CAPÍTULO 1: “PERFIL” DE JOSÉ INGENIEROS E DE MANOEL BOMFIM
1.3 BIOGRAFIAS COMPARADAS
1.3.4 A trajetória profissional de Manoel Bomfim
Ronaldo Aguiar aponta que Bomfim foi um estudante aplicado, mas não foi o melhor aluno da turma. O sergipano aceitou as rígidas formalidades do curso de medicina e, enquanto estudou na Bahia, não se envolveu diretamente em nenhuma revolta estudantil ou movimento político. Nesta época, seus colegas de classe discutiam muito a respeito das ideias abolicionistas e republicanas, mas Bomfim preferia não se envolver em movimentos políticos.
Por influência do seu amigo Alcindo Guanabara, transferiu o seu curso para a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, pois lá se encontravam as maiores sumidades médicas da época e era um ambiente intelectual rico e excitante. Na Faculdade de Medicina do Rio demonstrou interesse pelos estudos clínicos e relatórios médicos. Na cidade conheceu o jornalista e poeta Olavo Bilac, o homem que veio a se tornar o amigo de uma vida inteira. Sob a influência de Bilac e Guanabara, passou a se envolver com a campanha abolicionista e se integrou ao campo intelectual da época.
Em 1890 Bomfim concluiu o curso de Medicina e teve que procurar um emprego estável, afinal, não cabia mais continuar vivendo à custa da “mesada” do pai. Pela primeira vez na vida, o jovem de família abastada sentiu o “peso” da responsabilidade de ter de se sustentar. Em 1891 foi nomeado médico da Secretaria de Polícia do Rio de Janeiro e este foi o melhor trabalho que ele conseguiu arranjar; depois, por meio de indicação de amigos, conseguiu ser promovido ao cargo de médico-cirurgião. É interessante notar que, apesar de Bomfim fazer parte de uma seleta casta de indivíduos que tinham curso superior no Brasil, não se pode dizer que ele gozava de uma situação plenamente confortável. Seu emprego não pagava tão bem e constantemente ele se via na constrangedora situação de pedir ajuda financeira ao pai. Seu trabalho como médico estava muito aquém das suas expectativas idealizadas, uma vez que ele desejava:
Dedicar-se principalmente à pesquisa médica a ao magistério, idealizando glórias e galardões nas duas atividades, via-se agora, recém-formado, na constrangedora posição de receitar vermífugo, curar feridas e pior ainda, tratar de doenças venéreas que corroíam o
organismo dos praças da Brigada. Os quais, para o incontido horror do jovem médico, ignoravam todas as suas profiláticas e terapêuticas recomendações, preferindo guiar-se pelos conselhos e rezas de pais e mães-de-santo do Rio de Janeiro (AGUIAR, 2000, p. 152).
Ronaldo Aguiar aponta que, no final do século XIX e começo do século XX, a massa da população brasileira em geral confiava mais no curandeirismo do que na Medicina e, não raro, ignorava quase que completamente as recomendações médicas para o restabelecimento da sua saúde.
Em 1891, aos 23 anos de idade, Bomfim se casou com a portuguesa Natividade Oliveira, de 17 anos e, no mesmo período, participou “da expedição que percorre o Rio Doce para estudar a situação dos índios botocudos” (LAJOLO, 2000, p. 37).
Em 1893, Bomfim mudou-se para a cidade de Mococa, interior de São Paulo, devido à perseguição política que estava sofrendo pelo Governo de Floriano Peixoto,12 pois ele escreveu críticas contra o autoritarismo do governo republicano, caracterizando o presidente como um homem que não respeitava a Constituição, o poder jurídico e o Congresso. O governo de Floriano respondeu de maneira enérgica aos opositores e decretou estado de sítio. Floriano mandou prender os políticos e os intelectuais que se opunham publicamente ao seu governo e Bomfim estava entre os perseguidos. Logo, o sergipano viu-se obrigado a abandonar o seu emprego na Brigada Militar para escapar da prisão, fugindo com sua família para Mococa.13
12 Nesta ocasião, vários militares, políticos e intelectuais que faziam oposição ao governo de Floriano
Peixoto foram presos, como foi o caso de José do Patrocínio, que foi aprisionado e depois deportado para a Amazônia, ao passo que Olavo Bilac ficou preso durante meses além de ser proibido de receber visitas e de se comunicar através de cartas com o mundo exterior.
