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O trabalho humano e os direitos fundamentais

5. TRABALHO FORÇADO E TRABALHO ESCRAVO À LUZ DOS DIREITOS

5.1. O trabalho humano e os direitos fundamentais

Por meio de lutas e reivindicações, os direitos humanos fizeram-se presentes em numerosos conflitos políticos até se consagrarem, finalmente, no Direito Positivo. Segundo Immanuel Kant, somente um ser racional possui a capacidade de agir segundo a representação das leis, isto é, por princípios, ou, só ele possui uma vontade272.

Desde a Idade Média o homem vem conquistando o reconhecimento de direitos essenciais. Segundo Cláudio Lembo, em 1188 a Corte de Leon instituiu: a) o direito de todos os habitantes à defesa dos costumes reconhecidos face à legislação real; b) o direito do acusado a processo regular, inclusive perante o rei; c) o direito de os súditos convocarem o conselho sobre todos os assuntos importantes, como a guerra, a paz e os acordos; d) a intangibilidade da vida, da honra, da casa e da propriedade273. Em 21 de junho de 1215, o Rei João Sem

272KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes e outros escritos. 1ª reimp. São

Paulo: Martin Claret, 2008. p. 43.

Terra, em Runnymede – Inglaterra outorgou a Magna Charta Libertatum, onde está explícito o princípio do devido processo legal, do contraditório e da ampla defesa.

1. Nenhum homem livre será detido ou sujeito à prisão, ou privado dos seus bens, ou colocado fora da lei, ou exilado, ou de qualquer modo molestado, e nós não procederemos nem mandaremos proceder contra ele senão mediante um julgamento regular pelos seus pares ou de harmonia com a lei do país274.

A busca, por meio da positivação, do reconhecimento dos direitos humanos pelo Estado encontrou uma história de conquistas, como: a) o Bill of Rights275 da

Inglaterra, de 1689; b) a “Declaração de Direitos do Bom Povo de Virgínia” 276, de 12 de junho de 1776; c) a “Declaração da Independência dos Estados Unidos da América”277; d) a “Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão”278; e) a

“Los temas tratados enlas Cortes de León, fueronpioneros para su época, aunquehoydía nos parecerían cosas normales, e incluso indispensables. Enellas se reconocelainviolabilidaddel domicilio, delcorreo, lanecesidaddelrey de convocar Cortes para hacerla guerra o declarar la paz, y se garantizan numerosos derechosindividuales y colectivos. En estas Cortes, además de ampliar losFueros de Alfonso V de León delaño 1020, se promulgaronnuevasleyes destinadas a proteger a losciudadanos y a sus bienes contra los abusos y arbitrariedades del poder de losnobles, del clero y delpropio Rey. Este importante conjunto de decretos ha sido calificadoconelnombre de "Carta Magna Leonesa". CORTES de León de 1188. Disponível em: <http://es.wikipedia.org/wiki/Cortes_de_Le%C3%B3n_de_1188>.

274MAGNA CARTA.(Magna ChartaLibertatum - 1215). “A ideia de direitos humanos há muito tempo

já existia na Europa, porém costuma-se afirmar que foi com o Rei John Landless, da Inglaterra, e sua Magna Carta (Great Charter, 1215) que surgiu o embrião do que seriam os Direitos Humanos. Não que esse documento tratasse especificamente disso, mas havia menções à liberdade da Igreja em relação ao Estado (embora de maneira nenhuma consagrasse a tolerância religiosa) e à igualdade do cidadão perante a Lei. Com efeito, o parágrafo 39 declarava: “Nenhum homem livre poderá ser preso, detido, privado de seus bens, posto fora da lei ou exilado sem julgamento de seus pares ou por disposição da lei”. O Rei John foi pressionado a assinar a Carta Magna, para evitar as constantes violações às leis e aos costumes da Inglaterra. A partir de então, a sucessão hereditária de bens foi permitida a todos os cidadãos livres, assim como ficou proibida a cobrança de taxas excessivamente altas”. MAGNA CARTA. (Magna Charta Libertatum - 1215). Disponível em: <http://www.rolim.com.br/2002/_pdfs/068.pdf>.

