• Nenhum resultado encontrado

As dimensões no direito fundamental do trabalho

5. TRABALHO FORÇADO E TRABALHO ESCRAVO À LUZ DOS DIREITOS

5.2. As dimensões no direito fundamental do trabalho

Os direitos fundamentais passaram por várias transformações, desde a sua introdução nas Constituições, no que diz respeito a seu conteúdo, eficácia, titularidade, bem como efetivação. Defende-se a existência de três ou mais dimensões de direitos. Nesse sentido, há quem defenda a existência de uma quarta, uma quinta e até uma sexta geração de direitos283.

A discussão sobre as dimensões não termina na quantidade, seguindo, inclusive, para sua nomenclatura, uma vez que não só os direitos fundamentais sofreram alterações ou críticas.

Muito utilizada, a nomenclatura “gerações” também foi questionada, uma vez que alguns autores defendem que este termo pode dar falsa impressão que uma “geração” pode ser substituída por outra, quando na prática está surgindo o reconhecimento progressivo de novos direitos fundamentais, e essa realidade tem o caráter de um processo cumulativo, fazendo com que o termo “dimensões” tenha uma colocação mais apropriada.

Estas dimensões são as seguintes:

a) Direitos fundamentais de primeira dimensão: diz respeito às liberdades e direitos políticos, traduzindo o valor da liberdade. Pode-se entender que esta dimensão abrange uma obrigação de não agir por parte do Estado, garantindo a liberdade aos particulares, ou seja, o Estado não pode interferir na liberdade dos indivíduos.

282COMPARATO, Fabio Konder. A afirmação histórica dos direitos humanos. 4. ed. São Paulo:

Saraiva, 2005. p. 57.

283SARLET, Ingo Wolfgang. A eficácia dos direitos fundamentais: uma teoria geral dos direitos

b) Direitos fundamentais de segunda dimensão: privilegia os direitos sociais, culturais e econômicos, ou seja, corresponde aos direitos de igualdade. Assim, imputa ao Estado uma obrigação de fazer, pois este é considerado agente de bem-estar da coletividade. Opostos aos primeiros, tais direitos de segunda dimensão necessitam de ação por parte do Estado para a sua efetivação.

c) Direitos fundamentais de terceira dimensão: nesta, o fato de o ser humano estar em grupo foi entendido como uma coletividade, passando, assim, a ter direitos de solidariedade. Acredita-se que estes direitos são reflexos dos fundamentos de nosso país, necessitando, de tal modo, da ação por parte do Estado e, também, da sociedade. Sendo assim, entende-se que a terceira dimensão abrange os direitos da fraternidade ou da solidariedade, sendo de titularidade difusa como, por exemplo, o direito à paz.

Destarte, não podemos deixar de mencionar que atualmente existem outras dimensões. Paulo Bonavides traz a ideia da quarta dimensão, que são aqueles direitos correspondentes à fase final da constitucionalidade do Estado social, trazendo, assim, os direitos à democracia, à informação, entre outros. Este autor reza que “são direitos de quarta geração o direito à democracia, o direito à informação e o direito ao pluralismo. Deles depende a concretização da sociedade aberta para o futuro, em sua dimensão de máxima universalidade, para a qual parece o mundo inclinar-se no plano de todas as relações de convivência”284.

Existe, ainda, uma quinta dimensão dos direitos fundamentais, onde Bonavides faz menção ao direito à paz, justificando este pensamento com base nas razões históricas e, também, no momento atual do Direito. Um fato marcante para o desenvolvimento deste pensamento foi a catástrofe de 11 de setembro de 2011, nos EUA. Nesta perspectiva, Bonavides liga os direitos fundamentais de quinta geração à promoção da paz por parte do Estado, que deve estabelecer e conservar a sociedade por meio de normas e princípios. Ademais, alguns

284BONAVIDES, Paulo. Curso de direito constitucional. 25. ed. São Paulo: Malheiros Ed.,

doutrinadores, como por exemplo, Augusto Zimmermann, não adotam esta ideia, pois relacionam a quinta geração aos direitos com a realidade virtual.

