As técnicas e materiais para a produção de arte se aperfeiçoaram com a passagem através dos séculos até alcançar a terceira onda. Estas novas artistas, cuja estética se alterou com as conquistas do movimento feminista, apesar de influenciadas pelas suas antecessoras, alteraram sua forma de fazer arte no século XXI. A relevância da luta feminista e de suas artistas nas décadas da segunda metade do século XX abriu novas oportunidades de estudo que até então não eram possíveis para as mulheres. Sua presença no mundo das artes mudou, e a ausência de mulheres na história da arte chega a um fim, enquanto as novas artistas – seguindo o objetivo principal do feminismo, ou seja, a igualdade de gênero em todos os âmbitos da sociedade –, igualam-se aos homens e conseguem se fazer conhecidas e presentes.
A valorização do corpo humano como um todo se transformou num novo tema, em uma sociedade conservadora mesmo após as performances nudistas de muito característica da segunda onda, sobre libertação do corpo e a reconquista do corpo feminino para si, e se renovou de maneira que o corpo, nu e cru, masculino e feminino, em todas as idades, tornou-se a reinterpretação dos primeiros temas artísticos relacionados ao ser humano.
Figura 28 – Comply (2013)
Fonte: Artsy (2018, n. p.)
Alyssa Monks, artista que retrata o corpo humano em momentos inquietantes e que não deveriam ser vistos, além de retratos e cenas cotidianas utilizando a técnica do hiperrealismo em quadros pintados a óleo. A expressividade trazida por Monks em suas obras torna suas pinturas dramáticas e quase abstratas, uma vez que sua utilização de materiais como vidro, água e vapor distorcem vagamente a realidade que ela retrata.
Quando eu comecei a pintar o corpo humano, eu estava obcecada com este e precisava criar o máximo de realismo possível. Eu persegui o realismo até que ele começasse a se desconstruir. [...] Eu estou explorando a possibilidade e o potencial onde a pintura representacional e a abstração se encontram – se ambos podem coexistir no mesmo momento. (MONKS, [201-] n.p.)
A intenção de Monks em transferir a intimidade e vulnerabilidade da experiência do ser humano em suas obras é poder criar uma conexão com o espectador, nas quais é possível sentir a energia em suas superfícies. Expressando os sentimentos mais fundamentais da humanidade em suas pinturas, como amor, perda e a busca por si mesmo, ela se concentra na figura humana, retratando a si e conhecidos em composições de larga escala expressivas e naturais.
Figura 29 – Kiss ([201-])
Fonte: Zupi (2013, n.p.)
A sensualidade implícita utilizada em seus trabalhos traz uma atmosfera única, com certo clima de tensão, combinada aos tons escolhidos, transformando o espectador em uma testemunha de momentos íntimos, cheios de sensibilidade e autenticidade.
Como pioneira da escultura hiperrealista, Carole Feuerman cria manifestações do equilíbrio pessoal em suas obras de nadadoras em grande escala.
A artista, nas últimas quatro décadas, focada em suas obras, esculpiu esculturas monumentais, que contam suas próprias histórias sobre perseverança e sobrevivência. Na busca de se conectar com seus espectadores em um nível mais intuitivo, são as próprias pessoas e seus relacionamentos, convivências e experiências que completam as histórias de suas obras.
Segundo Feuerman, “Nadar e água me fascinam desde que consigo me lembrar, e como resultado, isso se tornou a essência da inspiração das minhas obras” (ARTSY, 2018, n.p.). Seu trabalho, produzido em seu estúdio e no espaço público, combinam uma técnica convencional de escultura utilizando materiais como ferro, bronze e resina, e cria obras híbridas cheias de energia intrínseca com a utilização de água, som e vídeo.
Figura 30 – Monumental Quan (2015)
Fonte: C24 Gallery ([201-], n.p.)
Misturando elementos surrealistas e hiperrealistas em obras clássicas românticas e dedicação e muito estudo, cheias de imaginação, contam histórias sobre sentimentos e pensamentos. Anna Wypych, artista polonesa, concentra-se na condição do ser humano, envolvendo sua força, no poder interior das pessoas e nos demais fatores que fazem parte da humanidade. “[...] eu reflito a essência de um homem, e eu busco nele, em nós, a mais importante força interior, aquela que determina o caráter que molda nossa mente.” (WYPYCH, 2018, n.p.).
Figura 31 – The Flower of Fern (2017)
Fonte: Anna Wypych (2018, n.p.)
