2 – JORNALISMO REGIONAL E JORNALISMO DO INTERIOR NO BRASIL
3. ESTUDO DE CASOS: DUAS OPÇÕES DE TRANSIÇÃO NA REGIÃO NORDESTE
3.2. O jovem semanário Cinform
3.2.6. Aspectos tecnológicos da versão digital do Cinform
Em relação às características tecnológicas, o Cinform criou um produto jornalístico digital no formato PDF que pode ser lido em vários dispositivos telemáticos, como celular, computador ou tablete; “o jornal de uma coluna”, como disse o criador do modelo, Alberto Alcosa, diretor de marketing da empresa. Inovou na forma de distribuição, por meio do aplicativo gratuito Whatsapp, visto que este é uma ferramenta bastante utilizada e acessível ao público de diferentes camadas sociais, apesar de todos os riscos que um aplicativo gratuito oferece. Por outro lado, a empresa jornalística rompe com todas as experiências de jornalismo digital anteriormente registradas ao deixar de utilizar uma série de recursos tecnológicos oferecidos na criação de sites e portais jornalísticos, como apresentado no capitulo 1 desta dissertação.
Traçando um paralelo das características tecnológicas deste semanário com o que está sistematizado pelos estudos sobre jornalismo digital, pode-se dizer que:
1- Multimidialidade - o Cinform digital apenas reproduz o modelo estático do impresso, com textos e fotos dispostos linearmente, sem qualquer recurso multimídia;
2- Interatividade - não há espaço para interação do leitor no arquivo digital do jornal, apenas informação sobre os contatos de telefone e e-mail, da mesma forma como se tinha no produto impresso. Nas edições analisadas não há referência a carta, e-mail ou qualquer tipo de comentário que leitores tenham feito em relação aos conteúdos veiculados. A partir dos aspectos relacionados por Palacios e Schwingel, existe interação do usuário a partir do momento que entra em contato com os conteúdos, navega por eles ou faz algum tipo de contato com pessoas envolvidas na produção ou circulação dos conteúdos.
O editor do Cinform disse que obtém reação dos usuários por meio do Whatsapp disponibilizado no jornal (ver item sobre redes sociais). Outro tipo de interação observada está no preenchimento dos dados no site do jornal para receber gratuitamente a edição semanal, ou ainda os comentários realizados na página da empresa no Facebook e no Instagram, ou o simples compartilhamento do PDF do jornal. Ou seja, o nível mais baixo de interação entre os múltiplos recursos oferecidos pelo ambiente digital.
3- Hipertextualidade - Essa conexão de textos através de links que permite vínculo entre os conteúdos e possibilita aprofundar, ampliar narrativas ou até apontar desdobramentos
de informações não foi identificada no Cinform digital no período pesquisado. O que se observou foi o uso instrumental do link basicamente com dois objetivos: servir para encurtar o caminho entre o índice e os conteúdos do jornal digital em PDF; oferecer aos clientes a possibilidade de fazer link das propagadas com os sites e números de contatos de Whatsapp para contratação dos produtos ou serviços oferecidos pelos anunciantes.
Os criadores do semanário digital identificaram a dificuldade de o leitor usar o dedo na tela do celular para rolar as 200 páginas do jornal, então passara a usaram o link como solução para levar as pessoas do índice principal ao texto. Dois dos responsáveis pela criação deste jornal deixaram claro que foi uma decisão da direção não fazer uso do link para outros conteúdos para não quebrar a leitura linear (tal qual o impresso) nem desviar a atenção do leitor para outros produtos no momento da leitura. Exceto para fins comerciais.
4- Personalização ou customização - O critério editorial do Cinform de trabalhar com segmentação de cadernos não é uma iniciativa exclusiva do jornal digital. O fracionamento dos conteúdos em cadernos remete à customização feita desde o impresso como estratégia de conquistar e fidelizar leitores e clientes comerciais, tanto do ponto de vista geográfico, a exemplo do Caderno Municípios, quanto para atrair e manter anunciantes de determinados nichos de mercado, como veículos e imóveis, por exemplo;
5- Memória - A ausência dessa característica é gritante. Vai de encontro a um dos principais diferenciais entre o padrão impresso de jornalismo e o digital, não só pela possibilidade de dispor de espaço ilimitado para armazenamento de conteúdos noticiosos, favorecendo tanto o produtor quanto o usuário, quanto pelos aspectos de “memória múltipla, instantânea e cumulativa” descritos por Palacios (2003).