Já a sexta dimensão reforça uma preocupação presente dos direitos de terceira dimensão, fundamentando-se, porém, num único bem, a água potável, pois esta vem causando sérias preocupações com relação a sua disponibilidade no futuro, conforme diz Boaventura de Sousa Santos:

A desertificação e a falta de água são os problemas que mais vão afetar os países do Terceiro Mundo na próxima década. Um quinto da humanidade já não tem hoje acesso à água potável285.

De tal modo, os direitos de primeira e segunda dimensão colhem os direitos tradicionais de liberdade, vida, propriedade, igualdade de direitos e garantias políticas. Os direitos fundamentais de terceira e quarta dimensão precisam de maiores cuidados ao transcorrer de seu estudo, pois claro exemplo disso é o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, que é enquadrado nos direitos de terceira dimensão, mesmo estando fora do rol previsto no título que trata dos direitos fundamentais na Constituição.

As características do homem que são apresentadas na Constituição e os valores que os direitos fundamentais, além de se preocuparem com as relações entre o Estado e seus cidadãos, preocupam-se, também, com as relações jurídicas existentes entre os particulares286, servindo de base para o Direito Civil287,288.

285SANTOS, Boaventura de Souza. Crítica da razão indolente: contra o desperdício da

experiência. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2001. p. 24.

286Exemplo da aplicação, pelo STF, dos Direitos Fundamentais nas relações privadas; dentre eles

o RE 161.243-6/DF (Caso Air France) e RE 158.215-4/RS (Exclusão de sócio). SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. Disponível em: <www.stf.gov.br>.

287Isso porque não é possível conceber o direto privado à margem do direito constitucional: ambos

aparecem como partes necessárias de um ordenamento jurídico unitário que reciprocamente se completam, se apoiam e se condicionam. Cf. HESSE, Konrad. Derecho constitucional y derecho

privado. Madrid: Cuadernos Civitas, 1995. p. 81.

288Cf. STARCK, Christian. Derechos fundamentales y derecho privado. Revista Española de

Derecho Constitucional, ano 22, v. 66, p. 74, 2002. O autor relata que o artigo 1.1 da Lei

Fundamental da Alemanha impõe ao Estado o dever de garantir a dignidade humana também nas relações privadas, o que seria semelhante ao artigo 1º, inciso III da Constituição Federal brasileira. Interessante observar, porém, que alguns países adotaram, em suas constituições, cláusulas expressas sobre a vinculação dos Direitos Fundamentais nas relações entre particulares, como na Suíça e em Portugal, não defendendo a irradiação de efeitos com base apenas na dignidade humana.

Sintetizando, a dimensão objetiva dos direitos fundamentais serve como exemplo pelo qual o Estado deve tomar como base e, desta forma, atuar para proteção dos direitos fundamentais, seja em suas relações com os cidadãos ou entre eles, de modo que o Estado possa atuar como um interventor a fim de conseguir maior aplicabilidade desses direitos.

Para Marcus Orione, a teoria sobre as gerações de direitos:

Tem sido bastante combatida, sob a alegação que entendemos pertinente, de que não há que se ter como estanques os diversos direitos antes elencados (...) Por outro lado, a própria expressão geração de direitos é bastante imprópria, dando a sugerir a exclusão de postulados de uma das gerações na consolidação dos conceitos envolvendo os de outras289.

O elenco dos direitos humanos contemplados pelo Direito Positivo foi se alterando do século XVIII até os nossos dias. Assim caminhou-se historicamente dos direitos humanos de primeira geração – os direitos civis e políticos de garantia, de cunho individualista voltados para tutelar a diferença entre Estado e Sociedade e impedir a dissolução do indivíduo num todo coletivo – para os direitos de segunda geração – os direitos econômicos, sociais e culturais concebidos como créditos dos indivíduos com relação à sociedade, a serem saldados pelo Estado em nome da comunidade nacional. O processo de asserção histórica das duas gerações de direitos humanos, que são direitos de titularidade individual, foi inspirado pelos legados cosmopolita e universalista do liberalismo e do socialismo290.