Buscando esses sentimentos humanizados em suas pinturas, Wypych acredita em cada um dos seres humanos, e que todos são bons em diferentes momentos – questão que ela expressa em suas pinturas tradicionais. Ela diz que mesmo que ela não vá mudar o mundo com suas obras e suas crenças nas
pessoas, e que estes continuarão cheios de pensamentos e ações ruins, ela ainda assim pode adicionar uma pequena gota de positividade através de sua arte – porque ao compartilhar algo positivo em seus trabalhos, isso pode alcançar alguém que precisa disso. (WYPYCH, 2018, n.p.).
Eu gosto de filosofar, e isso resulta nas minhas pinturas – projetos. Cada um destes é um pensamento separado, um sentimento, por isso de vez em quando eu os expando com um tipo de complemento – textos curtos sobre inspirações e poemas. [...] e cada um continua na próxima pintura. Cada sentimento nos leva ao próximo. (WYPYCH, 2018, n.p.).
Seus retratos de mulheres fortes e poderosas mostram uma grande variedade de força e poder interior, a qual pode ser encontrada dentro de todos os seres humanos. A sinceridade e a nudez que expressa em suas obras tornou-se o ponto mais marcante da artista, explorando essas questões filosóficas da humanidade, utilizando sua própria linguagem e liberdade de expressão através de símbolos e gestos, expõem a busca por entender seu próprio lugar no mundo.
Figura 32 – Girl in Red (2014)
Fonte: Anna Wypych (2018, n.p.)
Ao retratar essas figuras humanas cheias de conceitos e ideias, ela expressa esses sentimentos da humanidade, fazendo com que o olhar do espectador transcenda o plano material e se aprofunde na busca pela essência da humanidade por meio dos assuntos abordados em suas pinturas.
Eu penso sobre minha arte, e pinturas muito pessoais, e minhas próprias experiências, pensamentos, e sentimentos são sempre o ponto inicial das minhas pinturas. Então eu desenvolvo isso em algo mais geral. [...] Eu quero que você veja no meu trabalho algo mais pessoal para você, não somente minha história, mas uma reflexão da sua história. (WYPYCH, 2018, n.p.)
Retomando um dos temas recorrentes da segunda onda e das principais artistas feministas da década de 1970, as coleções de pinturas de Amy Judd são cheias de momentos sensitivos e silenciosos, intrigantes, surreais e sedutores.
Inspirada pelo relacionamento encantador e imaginário da relação entre mulheres e natureza encontrada em mitologias e folclores, a artista cria composições curiosas, que conjuram essas narrativas mitológicas e criaturas em suas obras. Um tema comum em seus trabalhos é a utilização de penas como armaduras em mulheres nuas e pássaros como familiares – em suas pinturas surreais ela alude as penas às representações de força e coragem, ao invés de fragilidade.
Figura 33 - Rise Again
Fonte: Flickr (2013, n.p.)
A carga simbólica de suas obras, demonstram mulheres fortes – que mesmo sem rosto, não são anônimas – cuja extensão do corpo está em contato com a natureza. Ao mesclar corpos erotizados com força e delicadeza, suas composições surreais transformam mulheres híbridas de pássaros, insetos e plantas, utilizando símbolos como a coruja de Minerva ou o cisne de Leda, de diferentes mitologias com deusas poderosas.
Figura 34 - The Muse
Fonte: Flickr (2013, n.p.)
Judd evidencia a forte conexão da humanidade com o reino animal em suas obras, e em algumas de suas obras que apresentam familiares espirituais representam a busca do ser humano por sua verdadeira identidade, em pinturas misteriosas e dramáticas, ressaltadas pelo fundo negro ou cinza, e a utilização de luz e de sombras cria uma atmosfera reflexiva cujo entender necessita de um profundo silêncio e contemplação.
Ao passo que muitas artistas celebram o corpo jovem e cheio de sensualidade, Aleah Chapin mostra de maneira empática como o corpo envelhece e
as marcas deixadas pela vida conforme os anos se passam, e enaltece a forma humana e suas experiências em suas obras. “A ideia de contar uma história através do corpo tem sido algo que eu explorei profundamente, e foi por uma razão maior ainda que eu escolhi pintar pessoas mais velhas, pessoas cujas histórias são normalmente mais aparentes.” (CHAPIN, 2017, n.p.)