13 Segundo os relatos de Humberto de Campos no contexto em que Bomfim estava correndo o risco
de ser preso pelo governo de Peixoto em 1893, ele se escondeu na casa de um amigo antes de mudar-se para Mococa e: “Permaneceu escondido por vários dias, na casa de um amigo, que o livrou assim da prisão. Quando pode, finalmente, abandonar o abrigo, foi levando a mulher do amigo, que tornara sua amante, e que abandonou depois sem a menor consideração. Bomfim era, enfim, um sujeito levado da breca”. (CAMPOS apud AGUIAR, 2000, p. 169). Os relatos de Humberto de Campos sobre Bomfim são o seguinte: “Eu não sei como se pode explicar a existência, no Bomfim, de dois homens tão diversos um do outro: o escritor ilustre, o homem de grande erudição, e o indivíduo desprovido de certos escrúpulos, em matéria de moral privada. O Bomfim era um sujeito de tal ordem, em assuntos de mulheres, que não respeitava nem as dos seus amigos mais íntimos. Seduziu a mulher de mais de um amigo, sem o menor respeito às leis da amizade”. (CAMPOS apud AGUIAR, 2000, p. 146-147). Também a vida pessoal de Bomfim foi cheia de “altos e baixos”; após vários anos de casado, confessou à esposa a existência de uma filha ilegítima e isto perturbou severamente o seu ambiente doméstico, provocando um grande afastamento entre o casal.
Em Mococa dedicou-se exclusivamente à clínica médica e não se envolveu em nenhum movimento político. Atendeu muitos casos de Tifo, que era uma doença endêmica na região. Contudo, tanto o tratamento quanto o conhecimento médico sobre a doença eram precários na época. 1894 foi um ano particularmente difícil e emblemático na vida do jovem médico; seu pai faleceu e sua filha Maria, de um ano e dez meses, morreu durante a epidemia de Tifo. Seu pequeno corpo não respondeu à medicação ministrada pelo pai e depois de dias “ardendo em febre”, morreu exaurida pelo sofrimento. A morte de Maria deixou-o imensamente abalado e com sensação de impotência. O falecimento da filha foi um acontecimento marcante que fez com que o sergipano abandonasse não apenas a cidade Mococa, mas também a própria medicina. Logo ele que, cheio de sonhos, havia enfrentado a família para ser médico, viu-se aos 26 anos de idade desiludido com a profissão e decidiu que era a hora de traçar novos rumos para sua vida. O exercício da medicina foi uma atividade profissional que definitivamente ficou para trás.
Em 1896, Bomfim deu início a sua longa carreira na área da educação. Segundo Lajolo, ele se tornou um intelectual comprometido com a construção de um projeto educacional para o país e transformou-se em uma figura pública de relevância no aparelho educacional do Rio de Janeiro, o que não era pouca coisa, afinal, o Rio era a capital do Brasil e a cidade mais moderna e importante da nação. Lajolo segue afirmando que Bomfim tinha um currículo incorrupto e militava pela causa educacional no serviço público. Ocupou, ao longo da vida, vários cargos ligados à educação. Foi nomeado Diretor de Instrução Pública do Rio de Janeiro de 1895 a 1900, e também de 1905 a 1907. Foi o Diretor-geral do Pedagogium - a primeira instituição dedicada à pesquisa educacional no país – no período de 1896 a 1902, e de 1911 a 1919. Contudo, apesar de o Pedagogium ser um renomado centro de estudos e pesquisas, a instituição não recebeu muito apoio do governo, pois sofria constantemente pela falta de recursos governamentais e com as precárias instalações físicas do prédio, o que leva a constatar que Bomfim trabalhou nas instituições educacionais mais importantes do Rio de Janeiro em um contexto em que a educação popular não era uma prioridade para o Estado.
Bomfim também foi professor de Instrução Moral e Cívica da Escola Normal do Rio de Janeiro. Em 1902, foi extinta a cadeira de Moral e Cívica e ele foi
transferido para a de Pedagogia. Entre 1902 e 1903 estudou Psicologia na Sorbonne (França), quando:
Em comissão pedagógica nomeada pela prefeitura, segue para a Europa em agosto para estudar psicologia. Em Paris é aluno de Alfredo Binet e George Dumas, cujo laboratório – também frequentado pelo jovem Piaget – funcionava em anexo à clínica Jouffroy, em Sain’t Anne (GONTIJO, 2010, p. 151).
Bomfim era um homem que gozava de respeito entre os profissionais da educação da época. No entanto, suas tentativas de reforma educacional sempre encontravam muitas barreiras burocráticas e geralmente não eram apoiadas pelas políticas estatais vigentes. Nesse sentido, ele se aventurou na carreira política para pôr os seus projetos de melhoria educacional em prática e, em 1907, conseguiu eleger-se Deputado Federal por Sergipe, unindo-se ao Presidente Afonso Pena na luta pela ampliação do ensino fundamental, médio e superior no Brasil.