Como marco histórico da positivação dos direitos humanos, pode-se mencionar a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789.

A universalidade dos direitos humanos, entretanto, não é uma unanimidade. Ao lado do que se convencionou chamar “universalismo” tem-se o que se denomina “relativismo cultural”, concepção segundo a qual a diversidade de culturas determinaria a impossibilidade de ter uma ordem mundial a respeito desse conjunto mínimo que se denomina Direitos Humanos291.

289CORREIA, Marcus Orione Gonçalves. Os direitos sociais enquanto direitos fundamentais.

Revista da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, São Paulo, v. 99, p. 306-307,

2004.

290LAFER, Celso. A reconstrução dos direitos humanos: a contribuição de Hannah Arendt. Estudos

Avançados, São Paulo, v. 11, n. 30, p. 57, 1997.

291BRITO FILHO, José Cláudio Monteiro de. Trabalho decente: análise jurídica da exploração do

O trabalho deve ser compreendido como uma atividade valorativa com capacidade para agregar valor, pois integra os direitos sociais292. Trata-se do direito ao trabalho, onde:

A análise do trabalho como valor nos remonta ao homem anterior à sociedade, porque, embora mais próximo do instinto do que da razão, já era premido ao labor para atender a mais primária e irrenunciável das necessidades, a sobrevivência. A partir desta constatação, portanto, é possível compreender trabalho como um valor básico da vida humana293.

Sob a ótica histórica, o cenário onde se gera o embrião dos direitos fundamentais com a Declaração de Direitos do povo da Virgínia, de 1776, e a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789 – marcos do início da era contemporânea − estava ainda muito ressentido pelo Estado absolutista até então vigente. Contudo, a sociedade se transformava rapidamente, e ao Estado não era mais suficiente que garantisse somente os direitos de defesa aos cidadãos. A Revolução Industrial, que efetivamente provocou crescimento econômico, também aumentava cada vez mais a desigualdade na repartição da riqueza.

Diante desse quadro, o liberalismo na Economia, representado sobremaneira pelas ideias de Adam Smith294, não conseguia mais sustentar que a concorrência maximiza o desenvolvimento econômico e que os benefícios do desenvolvimento seriam partilhados por toda a sociedade.

292CORREIA, Marcus Orione Gonçalves. op. cit., p. 305-325.

293PINTO, José Augusto Rodrigues. O trabalho como valor. Revista LTr, São Paulo, ano 64, n. 12,

p. 1489, dez. 2000.

294A primeira grande obra de Economia Política foi o livro “Riqueza das Nações”, de Adam Smith,

que adotava uma atitude liberal. Apoiava o não intervencionismo, pois acreditava que o intervencionismo prejudicava mais do que beneficiava a atividade econômica. A desigualdade é vista como um incentivo ao trabalho e ao enriquecimento (logicamente os pobres querem ficar ricos e atingir o nível das classes ricas e mais beneficiadas), sendo uma condição fundamental para que as pessoas se mexam e tentem atingir níveis melhores de vida. Sua grande contribuição para o Pensamento Econômico é exatamente a chamada “Teoria da Mão

Invisível“,onde,para ele, todos aplicam o seu capital para que ele renda o mais possível;a pessoa

ao fazer isto não tem em conta o interesse geral da comunidade, mas sim o seu próprio interesse – neste sentido é egoísta. O que Adam Smith defende é que, ao promover o interesse pessoal, a indivíduo acaba por ajudar na prossecução do interesse geral e coletivo. Afirmava que não pela benevolência do padeiro ou do açougueiro que nós temos o nosso jantar, mas é pelo egoísmo deles, pois os homens agindo segundo seu próprio interesse é que se ajudam mutuamente. Neste caminho ele é conduzido e guiado por uma espécie de Mão Invisível. MERCANTILISMO. Correntes de Pensamento Econômico & Retrospectiva Econômica Brasileira. Disponível em: <http://economiafenix.wordpress.com/tag/mercantilismo/>.