Sendo uma das poucas artistas atualmente que exploram esse mundo e retratam mulheres mais velhas de maneira tão realista e vívida, as obras de Chapin ganham uma atenção especial pela delicadeza e fidelidade que traz em cada uma de suas pinceladas, utilizando-se de tons frios que ressaltam suas modelos, que vivem suas vivem suas próprias histórias dentro de suas molduras. Suas pinturas, sempre tão sinceras, esboçam momentos de felicidade e compaixão que trazem uma sensação aconchegante aos seus espectadores, trazendo o envelhecimento como um protagonista que assume novos significados, cheio de vida.
Figura 35 - The Three Graces (2013)
Fonte: Aleah Chapin (2013, n.p.)
Enquanto muitas artistas ainda voltam seu foco completo para as questões principais do feminismo – os estereótipos e a luta contra a objetificação e sexualização feminina -, tentando combater esses temas em suas obras, muitas artistas da terceira onda passaram a conciliar o movimento artístico com outros movimentos sociais, o que levou à criação de materiais que valorizam etnias específicas e culturas, ou mesmo somente o corpo humano, o ser humano cru e puro.
Alguns temas permaneceram como tabus através das décadas, como a sensualidade e sexualidade feminina, assim como o envelhecimento, pouco retratado em obras artísticas com conceitos relacionados ao belo e à admiração do ser humano, mas obras bem trabalhadas com esses assuntos têm sido bem aceitas e difundidas na sociedade, apreciadas, o que sugere uma mudança de pensamento ainda que existam limitações nas aceitações do público, diferente do que acontecia no começo da segunda metade do século XX.
As temáticas das primeiras artistas feministas permanecem até os dias atuais, de maneira sutil, menos radical, e suas ideologias ainda são reforçadas em muitos trabalhos artísticos, como a conexão da mulher, do corpo e do espírito feminino com a natureza, e o sagrado feminino, de mulheres fortes que conquistaram seus corpos depois de anos de luta no passado. A beleza feminina conquista seu espaço em quadros e fotografias produzidos por artistas mulheres – o contrário do que acontecia até décadas atrás -, e ganham paredes em museus, os olhos do mundo.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao longo do século XX e XXI e das segunda e terceira onda do feminismo uma quantidade incrível de artistas visuais mulheres dispostas a se mostrarem engajadas em assuntos políticos e sociais através de sua arte – expondo os verdadeiros problemas intrínsecos à sociedade, na tentativa de libertar não somente a si mesmas, mas a todas as mulheres dos padrões sociais -, que atribui grande significado a cada uma de suas obras quando não utilizadas para agradar o público, e sim para confrontar e criar choque, buscar por uma solução permanente para patologias da humanidade.
A arte feminista dá suporte ao movimento do qual se originou, e suas artistas se fazem presentes a partir do momento que são lembradas por suas obras impactantes que mudaram pensamentos na sociedade. Até então, a mulher era retratada de maneira sexualizada e objetificada, e a luta feminista estava amornada depois de seu auge durante a luta sufragista. Obras como as de Judy Chicago, Ana Mendieta e Hannah Wilke transformaram a maneira como a sociedade poderia enxergar o corpo feminino, além da sensualidade e da sexualidade, além de um objeto e de um agente oprimido por séculos.
Como arte de protesto, o movimento feminista nem sempre foi sutil, confrontando o público de maneira negativa na tentativa de chamar sua atenção para a questão principal de sua arte, mas ao unir-se com os demais movimentos – em prol de culturas, etnias, raças, religiões -, a arte feminista cresceu e ganhou espaço, sem deixar de ser um assunto extremamente contemporâneo e sem deixar de valorizar todas as minorias da sociedade. As conquistas do movimento feminista refletem-se também na parte artística e em suas artistas, que se desprenderam das amarras da sociedade para criarem suas próprias narrativas.
Com o decorrer da pesquisa e do ano de produção da mesma, as opiniões se transformam desde o início da monografia, e por ser um assunto extenso, um ano acabou por ser pouco tempo para concluir a pesquisa em seu total – visto que há muito mais assuntos dentro da arte feminista para dissecar, como a parte da luta contra preconceitos raciais e discriminação de gênero, que foi pouco discutido, e demais artistas as quais precisaria de mais tempo para pesquisar sobre e relatar o trabalho dentro do movimento artístico.
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APÊNDICE A
Método de Escolha das Obras de Arte
O método utilizado para a escolha de imagens de cada artista envolve a relação da obra com o movimento artístico feminista; a temática proposta dentro do envolvimento da artista com o feminismo; os símbolos escolhidos pela artista que causam maior impacto na obra; as técnicas usadas (fotografia, pintura e colagem); a
importância da obra na arte feminista, na arte contemporânea e sociedade; e o conceito que abrange as obras escolhidas.