Para Bomfim, a alfabetização das massas era requisito obrigatório para o exercício do voto, pois era “um contrassenso exigir que o eleitor fosse instruído e, ao mesmo tempo, negar ao governo da União o dever de preparar o cidadão para o exercício do voto” (AGUIAR, 2000, p. 401). Segundo Aguiar, o projeto nº 242, elaborado com o apoio de Bomfim, autorizou o presidente Pena a reformar o sistema educacional brasileiro, e isso foi uma grande vitória; mas na pratica, não houve mudanças substanciais durante alguns anos. Em 1908 Bomfim não conseguiu se reeleger ao cargo de deputado e depois disso não tentou retomar a carreira de político.
É importante ressaltar que Manoel Bomfim não recebeu destaque em vida por sua atuação como médico, mas sim como educador. Ele era um professor reconhecido e admirado entre os seus pares e políticos que apoiavam a ampliação do sistema educacional no Brasil. Segundo Rebeca Gontijo (2010), ele defendeu que a instrução pública era o caminho para a “redenção do atraso brasileiro” e possibilitava a construção de uma nação moderna, por isto lutou ativamente pela expansão do número de escolas destinadas a formação de professores: as Escolas Normais, que tiveram um papel significativo na melhoria das práticas pedagógicas exercidas nos colégios primários.
Além de trabalhar em instituições educacionais, ele ainda escreveu várias obras ao longo da vida. Aluizio Alves Filho (2013) fez uma compilação das publicações mais importantes de Bomfim, como A América Latina: males de origem (1905); O respeito à criança (1906); Noções de psicologia (1916); Lições de
pedagogia (1902); O Brasil na América (1929); O Brasil na História (1931); O Brasil nação (1931 2v.) entre outras. Ainda publicou artigos em vários periódicos e revistas
como o renomado O Tico-Tico. Também escreveu uma gama de livros didáticos contando com a coautoria do seu amigo Olavo Bilac.
Um momento complicado na vida de Bomfim foi em 1925 quando ele teve que se desfazer de todo o patrimônio adquirido tanto pelo seu trabalho quanto por sua herança familiar para ajudar o filho Aníbal que viu sua firma ir à falência com uma fortuna em dívidas.
Também, segundo Conde Aguiar (1996), Bomfim redigiu o livro O Brasil
nação entre os anos de 1928 e 1931, num contexto em que lutava contra um câncer
de próstata, cuja metástase se irradiou pelo seu organismo, fazendo com que ele sofresse e passasse por inúmeras e dolorosas cirurgias. Padecendo de dores fortes, Bomfim não aceitava ser drogado e estava extremamente magro porque não conseguia se alimentar. Aguiar acredita que isto explica porque O Brasil nação é um texto “quase sem revisão, os longos períodos e a repetição das ideias e palavras, que talvez incomodem os leitores mais exigentes e desavisados” (AGUIAR, 1996, p. 29-30). Quando Bomfim já não tinha mais forças para escrever, ditou seu último livro à Joracy Camargo, com o título Cultura e educação do brasileiro, publicado postumamente em 1933. Os relatos sobre os seus momentos finais sob a face da terra são dramáticos e impactantes:
Nos últimos anos de vida, Manoel Bomfim passou menos tempo em casa que no hospital Dr. Eiras, fez nada menos que quatorze cirurgias e – imaginem! Escreveu não apenas as setecentas páginas de O Brasil nação, como as quatrocentas e tantas páginas de O
Brasil na América e quase seiscentas de O Brasil na História. Um
caso realmente extraordinário de amor à vida, compromisso intelectual e coragem, sobretudo, se for levado em conta os procedimentos médicos operatórios de então, praticamente no neolítico tecnológico. O fato é que Manoel Bomfim sofreu horrivelmente até o momento de sua morte, ocorrida às dez da noite de 21 de abril de 1932. Segundo o médico Paulo Cesar de Andrade, que o submeteu às últimas oito ou dez operações, “durante três anos as dores não o abandonaram. Os raios X constantes tinham-lhe
destruído o aparelho digestivo, e ele se sentiu decompor ainda em vida”. Outro depoimento tão impressionante como este foi o de Humberto de Campos, que registrou no seu Diário íntimo: “Debilitado ao extremo, transformado num fantasma de si mesmo, Manoel Bomfim passou a viver praticamente deitado. Não obstante isso, trabalhava, produzia, escrevendo com a máquina obras mais substanciosas. Morreu extenuado pelo sofrimento” (AGUIAR, 1996, p. 23).
Por seu comprometimento intelectual até os momentos finais de sua vida e substanciosa obra deixada para a posteridade, pode-se afirmar que Bomfim foi um dos pensadores mais importantes do país e, atualmente, é um dos mais respeitados “intérpretes do Brasil”.