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A transferência de leitores do impresso para o digital

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3) Hipertextualidade: é a conexão de textos através de links, que amplia as possibilidades da narrativa jornalística com recursos audiovisuais e gráficos, além de dar uma

1.2. O debate sobre “o fim” do jornalismo impresso

1.2.1. A transferência de leitores do impresso para o digital

Outras ameaças importantes a serem consideradas nessa fase de transição do impresso ao digital, detectadas pelos estudos acadêmicos aqui examinados, são: a escassez de atenção do público e a queda do número de leitores associadas aos níveis de credibilidade e à influência dos jornais na relação com a sua audiência. A queda no número de leitores foi levada a sério pela primeira vez, nos Estados Unidos, no final dos anos de 1960, quando novas fronteiras de informação começaram a disputar, com sucesso, o tempo do tradicional leitor de jornais (MEYER, 2007, p.48). Porém, como bem disse Coelho Neto (2003), não se trata de um fenômeno localizado. Em diferentes sociedades, a popularização de outros meios de comunicação de massa contribuiu para a redução da circulação de jornais. O costume de leitura foi exaurindo na medida em que veículos como rádio, cinema, e, posteriormente a televisão passaram a atrair a atenção de parcelas cada vez maiores de pessoas.

No Brasil, que tem um dos menores índices de leitura de jornais do mundo15, há décadas a televisão é o principal meio de informação da maioria da população. Aspecto que pode ser confirmado na Pesquisa Brasileira de Mídia (PBM), 2016 (última disponível até o fechamento deste texto), desenvolvida pelo Instituto Brasileiro de Opinião e Estatística (Ibope) a pedido da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom), a qual revela que para 89% dos brasileiros a televisão permanece como meio de comunicação de maior utilização para obter informações. Na mesma pesquisa, consta que o número de pessoas que leem jornais corresponde a 12%, ocupando o quarto lugar na preferência dos brasileiros, depois da Internet (49%) e o rádio (30%). O tempo médio de leitura dedicado aos jornais, nessa pesquisa, é de uma hora e dez minutos ao dia, contrastando com o tempo médio de consumo diário da televisão, de três horas e 21 minutos, da Internet, de quatro horas e 44 minutos, e do rádio, de três horas e oito minutos, todos durante a semana.

Meyer demonstrou, através de estudos feitos pela General Social Survery, entre 1967 e 2002, que a tendência do número de leitores é de queda de 0,95 pontos percentuais por ano. “Tente prolongar essa linha com a régua e ela mostrará que não haverá mais leitores diários de jornais no primeiro trimestre de 2043” (MEYER, 2007, p. 27). Coelho Neto (2003) alerta que, ao contrário dos jornais, outros veículos conseguiram ampliar, ou pelo menos manter sua penetração. Sobre este aspecto, a PBM 2016 revela que, pela primeira vez, a Internet

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Estudo realizado pela agência NOP World para medir “hábitos de Mìdia” em 30 países, classificou o Brasil na 27ª posição no ranking de leitura, à frente apenas de Tawian, Japão e Coréia. Disponível em: <https://publishingperspectives.com/wp-content/uploads/2013/06/Hours-Spent-Reading-Around-the-World.jpg>

conseguiu superar o rádio na preferência por busca de informações. Nas pesquisas anteriores o rádio apresentava declínio, mas era o segundo mais utilizado: 2014 (61%) e 2015 (55%).

Assim, a Internet parece aumentar a zona de risco dos jornais impressos e outros meios. Significa mais um meio de comunicação disputando um universo de leitores que já estava em declínio. Coelho Neto e Meyer chamam a atenção para uma questão que pode ser a verdadeira fonte de queda do número de leitores: a questão de substituição geracional. Desde que a geração dos baby boomers (nascidos no pós-guerra) envelheceu, sabemos que os jovens leem menos jornais do que os mais velhos. Na mesma linha de pensamento, Coelho Neto afirma que a demografia pode estar se tornando uma séria restrição ao consumo de jornais impressos, visto que jovens leitores não demonstram interesse na leitura dos jornais ou nunca desenvolveu uma dependência dos jornais diários para obter informações.

Mas, numa perspectiva otimista, Meyer (2007, p. 29) pondera que “estamos falando aqui de leitura diária, mas é possível ter um negócio bastante bom mesmo que o produto seja usado pelos leitores apenas duas vezes por semana”. A preocupação de Coelho Neto e Meyer sobre o hábito de leitura nas diferentes faixas etárias pode ser identificada no Gráfico 01, extraído da PBM 2016, que faz uma relação entre a idade e a preferência dos entrevistados pelas versões impressa e digital. Entre os que leem jornais, a preferência pelo impresso é mais significativa para as gerações acima de 35 anos.

Gráfico 1: PBM 2016. Relação faixa etária x versão mais lida, quando o entrevistado respondeu se

tem costume de ler jornais mais na versão impressa ou mais na versão digital, seja no computador, no celular ou no tablet:

Fonte: Pesquisa Brasileira de Mídia (BRASIL, 2016, p. 70).

Sobre a tendência de queda na leitura de jornais, a ANJ observa que na PBM 2016, em relação à pesquisa de 2015, esses veículos passaram a ser mais lidos. A instituição avalia que a frequência de leitura de jornais, ao menos uma vez por semana, subiu de 21% para 32% entre os dois últimos estudos. Na PMB de 2016, o índice de leitura de jornais em plataformas digitais ainda é baixo: 30% contra 66% dos que preferem fazê-lo na versão impressa. Por outro lado, vale observar que a versão digital subiu de 10% para 30%, ou seja, três vezes mais

que na pesquisa anterior, enquanto a opção pelo veículo impresso recuou de 79% para 66%, de 2015 para 2016.

Rondônia, Rio Grande do Norte e Ceará são os estados com maior adesão às versões online dos periódicos, respectivamente, 59%, 53%, e 48%, enquanto Rio Grande do Sul, Minas e Pará são os com menor adesão: 15%, 21% e 21%, respectivamente. Uma pista para esse contraste aparece ao se comparar os percentuais de população idosa (65 anos ou mais) desses estados, que são maiores em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul, embora não no Pará (ver Anexo 1). Ou seja, há indícios de que se trata de uma questão geracional, como apontado por Coelho Neto e Meyer. Mas, seriam necessários estudos geodemográficos mais acurados para desvendar claramente essas discrepâncias.

Um exemplo que corrobora essa mudança no comportamento do leitor verifica-se no jornal O Mossoroense, do Rio Grande do Norte, objeto de estudo desta dissertação, que se tornou cem por cento digital após 143 anos de circulação em papel. Mesmo tendo construído uma relação de credibilidade com sua audiência, ao longo da sua história, O Mossoroense decidiu mudar para o modelo digital ao perceber a perda vertiginosa de leitores nas edições impressas e uma mudança no perfil e comportamento dos leitores que já possuía online. Este jornal ganhou sua primeira versão digital em 1999, cinco anos depois da chegada da Internet comercial no Brasil. Naquele ano, o site registrava cem acessos diários, contra cinco mil exemplares do impresso (uma relação de 2% do primeiro sobre o segundo). Em 2015, último ano de circulação do diário, não mais do que mil exemplares eram vendidos por dia, para uma cidade de 290 mil habitantes (Mossoró), enquanto as visualizações no site alcançavam 80 mil por dia (80 vezes mais), com acessos registrados em 59 países16.