No final do século XIX, surgem movimentos sociais e, com eles, novas concepções filosóficas e econômicas. Karl Marx foi um dos maiores críticos do sistema então vigente, diagnosticando a concentração de renda que estava sendo gerada pelo processo de industrialização, fazendo com que cada vez mais o excedente do tempo de trabalho dos operários fosse apropriado pelos donos dos fatores de produção (a terra, o trabalho e o capital).

Dessa maneira, o Estado passa a ter uma participação ativa na sociedade. Na história do século XX, passamos a conviver com o Welfare State, Estado de Bem-Estar Social. Progressivamente, mais recursos públicos são destinados a gastos sociais, como saúde, segurança, bem-estar, educação e previdência social. O Estado passa a ser devedor de prestações positivas da sociedade, como nos ensina Alexy:

Para el problema de losderechos subjetivos a prestaciones tienen importância, sobre todo, lasdecisiones em las que no solo se habla – como suele suceder – de obligaciones objetivas Del Estado, sino que, además, se analizanderechos subjetivos a acciones positivas295.

Os direitos constitucionais trabalhistas abarcam não somente o direito a um trabalho digno, mas, sobretudo, com igualdade de condições e pleno exercício da liberdade. A efetivação dos direitos fundamentais ao trabalho digno depende de medidas vinculadas ao Estado, que cria legislação infra legal específica. Apesar das tentativas para exterminar o trabalho forçado, que alcança tanto o sistema jurídico brasileiro quanto sistemas jurídicos internacionais, a OIT promove permanentemente a edição de Convenções a fim de restabelecer os direitos sociais às pessoas submetidas ao trabalho forçado, entre outros objetivos.

Em 1998, a OIT lançou sua Declaração dos Direitos Fundamentais no Trabalho, a qual será mencionada no capítulo seguinte, integrada por quatro princípios que reafirmam o compromisso dos Estados membros, em respeitar e promover os princípios fundamentais e direitos no trabalho, a saber296:

295ALEXY, Robert. Teoria de los derechos fundamentales. Madrid: Centro de Estudos Políticos y

Constitucionales, 2002. p. 422.

a) a liberdade sindical e o reconhecimento efetivo do direito de negociação coletiva;

b) a eliminação de todas as formas de trabalho forçado ou obrigatório; c) a abolição efetiva do trabalho infantil; e

d) a eliminação da discriminação em matéria de emprego e ocupação297.

No contexto desta Declaração, falar sobre direitos humanos representa adotar as vantagens dos direitos e liberdades fundamentais, onde prevalece o princípio da dignidade humana.

O valor da pessoa humana como valor-fonte da ordem da vida em sociedade encontra a sua expressão jurídica nos direitos humanos. Estes foram, a partir do século XVIII, positivados em declarações constitucionais. Tais positivações buscavam, para usar as categorias arendtianas, a durabilidade do workdo homo- faber, através de normas da hierarquia constitucional. Tinham como objetivo tornar aceitável, ex partepopulio estar entre os homens (o inter homines esse) em sociedades que se caracterizariam pela variabilidade do Direito Positivo – a sua dimensão de labor – requerida pelas necessidades da gestão do mundo moderno, tal como percebidas pelos governantes298.

Seguindo-se esta forma de raciocínio, devemos ter que direitos fundamentais e direitos humanos são conceitos muito próximos:

O termo direitos fundamentais se aplica para aqueles direitos do ser humano reconhecidos e positivados na esfera do direito constitucional positivo de determinado Estado, ao passo que a expressão direitos humanos guardaria relação com os documentos de direito internacional (...) independentemente de sua vinculação com determinada ordem constitucional (...) de tal sorte que revelam um inequívoco caráter supranacional299.

Os direitos humanos, originariamente, tiveram como função fazer com que o Estado não interferisse, ou o fizesse no menor grau possível, na autonomia

297ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO. Declaração da OIT sobre os Princípios e

Direitos Fundamentais no Trabalho. Disponível em: <http://www.oitbrasil.org.br/sites/default/files/topic/oit/doc/declaracao_oit_547.pdf>.

298LAFER, Celso.op. cit., p. 57.

privada dos cidadãos, ou seja, os direitos dos indivíduos perante o Estado se caracterizavam como de defesa.