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A utilidade estratégica do paradigma do trabalho decente

3. O TRABALHO FORÇADO E O TRABALHO ESCRAVO NO CENÁRIO

3.3. O trabalho decente e sua importância para combater a exploração do trabalho

3.3.2. A utilidade estratégica do paradigma do trabalho decente

O conceito de trabalho decente engloba praticamente todos os princípios e diretrizes estabelecidos na organização, desde seu surgimento em 1919. Ele representa a criação de um ambiente de segurança econômica básica onde os agentes econômicos, em todas as sociedades, contribuem para o surgimento recíproco das oportunidades de emprego e melhoria da segurança econômica e social.

Segundo Ghai159, ele pode ser considerado um conceito que captura, sucintamente, a essência da missão da OIT no mundo do trabalho. Este conceito facilita a busca de soluções, uma vez que é aplicável a todas as sociedades. Isto porque não há dúvida que é vontade de todos se oporem ao trabalho forçado, abolir o trabalho infantil, acabar com a falta de liberdade, inclusive sindical, evitar a precariedade do trabalho, assim como buscar o diálogo social.

A amplitude do conceito de trabalho decente supera uma antiga crítica que era feita frequentemente à OIT: a definição de trabalho tradicional, as políticas de emprego, os padrões de trabalho, as relações de emprego, e o sistema de proteção social contemplados nas suas normativas (Convenções e Recomendações) eram baseados somente no modelo de economias de mercado industrializadas, aplicando-se apenas ao setor formal da economia e,

159GHAI, Dharan (Ed.). Decent work: objectives and strategies. Geneva: IILS; ILO, 2006.

Disponível em: <http://www.oit.org/public/english/bureau/inst/download/decentghai.pdf>. Acesso em: 29 maio 2008.

consequentemente, ao mercado de trabalho. Desta forma, um amplo conjunto de países e de segmentos da força de trabalho não se beneficiava das políticas estimuladas com base nessas normativas. A terminologia criada permite compreender mais facilmente a natureza das dificuldades do mercado de trabalho, levando a um conceito analítico mais universalista do mundo do trabalho.

No relatório do Diretor-geral da OIT, que lançou definitivamente o princípio do trabalho decente, houve uma preocupação de transformar esta visão estratégica em ações contidas em programas da Instituição.160 Definiram-se quatro objetivos básicos, que estão no cerne do conceito: (a) prevalência dos direitos no trabalho; (b) garantia de emprego e renda; (c) fortalecimento da seguridade e proteção social; e (d) fortalecimento do diálogo social.

Nas palavras da OIT:

These four objectives together define the ways in which the ILO can promote the primary goal of decent work. Decent work means productive work in which rights are protected, which generates an adequate income, with adequate social protection. It also means sufficient work, in the sense that all should have full access to income-earning opportunities. It marks the high road to economic and social development, a road in which employment, income and social protection can be achieved without compromising workers' rights and social standards. Tripartism and social dialogue are both objectives in their own right, guaranteeing participation and democratic process, and a means of achieving all the other strategic objectives of the ILO. The evolving global economy offers opportunities from which all can gain, but these have to be grounded in participatory social institutions if they are to confer legitimacy and sustainability on economic and social policies161.

a) Direitos no trabalho

Os direitos no trabalho se constituem na imposição ética e legal para os elementos referentes ao trabalho decente. Sua função é assegurar que todo trabalho esteja associado com a dignidade, a igualdade, a liberdade, remuneração adequada, proteção social e voz que representa o trabalhador. O conteúdo dos direitos no trabalho tende a variar segundo as tendências

160INTERNATIONAL LABOUR ORGANIZATION. Decent work. Report of the Director-General,

International Labour Conference, 87th Session, cit., p. 1. 161Id. Ibid., p. 5.

ideológicas, envolvendo, contudo, desde o clássico direito à vida, liberdade e propriedade até noções mais amplas englobando direitos econômicos, políticos, sociais e culturais. Não existe uma hierarquia e nem uma universalidade do que venha a ser direitos no trabalho, mas há um consenso de que devem contemplar aqueles contidos na Declaração de Direitos e Princípios Fundamentais no Trabalho de 1998.

b) Fortalecimento da proteção social e da seguridade social

Deve haver uma ampliação do conceito de proteção social tradicional sob duas óticas. A primeira é que a noção de proteção social deve transcender o apoio somente ao trabalhador assalariado e membros de sua família, destinando- se também àqueles indivíduos desempenhando uma atividade fora do emprego assalariado. A segunda ótica refere-se a uma ampliação do espectro de contingências para além daquelas já contempladas nas Convenções da OIT sobre o tema, visando alcançar a vulnerabilidade de todos os membros da sociedade, e não somente aqueles tradicionalmente privilegiados. Esta proteção inclui respaldo à saúde, necessidade de apoio na maternidade, acidentes no trabalho, desemprego, flutuações econômicas extremas, conflitos civis e desastres naturais.

c) Emprego e renda

O emprego é de vital importância para a promoção do trabalho decente. Sem um emprego produtivo, os objetivos de um padrão de vida decente, e um adequado desenvolvimento pessoal, econômico e social são ilusórios. Não existe, entretanto, consenso sobre como gerar emprego através de políticas alternativas. Para a maioria, é através do crescimento, para outros, seria a flexibilidade do mercado de trabalho; existem aqueles que acreditam que isto se dá pelo desenvolvimento das competências e habilidades dos indivíduos, e até mesmo quem propõe aos trabalhadores compartilhar um posto de trabalho. Outra peculiaridade para que se consolide como trabalho decente é que o emprego deve ser livremente escolhido, não podendo haver discriminação contra qualquer categoria de trabalhadores, ou então grupos vulneráveis ou mesmo minorias.

d) Fortalecimento do diálogo social

O diálogo social deve ser um caminho seguro para prover voz e representatividade aos participantes do processo produtivo, tanto os trabalhadores, quanto os empregadores, não excluindo a participação do governo. Torna-se necessário aos intervenientes defender seus interesses, estabelecerem suas prioridades e se engajarem em discussões e negociações entre si. Na busca desse fortalecimento, as organizações de trabalhadores e empregadores são parte crucial da uma plena participação democrática, em direção ao alcance do trabalho decente. Elas proporcionam um canal competente para seus membros não só atuarem juntos no estabelecimento de diretrizes comuns, mas, também interagirem com outros segmentos da sociedade num sentido bem amplo. Com isto, um forte diálogo social acaba por demandar outros grupos sociais na concretização do trabalho decente, que não fica limitado somente às ações de trabalhadores e empregadores, com a supervisão do governo.