275CORNELL UNIVERSITY. Bill of Rights. Disponível em:

<http://www.law.cornell.edu/constitution/billofrights>.

276DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DA VIRGÍNIA. DHnet - Direitos Humanos. Disponível em:

<http://www.dhnet.org.br/direitos/anthist/dec1776.htm>.

277A DECLARAÇÃO DE INDEPENDÊNCIA DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA. Disponível

em: <http://www.arqnet.pt/portal/teoria/declaracao_vport.html>.

278DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DO HOMEM E DO CIDADÃO DE 1789. Biblioteca Virtual de

Direito Humanos. Universidade de São Paulo. Disponível em: <http://www.direitoshumanos.usp.br/index.php/Documentos-anteriores-%C3%A0-

cria%C3%A7%C3%A3o-da-Sociedade-das-Na%C3%A7%C3%B5es-at%C3%A9- 1919/declaracao-de-direitos-do-homem-e-do-cidadao-1789.html>.

“Declaração Universal dos Direitos Humanos”279, proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em 10 de dezembro de 1948.

Jacob Gorender considera a Declaração Universal dos Direitos Humanos como:

(...) código político e moral que, embora sem o caráter compulsório dos tratados, serve de guia à conduta prática de Estados e indivíduos. Sua aprovação unânime por mais de cinquenta Estados lhe confere a autenticidade de um imperativo categórico kantiano. Com base nela, afirma-se o Estado de Direito, que fornece aos indivíduos os instrumentos jurídicos de proteção e apelação contra os árbitros sempre possíveis de autoridades estatais e do próprio Estado como entidade superior do sistema social280.

A respeito do significado entre direitos humanos e direitos fundamentais, apesar de existam alguns pontos em comum, são diferentes, conforme aponta José Joaquim Gomes Canotilho:

As expressões “direitos do homem” e “direitos fundamentais” são frequentemente utilizadas como sinônimas. Segundo a sua origem e significado, poderíamos distingui-las da seguinte maneira: direitos do homem são direitos válidos para todos os povos e em todos os tempos (dimensão jusnaturalista-universalista); direitos fundamentais são direitos do homem, jurídico-institucionalmente garantidos e limitados espaço-temporalmente. Os direitos do homem arrancariam da própria natureza humana e daí o seu caráter inviolável, intemporal e universal; os direitos fundamentais seriam os direitos objectivamente vigentes numa ordem jurídica concreta281.

Os direitos fundamentais são aqueles reconhecidos pelas autoridades e a eles atribui-se a edição de normas, que são positivadas pelo ordenamento jurídico; já os direitos humanos são intrínsecos à própria condição humana, como é o caso do direito à vida. Para Fabio Konder Comparato:

[...] não é difícil entender a razão do aparente pleonasmo da expressão direitos humanos e direitos do homem. Trata-se, afinal,

279DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS. Adotada e proclamada pela

resolução 217 A (III) da Assembleia Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948. Disponível em: <http://portal.mj.gov.br/sedh/ct/legis_intern/ddh_bib_inter_universal.htm>.

280GORENDER, Jacob. Direitos humanos: o que são (ou devem ser). São Paulo: Ed. Senac São

Paulo, 2004. p. 24-25.

281CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito constitucional e teoria da Constituição. 7. ed.

de algo que é inerente à própria condição humana, sem ligação com particularidades determinadas de indivíduos ou grupos. Mas como reconhecer a vigência efetiva desses direitos no meio social, ou seja, o seu caráter de obrigatoriedade? É aí que se põe a distinção, elaborada pela doutrina jurídica germânica, entre direitos humanos e direitos fundamentais (Grundrechte). Estes últimos são os direitos humanos reconhecidos como tais pela autoridade às quais se atribui o poder de editar normas, tanto no interior dos Estados, quanto no plano internacional; são os direitos humanos positivados nas Constituições, nas leis, nos tratados internacionais282.