A solução de disponibilizar para o público as edições anteriores, mediante requerimento prévio, como informou o diretor de marketing do jornal, é pouco convincente e esconde a intenção de manter o modelo tradicional perecível (com prazo de validade semanal), para negociar novas publicidades. A decisão de não disponibilizar de forma cumulativa as edições anteriores em um repositório no site está relacionada com a questão comercial, ou seja, uma vez disponibilizada de forma estática na internet e vinculada às notícias a publicidade também estaria sendo exibida de forma permanente, inviabilizando assim novas negociações com os anunciantes (essa deficiência do modelo estático não ocorre com o digital da plataforma Web, como veremos no modelo de O Mossoroense);
6- Instantaneidade e atualização contínua – inúmeros veículos impressos com periodicidade não diária, em especial revistas semanais e mensais, já demonstram que o modelo híbrido de atualização de conteúdos, com maior velocidade no meio digital e
complementação intermídia, é um caminho sem volta para o jornalismo. No entanto, os dirigentes do Cinform preferem ater-se ao paradigma de periodicidade do impresso, com a atualização semanal, mesmo dos desdobramentos que vão para o site da empresa após a publicação do PDF.
7- Flexibilização dos limites de tempo e espaço como fator de produção - Essa flexibilização é relativa no modelo do Cinform PDF, visto que o processo de produção pouco se diferencia do modelo impresso, ou seja, a equipe tem reunião e distribuição de pauta, apuração, produção dos conteúdos e finalmente envio para o trabalho de diagramação e finalização. Tem um deadline para finalizar o produto e circular por um tempo também determinado. A flexibilização, no caso do Cinform, acontece mais em termos de espaço do que de tempo no processo de produção dos conteúdos, pois é facultado ao jornalista produzir os conteúdos fora do ambiente da redação (teletrabalho);
8- Uso das redes sociais - Apesar de este semanário digital ser uma metáfora do impresso, desconsiderando a maioria das possibilidades do jornalismo digital, a empresa faz uso das plataformas de redes sociais, consideradas elementos da chamada quinta geração do jornalismo digital. As redes sociais Whatsapp, Instagram e Facebook foram adotadas pelo Cinform com usos diferenciados: o primeiro tem sua maior utilidade na distribuição do jornal; enquanto as outras duas servem para amplificar as publicações semanais, divulgando capas e manchetes principais.
Observa-se pouca interação do público nas postagens das redes sociais, considerando que a empresa divulga ter uma base de 85 mil recebedores do jornal. Testemunho do editor destaca o uso do Whatsapp também para contato com as fontes, recebimento de pautas do público leitor e feedback das publicações. Se considerarmos que esse aplicativo e os dispositivos móveis são os preferidos entre os brasileiros, do ponto de vista estratégico de penetração social, o jornal inovou ao criar um produto preferencialmente para ser lido e distribuído através de smartphone.
9 - Visual gráfico, uso de imagem - Como não há nenhum produto jornalístico digital do mesmo gênero dentro e fora do Brasil, até o momento, foi necessário que a equipe do jornal desenvolvesse um modelo único. Design responsivo com visual gráfico próprio para vários tamanhos de aparelhos eletrônicos móveis do tipo tablet, smartphone e também computador. Para o criador do produto, Alberto Alcosa, foi um desfio ajustar um tamanho que fosse compatível para os vários aparelhos, com um tipo de letra que fosse factível a leitura e ao mesmo tempo visualmente atrativo. “É um jornal de uma coluna” (ver entrevista nos Anexos), com um número limitado de caracteres para cada notícia.
10- Automatização no processo de produção “e distribuição” - Pode-se dizer que a automação no processo de produção do jornal Cinform digital é limitado, praticamente o modelo da redação convencional como saídas para apuração e produção dos conteúdos, entrevista presencial, trabalho manual de coleta de dados. Mesmo com o uso do celular e do computador portátil, o processo não é automatizado, a começar pela ausência de um banco de dados jornalístico e de um sistema próprio (ou adaptado) de gestão de conteúdos. O processo de automação restringe-se à distribuição do jornal digital, em formato PDF, por meio do recurso de “transmissão” do Whatsapp. Mesmo assim, na entrevista, o editor revelou que faz manualmente a distribuição do jornal para alguns grupos do aplicativo do qual participa.
Em resumo, o processo de transição do impresso para o digital do Cinform caracteriza-se por uma ruptura apenas parcial com o modelo do impresso, praticamente restrita à circulação. O processo de produção de notícias pouco se diferencia de um sistema de produção tradicional. Ou seja, o produto gerado é ao mesmo tempo anacrônico e inovador. Anacrônico em relação aos aspectos de construção narrativa (ausência de hipertextualidade multimidialidade, flexibilização dos limites de tempo e espaço, de memória e customização), às rotinas editoriais (ausência de atualização contínua, uso de banco de dados, interatividade) e à metáfora estética do impresso no processo de produção e na lógica da entrega do produto final. Inovador por ser inédito no formato criado, principalmente para smartphone, com foco nas redes sociais e na circulação, que se utiliza da automatização e da rede de internet para alcançar o público.
Figura 7 – Página inicial do site do Cinform