et al., 2008). A análise da trajetória provoca reflexões micro e macro, considerando ações individuais dos sujeitos nas decisões e escolhas destes e o meio cultural que determina as opções possíveis ao sujeito (BELLATO; ARAÚJO; CASTRO, 2008).
Considerando que o micro está contido no macro e que o macro se desdobra no micro, como em objetos fractais15, podemos enfatizar que as trajetórias são partes microscópicas que contam sobre a configuração macroscópica do sistema, guardando as devidas proporções, e, por isso, permitem um grau de apreensão maior que as histórias individuais.
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O termo fractal foi criado por Benoît Mandelbrot, matemático francês. Mandelbrot procurava um padrão onde se pensava existir apenas aleatoriedade e com isto constituiu os fractais. Fractal é um objeto geométrico que pode ser dividido em partes, cada uma das quais semelhante ao objeto original qualquer que fosse a escala. Há recursividade ou repetitividade, ou seja, em "zoom" seria observada a repetição da figura. Havia um padrão na irregularidade: a autossemelhança. Percebe- se isso ao cortar uma couve-flor onde há semelhança do pedaço com a verdura inteira (GLERIA; MATSUSHITA; SILVA, 2004).
3 O SISTEMA DE SAÚDE, REDE E POLÍTICA DE ALTA COMPLEXIDADE: